Como explicar a morte às crianças

Falar da morte é sempre complicado. Porque vivemos numa sociedade em que o tema ainda é tabu, de alguma forma. Recuamos algumas décadas e percebemos que antes era diferente. As famílias estavam mais próximas e cuidavam dos doentes em casa, as crianças assistiam com maior naturalidade ao processo de doença, envelhecimento e morte.

Hoje não. As crianças são privadas deste contacto, muitas vezes excessivamente protegidas de uma realidade que, afinal, faz parte da vida. De todos os seres vivos.

O animal de estimação morre e a criança é enganada. Os pais compram um peixe quase igual e a criança nem se apercebe da troca. Diz-se que o cão foi passear e encontrou outra família.

Se até para os adultos abordar a morte é difícil, explicá-la às crianças é mesmo muito difícil, e nem sempre os adultos sabem como fazê-lo. Especialmente com crianças mais novas. E, muitas vezes, ainda que de forma não intencional, os adultos cometem erros, que podem ter um impacto desastroso no bem-estar da criança.

Apesar de não existir uma explicação-receita, sabemos que há coisas que devem ser ditas, e coisas que jamais devem ser ditas. Vejamos então.

Cuidados a ter

Em primeiro lugar, ter em atenção a idade da criança. Crianças mais novas, em idade pré-escolar, têm ainda um funcionamento cognitivo muito concreto, que se traduz na dificuldade em compreender a natureza universal e irreversível da morte.

Nesta fase do desenvolvimento, as crianças acreditam que as pessoas podem morrer e depois voltar a viver (tal como acontece nos desenhos animados). Têm também dúvidas muito concretas como, por exemplo, para onde vai a pessoa, se vai ter frio ou fome, se pode falar e ouvir.

Crianças mais velhas já têm maior capacidade em compreender este processo. Ao mesmo tempo, aceitar que a morte é inevitável, irreversível e que pode acontecer de forma totalmente inesperada gera muita ansiedade e sensação de falta de controlo.

Mas esta é, de facto, a realidade. Não morrem apenas as pessoas muito velhinhas ou muito doentes. Também existem mortes súbitas e acidentais. Também existem suicídios, talvez a forma mais difícil de ser explicada a uma criança…

O que não deve ser dito:

«A avó está a dormir um sono profundo»
Associar a morte ao sono é algo que não deve ser feito, na medida em que pode desencadear nas crianças medo de ir dormir e nunca mais acordar. Quando dormimos, o nosso corpo continua a funcionar, mexemo-nos, sentimos, sonhamos e podemos acordar. Quando se morre, não.

«Morreu e agora é uma estrela no céu.»
E nas noites em que o céu está nublado e não se conseguem ver as estrelas? Para onde foi a pessoa que morreu? E como é que uma pessoa se transforma em estrela e vai para o céu? Perguntas a que, depois, não sabemos como responder…

Esta explicação é muito abstrata para crianças mais novas. Ao mesmo tempo, pode ser muito simplista para crianças mais velhas.

No entanto, esta metáfora pode ajudar a criança a pensar no ser humano como fazendo parte do universo. Também pode ser útil para ajudar a criança a perceber a ideia (abstracta) de alma. Dependendo das crenças religiosas da família, assim esta explicação pode, ou não, ser usada, mas sempre com algum cuidado.

«Morrer é ficar invisível.»
Como assim? E para onde vai o corpo da pessoa? Desaparece? Isto é muito estranho…
Novamente, uma explicação muito abstrata para os mais novos e sem nexo para os mais velhos.

Perante isto… como explicar?

As crianças precisam de uma explicação breve e adequada à sua idade. Se a pessoa está gravemente doente, isso não deve ser ocultado à criança. A criança tem o direito de saber, de forma adequada, também de modo a poder preparar-se para uma eventual perda.

Sabemos também que as perdas súbitas e inesperadas geram maior nível de stress, quer nas crianças, quer nos adultos. Esteja preparado para isso.

Deve explicar-se à criança que morrer é quando o corpo da pessoa deixa de funcionar. A pessoa já não sente, não respira, não se mexe, não fala nem ouve. Também não sofre, ou seja, se tinha dores, deixa de as ter.

Explicar de forma clara que é diferente de dormir.

Salientar, sim, as memórias boas que temos dessa pessoa, e que guardamos no nosso coração. Essas não irão morrer nunca, ficam connosco para sempre.

A criança deve ser integrada, também em função da sua idade, nos rituais associados à morte. Excluir a criança deste processo pode dificultar o processo de luto.

Crianças mais novas não devem assistir aos serviços fúnebres, mas podem e devem escrever uma carta ou fazer um desenho de despedida, que irá ficar com a pessoa que agora se perdeu.

As crianças mais velhas e com maior maturidade podem assistir, desde que não sejam expostas a imagens traumatizantes. Uma imagem vale mesmo mais do que mil palavras e pode ficar gravada na memória da criança para sempre…

Os rituais têm a vantagem de facilitar o processo de luto. Depois do funeral, se a criança quiser ir visitar o cemitério, isso deve ser permitido. Acompanhada de alguém significativo e que saiba gerir a situação. E por saber gerir a situação entende-se saber lidar com as emoções.

As emoções negativas, como a tristeza e a saudade, fazem parte da vida e são normativas em situações de perda. Não vamos negá-las, desvalorizá-las ou escondê-las da criança. Vamos, sim, aceitar que elas existem e transmitir expectativas positivas, no sentido de ajudar a criança a acreditar que irão amenizar-se com o tempo.

Lembre-se: o ajustamento da criança depende, acima de tudo, da capacidade de ajustamentos dos adultos que a rodeiam. Dê espaço para a criança chorar, falar, recordar. As boas memórias não morrem.