Eu fico com o sofá, tu levas a Bimby. E espero que te fecundes.

João. Para ti é indiferente, já não estás cá, mas achei que ias gostar de saber que estou com as pantufas em cima do sofá de pele. O teu sofá de pele que generosamente deixaste ficar em troca da Bimby que querias muito levar porque não sabes cozinhar. Tendo em conta que os nossos filhos vão passar algum tempo na tua casa, achei que era um investimento na qualidade da alimentação deles deixar-te levar o aparelho. Não que tu saibas mexer nisso, mas podes pedir à tua namorada para te ensinar.

Vá, deixa-te de coisas. Eu sei que há uma namorada, tu sabes que há uma namorada e os miúdos sabem que há uma namorada. Não que eu lhes tenha dito, mas eles já toparam. Foste tão hábil a esconder a tua relação extraconjugal de mim como dos teus filhos. Eu apanhei-te, eles também. Se quiseres mais informações sobre isto, liga-me e eu explico-te como criar uma password para bloquear o ecrã do telemóvel e assim deixares de estar sujeito a olhares indiscretos dos teus herdeiros.

Os miúdos estão finalmente a dormir, só aterraram perto da meia-noite. Estão tristes. Já me pediram para vir para a minha cama, lá os convenci a adormecer no quarto deles e se acordarem de noite podem vir. É normal. Vai ser assim durante uns tempos. Até se habituarem à ideia, a coisa vai custar. Se eu fosse uma cabra ressabiada e magoada contigo diria que lhes vai custar porque estão habituados, não porque vão sentir a tua falta. São coisas diferentes, o hábito e a partilha do quotidiano. O hábito é a sequência de dias e gestos, um atrás do outro, numa sucessão mecânica de coisas que fazias mas não sentias. A partilha do quotidiano é o que eu queria que fizesses com a tua família: adormeceres os filhos, dares-lhes banho, ajudá-los a fazer os trabalhos de casa, preparar algumas refeições cá em casa, ir às compras, sentares-te no sofá a ver um filme comigo.

E, às vezes, teres sexo comigo. Isso também ajudava. Sabes o que é sexo com a mulher com quem se casou, não sabes? Sexo eu sei que sabes. Sexo com a mulher é que tenho dúvidas de que te lembres. A mim também vai custar. Também vou demorar tempo a habituar-me à ideia de já não estares cá em casa. Não é que esteja triste ou amargurada com isso, mas, caramba, sempre foram 12 anos e isso não se apaga de um dia para o outro. Mas o que me vai custar, acima de tudo, é perceber que tu afinal és mesmo, mesmo igual a tantos outros gajos que conheço, tantos ex-maridos de amigas e colegas, tantos amigos que temos. Tantos dos que se estão a divorciar em manada, agora que chegaram aos 40, os mesmos que se casaram todos na mesma altura, como se fosse um movimento sócio migratório quando estavam a bater nos 30.

Tu sabes o quanto eu detesto clichés de género, João. Sabes o quanto abomino essa ideia de as mulheres serem assim e os homens serem assado e isso determinar comportamentos e reações que resultam de uma mistura de biologia com contexto cultural e educação. Eu sou aquela que acha que homens e mulheres não são assim tão diferentes, e quando se trata de serem imbecis, tanto ataca quem tem ovários como quem tem testículos. A diferença está no cérebro. Tu sabias que eu pensava assim. E no entanto…

No entanto, tu revelaste-te o mais previsível dos tipos, no mais previsível dos comportamentos na hora de acabar uma relação. Enrolaste-te com outra fulana, andaste enrabichado com ela um ano e tal, «à espera de que os filhos crescessem», disseste-me há dias cobardemente, e agora sais de casa depois de eu te confrontar, diretamente para os braços da outra, na cama da outra, na casa da outra. Cuja existência continuas a negar. Querido João, estimo que te fecundes à grande. Não te esqueças de comprar umas lâminas novas para a Bimby. Eu deitei fora a que deixaste cá.

[Publicado na edição em papel da Notícias Magazine de 15 de janeiro de 2017]