Estudo científico: Não, não há nenhum “gene homossexual”

Estudo científico: Não, não há nenhum
Duas mulheres beijam-se no desfile anual do Orgulho Gay em Praga, a 10 de agosto. © REUTERS/David W Cerny

Um estudo do genoma de quase meio milhão de pessoas divulgado na revista científica Science concluiu que não há um gene específico para a orientação sexual, ou mesmo um conjunto de genes específicos. A predisposição para a atração por pessoas do mesmo sexo ou do oposto parece assim resultar de uma complexa associação entre fatores genéticos e ambientais — como a maioria das características humanas.

“É impossível determinar o comportamento sexual de alguém a partir do seu genoma.” É a conclusão de um estudo efetuado a partir do material genético de 493 mil voluntários britânicos, americanos e suecos e divulgado esta quinta-feira na revista científica Science, sumarizada por um dos autores, o geneticista estatístico americano Benjamin Neale.

Apresentado nos media como o estudo que prova a inexistência de um “gene homossexual”, as suas conclusões não implicam no entanto que não haja qualquer predisposição genética ou biológica para o comportamento sexual, que se trataria então de uma opção individual. “Isso está errado”, diz outro dos autores do estudo, o também geneticista Brendan Zietsch, da Universidade de Queensland, Austrália, ao site LiveScience. “O que apurámos é que há muitos genes que determinam o comportamento sexual e, no caso específico deste estudo, a atração por pessoas do mesmo sexo. Cada um desses genes tem individualmente pouco efeito mas juntos têm um efeito substancial.”

“Outra possível interpretação errada é de que se a preferência por parceiros sexuais do mesmo sexo é influenciada geneticamente, então é geneticamente determinada”, esclarece Zietsch. “Isso não é verdade. Indivíduos geneticamente idênticos — gémeos — muitas vezes têm orientações sexuais distintas. Sabemos que há fatores não-genéticos também, mas não os conhecemos bem e o nosso estudo não diz nada sobre eles.”

Ainda assim, o estudo parece concluir que existe uma coincidência entre a predisposição genética para atração pelo mesmo sexo e a disponibilidade para novas experiências assim como a predisposição para problemas de saúde mental.

Uma possibilidade de explicação para tal é, de acordo com Zietsch, que o estigma associado a relações com pessoas do mesmo sexo cause ou exacerbe problemas desses. O que pode criar uma correlação genética.”

“Genes da atração pelos mesmo sexo e pelo sexo oposto não estão relacionados”

Mas talvez o achado mais interessante do estudo seja de que a sexualidade humana é ainda mais complexa do que se esperava. “Parece haver genes relacionados com a atração por pessoas do mesmo sexo e outros relacionados com a atração por pessoas do mesmo sexo. E não estão sequer relacionados”, diz Zietsch. “Estes resultados sugerem que não deveríamos pensar em medir as preferências sexuais num simples continuum, de “hetero” para “gay”, mas sim em duas dimensões separadas: atração pelo mesmo sexo e atração pelo sexo oposto.”

Este é o maior estudo deste tipo jamais feito, mas as suas conclusões devem, advertem os autores, ser encaradas com precaução. É que a amostra corresponde a populações de origem europeia e de países ocidentais, e sobretudo adultos de uma certa idade, que viveram grande parte da sua vida sob normas sociais, sexuais e legais mais estritas e rígidas que as atualmente existentes. É possível pois que pessoas mais jovens, que terão em grande parte crescido numa sociedade mais permissiva, se sintam mais à vontade para ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo que indivíduos mais velhos com o mesmo perfil genético.

Outra questão que pode colocar-se é que o estudo define como tendo “comportamento sexual homossexual” alguém que alguma vez teve uma relação sexual com alguém do mesmo sexo, usando para essas pessoas o termo “não heterossexual”, enquanto para os que nunca tiveram uma relação sexual com alguém do mesmo sexo usa o termo “heterossexual”.