Estes nossos campeões de basquetebol são especiais

Na comédia espanhola Campeões, que estreia hoje nas salas de cinema, os protagonistas são atletas com deficiência intelectual que jogam basquetebol – e provam a cada drible que não há limites para o sucesso. Em Portugal, os nossos campeões – a equipa da seleção nacional de basquetebol para portadores de deficiência intelectual – preparam a participação no 9.º Campeonato do Mundo na Austrália, em outubro. E dão-nos a todos uma lição de vida constante.

Texto de Ana Pago

No filme Campeões, de Javier Fesser, quando o treinador Marco (Javier Gutiérrez) diz ao responsável do novo clube que o contratou que o seu trabalho é treinar jogadores normais – deixando implícito que ninguém, naquele grupo de basquetebolistas com deficiências intelectuais, é jogador e muito menos normal –, Julio (Juan Margallo) dá-lhe logo o toque: “E quem é normal, Marco? Porventura tu és normal? Nem tu nem eu somos normais.”

Em Portugal, existe uma equipa de campeões como a do filme de Fesser: a Seleção Nacional de Basquetebol para Pessoas com Deficiência Intelectual.

Mal sabia Marco as lições que os seus atletas especiais lhe dariam sobre amizade e lealdade – esquecidas desde os tempos em que treinava uma das melhores equipas de basquetebol da liga espanhola, de que foi despedido por conduzir alcoolizado. Ou que em Portugal, a Seleção Nacional de Basquetebol que representa a Associação Nacional de Desporto para a Deficiência Intelectual (ANDDI) é também um exemplo.

“Esforçamo-nos mesmo muito, nem faz ideia”, garante António Lopes, ajudante de eletricista e capitão da Seleção, já chamado para representar o país em Brisbane, na Austrália, em outubro, no 9.º Campeonato do Mundo de Basquetebol INAS (a Associação Internacional de Desporto para Pessoas com Deficiência Intelectual). “Em campo lutamos sempre pelos três primeiros lugares”

António Lopes, o 8 da Seleção das Quinas, garante que a equipa joga sempre para os três primeiros lugares.

É certo que faltam meios para treinarem regularmente e a dispersão geográfica dos jogadores convocados também não ajuda. Se Cristiano Correia, Diogo Lopes, Eduardo Lima, Fábio Soares, Hélder Santos e Rúben Santos jogam, como ele, no Clube de Gaia, em Vila Nova de Gaia, Fábio Câmara é d’Os Especiais da Madeira, com um oceano pelo meio. E ainda têm Carlos Duarte e Ricardo Martins a virem de propósito da ARCIL, na Lousã, para os encontros.

“É preciso haver vontade para conseguirmos juntar-nos todos antes dos jogos importantes”, confirma António Lopes. Em campo, é ele um dos mais rápidos e ágeis do grupo, como peixe na água a fechar contra-ataques e a reaver a bola se um lançamento falha. “À parte isso, jogamos aos fins de semana por nós, nos nossos clubes, como podemos. Sempre a melhorar.”

Fábio Câmara concorda com o colega: “Somos seres humanos iguais aos outros, que têm objetivos e lutam para lá chegar”, diz o jardineiro da Quinta do Leme, no Funchal, onde começou a jogar em 2004, com 14 anos. Nos intervalos entre aparar uma sebe e outra, descobriu que o basquetebol o tornava destemido. Tinha mão para a bola, era capaz de tudo. “Agora só quero ir à Austrália, ser campeão, celebrar com a família e os amigos”, diz o jogador d’Os Especiais da Madeira, focado nesta sequência precisa. Daquilo que vê, têm boas hipóteses: “Vamos correr até onde as pernas aguentarem. E ganhar, já que juntos somos mais fortes”, acredita, motivado.

Segundo a OMS, a deficiência intelectual caracteriza-se por limitações consideráveis no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo, com origem antes dos 18 anos.

Isto porque participar em competições de alto nível é sempre inspirador para eles. “No basquetebol estas pessoas encontram uma oportunidade única de serem avaliadas pelas suas capacidades desportivas, em vez de serem avaliadas pelas suas incapacidades”, diz Fausto Pereira, vice-presidente da Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência (FPDD). Ou seja, o desporto tem tanta importância para eles como para outra pessoa qualquer, mais esta de ser um palco em que podem, de facto, mostrar as suas qualidades.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a deficiência intelectual caracteriza-se por limitações significativas tanto no funcionamento intelectual como no comportamento adaptativo, expressas nos domínios conceptual, social e prático, com origem durante o período de desenvolvimento (antes dos 18 anos). Na prática, traduz-se em défices de raciocínio, resolução de problemas, pensamento abstrato, comunicação, autonomia, compreensão dos padrões socioculturais, responsabilidade e participação na comunidade. As causas incluem desordens genéticas, doenças maternas, exposição a substâncias tóxicas no útero, partos anormais, trauma obstetrício, problemas congénitos de metabolismo e malformações cerebrais, convulsões, infeções, lesões cranianas traumáticas ou má nutrição.

António Lopes recupera uma bola perdida após um lançamento.

“Por norma, os atletas aprendem o jogo quando submetidos a um processo de treino adequado e reiterado. São treináveis, e ao treinarem adquirem e melhoram as suas capacidades desportivas”, acrescenta o também ex-selecionador da Seleção Nacional de Basquetebol ANDDI/FPDD e atual presidente (o primeiro português, no cargo desde 2014) da INAS Europa. Claro que uns irão jogar melhor do que outros, dependendo das capacidades individuais de cada um. “Mas nisso passa-se o mesmo com toda a gente”, diz.

Além de que foram já muitos os títulos que a Seleção Nacional de Basquetebol para portadores de deficiência intelectual conquistou ao longo dos 29 anos de existência da ANDDI, que apoia o alto rendimento: após ser campeã do mundo no Funchal (2002), em Yokohama (Japão 2006) e em Tondela (2010), a equipa venceu o 7.º Campeonato do Mundo de Basquetebol INAS em Ancara, Turquia, em 2013.

Como se não bastasse, subiu ainda ao pódio em algumas edições dos Global Games INAS: recebeu o ouro em Liberec, na República Checa, em 2009, e o bronze na Ligúria, Itália, em 2011. É atualmente a campeã da Europa em título (Paris 2018) e a vice-campeã do mundo (sagrada em Loano, Itália) em 2017.

Não querendo comparar o que não tem comparação – atletas identificados com deficiência intelectual não conseguem os mesmos níveis de eficácia desportiva que alcançam os outros –, Fausto Pereira orgulha-se de que hoje em dia lhes seja reconhecida a capacidade e o direito de jogarem em representação do seu país, ao mais alto nível, num subsistema desportivo para o qual são elegíveis: o das pessoas com deficiência e, em termos latos, o desporto paralímpico.

Ainda não vivemos numa sociedade que aceita sem reservas os atletas com deficiências intelectuais.

“Por vezes, os mais talentosos atingem um grau de eficiência tão grande que se tornam surpreendentes aos olhos de todos”, sublinha o presidente da INAS Europa, considerando que apesar de tudo, lamentavelmente, ainda não vivemos numa sociedade que os aceita sem reservas. Seja como for, se eles alcançam estes objetivos com treino precoce, de forma regrada, então “estão aptos a ser incorporados no mercado de trabalho e a conseguir a inclusão, uma palavra muito na moda”.

Um exemplo paradigmático fora do basquetebol é o do atleta paralímpico Lenine Cunha, que aos 4 anos sofreu uma meningite que lhe comprometeu a memória, a visão, a audição, a fala e a capacidade de andar. Aos 7, a mãe pô-lo a fazer desporto para que desenvolvesse, algo que o filho muito lhe agradece. Em março deste ano, Lenine ganhou a 203.ª medalha da carreira nos Europeus de pista coberta da Federação Internacional para Atletas com Deficiência Intelectual, na Turquia: a duas pratas (no triplo salto e pentatlo), seguiram-se um bronze nos 60 metros barreiras, mais um bronze no salto em comprimento e outras duas pratas (na estafeta 4x200m e no salto em altura).

“Último dia – e que dia: medalha de prata no salto em altura, pelo que termino o Campeonato da Europa com seis medalhas, que no total são 203 internacionais”, escrevia ele na sua página de Facebook, feliz com a vitória pessoal e com o título de campeão europeu por equipas alcançado pelo país. “Parabéns a todos os meus colegas. Somos os maiores”, aplaudiu.

Os verdadeiros campeões até podem ser diferentes, mas sabem o que realmente importa na vida.

Na verdade, muitos destes atletas são cumpridores, têm emprego, boa autonomia e ótimas relações com os seus colegas e superiores, elogia Fausto Pereira. O responsável da Federação para Pessoas com Deficiência acredita que talvez fossem menos expeditos se não estivessem integrados nestes programas de treino, o que lhe mostra todos os dias que “a prática desportiva é uma ferramenta extraordinariamente importante a vários níveis, a começar pelo desenvolvimento pessoal”.

Campeões de Fesser, como de resto os nossos, ensinam-nos que ser normal é muito relativo.

E sim, é um facto que a comédia de Javier Fesser nos faz rir, apesar da seriedade do tema: não foi por acaso que somou 31 nomeações e 12 prémios, entre os quais três Goya de Melhor Filme, Melhor Música Original e Melhor Ator Revelação (Jesús Vidal, o Marín do filme, que diz a Marco que não queria ter um filho com deficiência, mas gostava muito de um pai como ele). O que não impede que no final nos caiam umas boas lágrimas. quando o treinador conclui que os verdadeiros campeões até podem ser diferentes, ingénuos, mais complexos de um modo geral, mas sabem o que realmente importa na vida. Isso de ser normal é muito relativo.