Eu sei que já nos beijámos, mas agora vou falar-te da Exposição do Mundo Português

“Olha, estes brasões representam a expansão ultramarina portuguesa. São 32.” Eu ia andando à volta da fonte, ora apontando para a grande taça desenhada pelo arquiteto António Lino, onde os aspersores lançavam água no ar, ora para os canteiros com mais brasões – os tais que uns anos mais tarde haveriam de ser alvo de discussão pública quando a Câmara de Lisboa equacionou a reconversão da Praça do Império. Ana ia tentando acompanhar, mas já não fazia grande esforço. Já não disfarçava, sequer. Não que eu andasse muito depressa – pelo contrário, não queria nada sair dali para um sítio mais recatado, como ela já tinha sugerido um par de vezes -, mas porque só falava do mesmo.

Foi aquilo que me saiu quando cheguei ao pé dela, umas duas horas antes. Depois do embate inicial quando a vi, volvidos uns minutos de choque que tentei disfarçar da melhor forma, começando a caminhar em direção ao Centro Cultural de Belém, desatei a falar da Exposição do Mundo Português, que estava a estudar na faculdade na altura. Foi o que me saiu. Foi o melhor desbloqueador de conversa que consegui. E, como ela parecia interessada, pensei que aquilo seria uma boa forma de queimar tempo.

“Sabes que este não é o Padrão dos Descobrimentos original? Este é de 1960 e foi construído para comemorar os 500 anos da morte do infante D. Henrique. Mas o original é de 1940, era de estuque. Foi projetado pelo Cottinelli Telmo, que foi o arquiteto chefe da exposição. A estação fluvial de Belém é dessa altura. O Museu de Arte Popular também.”

Tínhamos combinado na Praça Afonso de Albuquerque, em frente ao atual Museu dos Coches, perto do edifício antigo que antes tinha o mesmo fim. Era aí que acabava o percurso da carreira 113 da Rodoviária de Lisboa, que vinha da Amadora e passava na Reboleira, onde eu tinha entrado. Não me lembro quantas paragens eram na altura – hoje são 12, fui contá-las -, mas recordo-me bem de que cada uma me pareceu um calvário eterno. Nunca mais chegava. Eu estava ansioso. Queria vê-la. Era um misto de saudade com ansiedade. Nervosismo e excitação.

Mas quando a vi…

“Isto foi uma grandessíssima lavagem de imagem do regime. Uma manifestação de poder do Estado Novo. Em 1940 passavam oitocentos anos da fundação da nacionalidade (1140) e trezentos anos da restauração da Independência (1640). Era o pretexto ideal para Salazar mostrar a grandiosidade e a firmeza do império. Dentro e fora de portas. Ele queria lá saber que a Alemanha tinha invadido a Polónia menos de um ano antes. Aliás, fascista por fascista, apesar de se considerar neutro para não chatear os ingleses, ele estava alinhado ao lado do Franco e do Mussolini, com o fascismo a crescer.”

Aquela não era a Ana a quem eu tinha dado uns beijos e uns amassos uns meses antes, nas férias do verão. Aquela não era a Ana de calções curtos e T-shirts justas que dizia, no calor da Beira Baixa, que quando nos víssemos em Lisboa já íamos poder fazer tudo o que tínhamos vontade. Só precisava de tempo para ter a certeza do que sentia. Aquela não era a mesma Ana. Era só uma miúda franzina, com roupa larga, uma sombrinha de telescópio, daquelas que recolhia, um blusão de aviador que devia ser do irmão mais velho e um cabelo mal penteado por cima de uma cara com acne.

“Estás a ver o que estão a fazer do outro lado da cidade, ali para Xabregas, a Expo’98? Em 1939 fizeram aqui. Mais de cinco mil pessoas trabalharam aqui durante meses para fazer pavilhões temáticos. O António Ferro, o Leitão de Barros, o Duarte Pacheco e todos os nomes fortes do regime contribuíram para isto. Foi uma coisa do caraças. Um prodígio de arquitetura, mas uma fantochada de propaganda para enaltecer o espírito português.”

Quando nos despedimos e a Ana foi para Loures (ou seria Odivelas?), e eu regressei à Amadora, ela disse-me que ficou com a ideia de que eu não tinha grande vontade de a ver. Eu menti descaradamente e disse que tínhamos de nos encontrar novamente. Afinal, ainda faltava falar do movimento modernista e da arquitetura ao serviço do regime. Mas nunca mais falámos. O que vale é que Ana não é o nome verdadeiro dela.