Paulo Bragança: “Fui sem-abrigo em Londres e levei porrada por ter um cartão melhor para dormir”

(Pedro Rocha/Global Imagens)
No dia em que Paulo Bragança regressa ao Centro Cultural de Belém, às 21:00, 22 anos depois do primeiro concerto naquela sala, o Diário de Notícias republica uma entrevista de vida datada de janeiro que mostra como, depois de tempos difíceis, é impressionante o renascer deste grande músico português.

 

Paulo Bragança. O fadista, agora com 47 anos, vai lançar em abril Exílio. Tem ido a inúmeros festivais e abraçou um projeto com os Moonspell. Para trás estão os tempos terríveis, que conta nesta entrevista. Lição de vida.

Leonídio Paulo Ferreira

Regressou há dias de uma visita a Angola, que foi onde nasceu em 1971. Em que cidade?
Nasci na fronteira com a Namíbia. O meu pai, sendo farmacêutico, havia excedentes de medicação que ele levava para onde fosse necessário. A minha mãe recusava-se a ficar em casa. Era uma miúda de 16 anos. Ele tinha 20. Ela ia sempre com ele e assim eu nasço no meio do deserto, apesar de ser registado em Luanda. Houve logo problemas porque houve transfusão de sangue sem meios. Foi voltar para trás, apanhar um avião e safar os dois.

Tem irmão e irmã também nascidos lá. A família fica depois da independência, certo?
Saí de lá com 12 anos. Tenho memórias. A minha mãe fica parva, descrevo as casas todas.

Quando saem em 1983, saem porque Angola não dá oportunidades e Portugal é que é?
Não, não. Nunca quisemos sair. A família do meu pai sempre viveu entre Brasil e África. Ainda tenho dois tios-avós no Brasil. Mas as coisas iam ficando bravas. Era o tempo da guerra civil do MPLA com a UNITA.

E qual foi a gota de água?
Nós morávamos no 8.º C. Um dia às duas da manhã tocam à campainha e não largam até abrir a porta. O meu pai vê três MPLA, traziam garrafas de whiskyà cintura. Vinham desde o 1.º andar a saquear. E se não abrisse eles mandavam a porta abaixo. Mal abre vão duas kalashnikov para a barriga dele e uma para a barriga da minha mãe. A desculpa é que tinha saído daquele prédio uma bala silenciosa. Queriam passar revista à casa. E o meu pai acedeu. A coisa foi muito má. A minha mãe teve de fazer comida para eles, tivemos de os aturar e eles sempre “vou-te matar, isto foi daqui”, mas entretanto a pegarem em nós ao colo, a brincarem. Estavam fora de si.

Vieram para onde em Portugal?
Para Portugal viemos só meia dúzia de dias. Fomos para o Canadá, onde chegámos em janeiro. A firma do meu pai era uma multinacional que tinha capitais canadianos e sul-africanos, sendo as sedes em Toronto e em Joanesburgo. Chegámos, lá estão 35 ºC negativos, neve, e nós nunca tínhamos visto tal. A minha mãe entra em delírio, recusa-se a fazer fosse o que fosse. Estivemos lá seis meses. Fomos para Nova Iorque durante três meses. Último reduto: Brasil. Mas a minha mãe chega a São Paulo, onde estavam os meus tios-avós, e diz: “Então eu saio de um país de guerra e venho para aqui e os meus filhos têm de ir de segurança para a escola?” E viemos para Portugal. Lisboa e depois Cascais.

(Pedro Rocha/Global Imagens)

Refizeram a vida como? Tinham poupanças?
Foi um senhor que na altura era diretor de um banco que emprestou aos meus pais dinheiro para abrir um negócio. Depois dedicaram-se à restauração. Tínhamos uma pastelaria e dois hotéis pequeninos.

Chega aos 18 anos em Portugal no final dos anos 80. O objetivo é fazer a universidade ou a música já existe aí como projeto de vida?
A música sempre existiu porque o meu pai tocava guitarra portuguesa. Em África, na minha casa, eram frequentes os saraus fadistas.

Não teve dos pais pressão para estudar?
É uma coisa de que quase não os perdoo porque houve uns testes psicotécnicos que aconselhavam a que estudasse música e eles não ligaram nenhuma porque era só Direito. E foi Direito por linhas tortas. Fiz até ao terceiro ano e tenho ainda amigos desse tempo, da Clássica e da Lusíada. Um colega de curso, não sei como sabia que eu cantava, diz-me que vou fazer a Aula Magna da semana académica. Isso é que foi importante para mim.

Correu bem?
Lindamente. Mas pus logo harpa paraguaia. Aquilo deu logo um burburinho. O que é certo é que ali percebi que me senti tão bem que qual Direito qual caraças.

O objetivo passou a ser gravar um disco?
Aí começo a ir pelas casas de fado e a dar-me a conhecer.

Era convencional na forma de vestir?
Nem pensava nisso. Havia fotos minhas de fato e gravata. Não abri caminho para um novo fado, abri caminho para o meu caminho. Depois penso: não sou funcionário público, não vou de fato e gravata para o palco.

Os pais faziam pressão para ser certinho?
O meu pai dizia-me coisas… daí a rutura. Desde os 16 anos já fazia a minha vida, por isso tudo bem. Aí há um percurso de quatro anos de casas de fado. Já ia ao D. Rodrigo em Cascais. Conheci outra casa na Rua das Taipas, onde a Celeste Rodrigues cantou.

As casas de fado dão-lhe dinheiro para viver?
Não foi por dinheiro. Tinha bastante dinheiro porque ganhava bem a vender time-sharing. Era bastante fácil: ia mostrar a casa, depois íamos jantar. Eram em regra estrangeiros.

Quando é que as pessoas que não frequentam casas de fado descobrem Paulo Bragança?
O Jorge Fernando começou a ter muito interesse por mim, o Mico da Câmara Pereira também, o próprio Nuno. Eu só queria gravar, estava farto de andar em casas de fado, mas serviram-me para dar estaleca, conhecer uma geração que de outra maneira não tinha conhecido… Ainda não havia Mariza, nem Carminho. Havia eu e a Mísia, mais ninguém. O Jorge um dia diz-me assim: “Vou fazer o lançamento de um disco no Pátio Alfacinha, a Poligram vai lá estar e eu vou-te convidar para cantar.” E saí de lá quase com contrato assinado. Em 92 saiu o álbum. Um sucesso.

Recorda-se de como foi a reação dos jornais?
Dos jornais e do público não tenho a mínima queixa, nem nos piores tempos em que a imprensa podia ter posto coisas escabrosas. Sempre respeito máximo. Havia o Sete e havia o Blitz, que formavam opinião. Mas, quando eu começo a fazer programas de televisão, o grande espanto era o fadista que canta descalço… e reduziu-se a isso. É uma coisa que me enerva um bocado. Isso aconteceu por acaso em Cascais, onde estavam Cidália Moreira, Rodrigo e Maria da Fé, e eu não gostava dos sapatos que levava e decidi ir descalço.

Notas sobre a Alma foi com 21 anos. Escrevia?
No primeiro álbum quis logo pôr músicas minhas e escritas por mim. Lembro-me de uma frase de um poema: “E agora no meu leito eivado deita-se a morte comigo.” E o antigo diretor da Poligram dizia-me: “Como é que um puto de 20 anos vai dizer isto?” Então arranjaram a querida Rosinha Lobato Faria para escrever para mim. Eu não ia muito com cestas de frutas… cantava aquilo e não sentia.

Sente-se melhor a cantar coisas suas?
Sim, e no segundo álbum, o Amai, vingo-me e digo que não vai ser feito com letras de outros, eu vou escolher o produtor… O álbum é gravado, quase dois anos, fomos para Paris fazer a pós-produção, encontro o produtor em Toronto numa das melhores escolas de produção do mundo, eu e o Rui Vaz tínhamos um casamento intelectual perfeito. Ele fazia uma coisa no piano e tínhamos um tema. O Rui veio a morrer no dia dos meus anos em 1997, a quatro dias de ir para os Estados Unidos para uma tour com o David Byrne.

Conte o episódio do David Byrne…
O Amai era tão diferente que, apesar de eu continuar a fazer espetáculos, o álbum passou despercebido. Vou de férias para Troia em janeiro e chego um dia à Poligram e vejo um número de telefone com o meu nome e dizem-me que é um tarado inglês que andava a ligar. Ainda havia fax. Chego a casa e telefono e vejo que é da América, apresento-me e do outro lado “epá, íamos desistir, andamos há meses à sua procura”. Disseram que iam mandar um fax – ainda o tenho – a perguntar-me se estava interessado em editar o trabalho. Estava assinado DB. Passado uns dias pego num álbum e percebo que DB é o David Byrne. Este era o tarado inglês! Por acaso é escocês. O álbum saiu em Nova Iorque em 96.

Sai já no conceito de world music?
Sim, mas neste disco está compactada uma cosmic sadness que vai para lá de tudo. O David Byrne escreveu um pequeno texto que resumiu tudo. E eu mudei-me para Nova Iorque, para casa dele. Fiz um concerto numa catedral onde cantaram os Velvet Underground. Uma catedral comprada na Escócia e remontada pedra a pedra. Na altura estava em obras e eles queriam tirar os andaimes e eu fiz dos andaimes o cenário. Foi um espetáculo mesmo, a consagração. Isto vai de 96 a 2000, em que viajo costa a costa.

Um português em Nova Iorque faz fortuna?
De alguma maneira. Mas não era mal pago.

Nada que pudesse ganhar em Portugal?
Sobretudo é tudo diferente. Fiquei em hotéis que tinham piscina no quarto. O David não é fácil lidar com ele porque é reservado… ele faz muitas coisas. A mulher dele só faz roupa em matéria orgânica e tu vais a uma festa e tens de contar o tempo porque senão ficas despido na festa. Conheci o Paul Auster, o Lou Reed. Eu fico em Nova Iorque até quase 2000, morreu o produtor, aí começa o declínio da minha pessoa. Foi uma situação de catadupa: primeiro a morte do produtor no dia dos meus anos, diziam que eu ia a seguir.

Fala de decadência musical ou pessoal?
Eu mudei naquele dia. Se houve uma cisão na minha vida, foi naquele dia de 1997.

Mas continua na América mais uns anos…
Estava a quatro dias de fazer uma tournée lá, tive de arranjar outros músicos. Os produtores queriam cancelar mas continuou e eu aguentei-me bem. Fizemos o CCB cá em Lisboa.

O desaparecimento para a Irlanda é quando?
Vem daí. Começa com a morte do Rui, depois há uma altura em que venho a Portugal e um dia telefona-me o manager do banco e diz-me que não há dinheiro na conta. Como estava em Nova Iorque havia o dinheiro da empresa e havia o meu dinheiro, só que pus as duas pessoas que trabalhavam comigo a aceder à conta. Só uma assinatura valia para levantar o que fosse preciso. Quando entro no banco, o homem estava lívido. Mostra o ecrã e diz-me “lamento imenso”. Estava a zeros.

Nunca mais viu essas duas pessoas?
Não e a parte que me magoou profundamente não foi o dinheiro. A sério. Apesar de ser uma boa quantia. Não teria vivido na rua em Londres e em Dublin, enfim. Nem sequer teria saído de Portugal. Foi um excesso de confiança que aprendi a nunca mais ter. Eu sei o que é estar na rua. Sei o que é levares porrada na rua por teres o melhor cartão para dormir.

Isso da rua foi onde?
Foi em Londres e em Dublin. Ano e meio na rua.

Sai de Portugal para ir viver para Londres, é isso? Estamos agora a falar em que ano?
Estamos a falar em 2006. Entretanto, tenho uma relação com uma miúda, que é uma fã. Mantenho a minha casa, mas estava muito em casa dela. Entretanto, ela faz anos a 21 de dezembro, é filha única, arquiteta, ainda é família da Amália, não ponha o nome… eu digo-lhe “eu hoje vou para minha casa” e ela “não vás, faço anos amanhã”. Fiquei e fui para a cama. Às seis e tal da manhã acordei e não a vi. Fui à sala e ela estava entre o sofá e o chão. Toco-lhe e respondeu “meu amor, leva-me para a cama, estou cheia de frio”. Normal, estás no inverno. Levei-a para a cama. À uma da tarde começa o telefone a tocar. Era a mãe. Eu digo “não vou atender o telefone, a casa não é minha”. Ela não atende. Toca o telefone fixo. Nada. À terceira vez digo: “Atende a merda do telefone.” Nós estávamos abraçados, viro-a e vejo o que nunca quis ver. Salto da cama, ligo o 112 e tento reanimá-la, mas sem hipótese.

Ela estava morta naquele momento, já?
Só que eu não podia ter a certeza. Nós tínhamos um filho planeado. Era a única mulher que eu via que… que ia por ali…

Na altura isso soube-se nos jornais?
Houve uma coisinha ou outra que se soube, mas foi muito ao de leve. Não tive nada que ver com o assunto. A autópsia deu paragem cardíaca. Eu não tinha drogas no sangue. Não estava a fazer nada na altura, já me tinha largado disso. Foi do tempo em que estive à toa.

Queria esquecer a morte dela?
Não, não. Antes. Depois do dinheiro. Começo a fechar-me em casa. E a odiar tudo e todos. Chamo o gajo, o dealer, e digo “traz-me a parafernália toda”. Ele diz “mas sabes onde é que te estás a meter?” Eu só disse “se não fores tu é outro, mas tu ainda me conheces”.

Depois do episódio da morte da namorada, então é que vai para Londres…
Digo à minha mãe que é um adeus sem volta, porque não tinha ideias nenhumas, mas sabia que ia meter-me em alhadas fortes. Ia com essa ideia de não me safar de forma nenhuma. Não levei telefones. E devo ter levado para aí 200 ou 300 euros. Londres é uma cidade que é muito violenta, a vivência da cidade. Estou lá um bocado a ver o que é que se passa. O que é que vou fazer. Ainda vou trabalhar para uma fábrica. Aí senti-me um operário da revolução industrial a trabalhar numa fábrica que não para. É 365 dias. Nem no dia de Natal. O meu trabalho era numa fábrica de pão que abastece supermercados.

Chegou a dormir na rua? Em Londres.
Havia os hostels mas esses ainda eram piores do que a rua. Havia hostels que são sítios que têm droga a torto e a direito, pessoas sem escrúpulos. E depois Londres é tudo uma burocracia. Vais a uma charity para te meter no sistema de sem-abrigo e tens dez quilómetros de papelada para preencher, para teres o estatuto oficial de sem-abrigo. Aliás, eu posso mostrar os papéis em que diz não ter paradeiro certo. É um sem-abrigo. É um homeless. Foi o meu primeiro estatuto em Londres e foi o meu primeiro estatuto em Dublin.

Nunca pensou ligar para casa e pedir ajuda?
Fiz duas ou três vezes. Não atenderam.

Entre Londres e Dublin sei que acontece uma passagem pela Roménia. Pode explicar?
Estou num bar em Londres, onde eu entro para pedir um copo de água. Ouço a belíssima voz da Maria Tanase a cantar Lume Lume. Conhecia a língua porque tinha tido o approach aos 16 anos. Já sabia da relação que havia de a Roménia e Portugal serem latinos. Mas fui à procura de quem era e percebi “ah, esta senhora chama-se, OK”. Tenho de ir para a Roménia. Sei que ela já não existe. Morreu nos anos 60. Mas vou para lá…

Vai para a Roménia como? À boleia?
Quando cheguei a Bucareste nem acreditei que estava em Bucareste. Não é perto.

Ficou onde?
No Ferentari. Quando eu digo que vivi naquele bairro durante três meses as pessoas dizem “só tu”. Qualquer pessoa que não pertença àquilo eles correm à pedrada. Eu era corrido à pedrada, a tiro. Mas eu sou um cigano de primeira e acho que devemos guardar todos um bocadinho de ciganice na vida. Já podes ver que a coisa remete para lá. Só quando vou de lencinho branco a cantar Lume Lume… aí eles, calma. Antes pensavam “este gajo é um polícia que está a fazer-se de estrangeiro ou o caraças”. Eu nunca soube o que é que faziam. Havia comida na mesa.

Cerbul de Aur 2018

Então e agora Dublin aparece aqui como?
Um dia disse “vou-me embora”, arranjei uma boleia de um camionista, que eles conheciam. E um dia estou a ler, era o que eu fazia, lia revistas que encontrava. E vejo um artigo sobre o milagre económico irlandês e a cidade cosmopolita de Dublin. E eu, que tinha 40 libras no bolso, disse “é já”. Fui à Victoria Station, comprei o bilhete para o ferry, que são 26 libras, e vou para Dublin de olhos fechados.

Continuava isolado da sua família, em 2007?
Eu pedi encarecidamente que me trouxessem de volta, porque não tinha dinheiro. Eu com mensagens e com telefones emprestados que pedia na rua. A minha mãe deu ordens, inclusive a pessoas que estavam mais próximas de mim, que estavam proibidas de me ajudar fosse de que maneira fosse.

Uma lição de vida…
Ela queria era isso. Chego a Dublin num dia medonho, horrível, completamente à nora, sem ninguém, numa tarde de setembro. Num dia escuro, aquele clima típico irlandês. Primeiro objetivo: arranjar abrigo. Um sítio horrível. Dormi em cima da cama, direitinho, parecia que estava num caixão. Guardei os poucos valores que tinha, não tinha nada, dentro dos bolsos. Mas tinha assim uma mochilinha, mais um casaco… Sei que de manhã fui à casa de banho, dormi umas poucas duas horas, e quando chego.. não tinha dinheiro. Só tinha meia dúzia de tostões e a identificação. Foi o que valeu. Fui à embaixada pedir ajuda.

Sabiam quem era?
Sabiam.

Isso valeu-lhe de alguma coisa?
Valeu. Fui lá e disse “preciso de emprego, preciso de trabalho, arranjem-me qualquer coisa aqui, eu varro, vou para jardineiro…”. “Paulo, está doido.” Ele agarrou em dinheiro e deu-me dinheiro. Eu disse “está doido”.

Quem foi a pessoa que lhe deu dinheiro?
Hoje somos amigos. Deu-me aquele dinheiro e fiquei tão enternecido. Só quando não tens nada vês uma nota de 50 como deves.

Foi o momento da recuperação?
Sim, aí é que eu começo a tentar mudar de vida. Antes procuro um sítio onde possa ter alguma ajuda, algum organismo. Era no cais. Aquilo era um dropping, um sítio de entrada permanente, entras e sais, em que te dá comida. Eu digo “ai, onde é que eu vim calhar”. Depois comecei a andar de hostel em hostel, de sem-abrigo em sem-abrigo. Que tens de telefonar às sete da tarde para teres uma cama, mas que também o telefone está sempre ocupado, é uma sorte. Quando não arranjas eles mandam esperar pela carrinha. A carrinha dos desvalidos, não é? Eu a partir das cinco da manhã já não ia porque às sete estás na rua, já não valia a pena ir. São hostels que nunca despias, nunca nada. Depois a Legião de Maria deu-me abrigo. Foi fixe. Davam-te dois, três maços de tabaco. Comias o que querias, vestias o que te apetecia. Só que, claro, era aquela cena da igreja. Estavas todos os dias… in the name of the father… Depois arranjo um emprego num restaurante, tinha turnos até às duas da manhã, mas tinhas de entrar no hostel até às sete da tarde.

Música, nada?
Não queria nada com a música. Depois, conheço um português, que é ladrilhador. E começo a ajudar. Ele começou a ensinar-me aquela arte … Hoje sei pôr uma casa de banho velha, podre, como nova, em cinco dias.

Depois vem 2008, vem a crise.
Ele vê que eu era dedicado e contrataram-me. Só lá estive seis meses. Veio a crise e a empresa dispensou-me. Então o governo abriu as faculdades a toda a gente e quem quisesse ir estudar podia e se tivesse boas notas ainda tinha uma bolsa que dava para viver. Não vivias à lauta mas dava. E aproveitei.

Nunca saiu nas notícias portuguesas que Paulo Bragança estava na Irlanda?
Saiu, saiu, na TVI, na altura de uma final europeia Porto-Braga em 2011. Mas foi o embaixador que telefonou e disse “oiça lá, não acha que é altura”, porque já estava na faculdade.

Só nessa altura, quando já era mais respeitável outra vez, fora da rua, é isso?
Já estava na faculdade. Fui para Filosofia – como já tinha três anos de Direito e dois de Ciência Política, quase três também, deram-me logo dois de Filosofia. Sim. Então fico a fazer dupla licenciatura, de Irish Studies e Filosofia. E convidam-me a ficar lá a dar aulas.

Voltava a ser notícia. Mas contaram a história toda, a vida na rua e tudo isso?
Não, contaram a história de que tinha saído do país e que estava na Irlanda. Ponto.

Mas não sabiam todos os pormenores.
Não contaram nada. Só que o desaparecido afinal está na Irlanda. Porque eu, entretanto, até fiz um filme. Imagine como são as coisas, como isto mudou. Foi tudo ao mesmo tempo. É incrível. Vem uma miúda e diz: “Sabes, acho que serias a pessoa exata para ser o ator do nosso filme, é uma curta-metragem mas acho que eras tu.” Disse “está bem, não tenho nada contra”. Vamos então marcar uma reunião com o realizador e os outros atores. Foi a primeira vez que eu trouxe à memória o nome de Paulo Bragança. E que eu disse vai ao Google e vê este nome. Ficaram surpreendidos com o “portuguese star“…

Quando é que volta para Portugal?
Pela primeira vez, em 2012. Volto com um convite do José Cid para cantar. Num espetáculo dele. Venho como artista. Volto para cantar, para subir ao palco. Isso é que é interessante. E pronto. A partir daí começo a vir, assim, uma vez por ano.

A sua vida agora é em Portugal, já não é na Irlanda?
Eu vou lá a cada dois meses. Tenho lá a minha casa, tenho lá tudo. Não deixei nada. Agora vou para a Irlanda. Vou lá ficar até dia 25.

Passou a senti-lo muito como o seu país também.
Sim. Eu tenho nacionalidade irlandesa.

Paulo, uma última pergunta. Fez as pazes com a sua família?
É difícil responder a isso.

(Entrevista publicada originalmente a 19 de janeiro de 2019)