Estava uma chinesa, um ciclista, um homem de fato e um sikh de dois metros…

Reparei nele enquanto descia as escadas de acesso à estação. Chegámos ao mesmo tempo ao último degrau, mas o homem adiantou-se em direção à máquina. Era muito alto, seguramente mais de dois metros, e as pernas compridas davam-lhe uma vantagem preciosa. Foi também mais rápido do que eu a tirar o bilhete. Para quem está numa cidade estrangeira, lidar com máquinas destas leva o seu tempo, enquanto procuramos os botões em que carregar para escolher o destino, o tipo de bilhete ou a ranhura onde enfiar as moedas. Se estivéssemos no metro de Lisboa logo lhe dizia quem era mais rápido a carregar o passe.

Mas, se estivéssemos em Lisboa, o homem alto, de fato escuro e sapato preto brilhante, barba comprida, pele morena e turbante não passaria tão despercebido. Ali, num país tolerante com identidades religiosas, numa cidade onde os dastar, os típicos turbantes, os denunciam com naturalidade, era apenas mais um sikh em Oxford Circus – um entre os 340 mil que a BBC diz existirem no Reino Unido, naturais ou descendentes da vaga de emigração do estado indiano de Punjab nas décadas de 1950 e 60.

Sentada em frente ao local que escolhi seguia uma rapariga de aparência oriental. Coreana, japonesa, chinesa, vietnamita? Era loura (cabelo pintadíssimo), gira, de olhos rasgados. Tinha unhas muito pontiagudas e coloridas. Ao lado dela seguia um homem de cabelo aparado, fato escuro, sapatos castanhos engraxadíssimos, camisa branca com botões de punho dourados e lenço no casaco da mesma cor da gravata, lilás-forte.

A rapariga tanto podia ser turista como trabalhar na cidade. Podia ser imigrante ou ter nascido em Upper Helmsley, filha de pais nascidos em Bedfordshire, neta de imigrantes tailandeses. O homem dos botões de punho podia estar a regressar de um banco na City ou a ir para uma embaixada no West End. Ou se calhar até trabalhava em Epping, a trinta quilómetros do Big Ben, no extremo oriental da Central Line, cercado por floresta e campos agrícolas. Podia ter os filhos a estudar no elitista Eton College. Ou então estava à procura, com a mulher (olhei para a aliança), de uma casa barata nas Terras Altas da Escócia onde pudessem criar os miúdos com menos muros e mais verde. Eu não sabia nada sobre aqueles dois à minha frente.

Até que aconteceu. O sikh de dois metros aproximou-se a sorrir e sentou-se ao lado da rapariga oriental enquanto a beijava. Entre a cabeça loura platinada dela e o turbante dele deviam estar, seguramente, dois palmos de diferença de altura. Ao mesmo tempo, ao lado do homem dos botões de punho, sentou-se outro que tinha entrado em Bond Street. Tinha uma T-shirt transpirada, capacete de bicicleta na mão, calções, ténis e uma mochila velha. Sorriram um para o outro. Beijaram-se. Mais discretamente do que o casal ao lado, mas não estavam a esconder de ninguém. O estafeta tinha uma aliança também.

Se Londres é um extraordinário melting pot de gente, culturas e religiões, o seu tube é talvez o melhor sítio para o apreciar e admirar. A eleição recente de um mayor muçulmano, o primeiro da história do país, só veio adicionar mais tempero ao caldeirão de diversidade da capital britânica. Eu juro que olhei à volta à procura da câmara. Ao meu lado, uma rapariga também viu e sorriu. Olhámos um para o outro e baixámos os olhos. A cena parecia tirada de um daqueles anúncios da Benetton que alertavam para a multiculturalidade – e para o consumo, claro. Ou um daqueles programas em que filmam a reação das pessoas a situações fora do comum. Se foi o caso, devemos ter passado no teste. Eram só dois casais a beijar-se numa viagem de metro ao fim da tarde. E um jornalista a pensar que, às vezes, os óculos do preconceito deixam-nos de vistas curtas.

[Publicado originalmente na edição de 18 de setembro de 2016]