Como falar da morte às crianças

No Dia dos Mortos – e nos outros que sejam de perda – ajudamo-lo a pensar sobre a melhor forma de explicar a morte às crianças.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

VERDADE

A morte é sempre um assunto difícil de abordar. «Até com os adultos, quanto mais com as crianças, mas falar sobre ela é uma forma de atenuar a ansiedade que nos provoca», diz Teresa Andrade, psicóloga clínica e professora associada no Instituto Universitário Egas Moniz. O melhor é falar abertamente quando percebemos que o desfecho se aproxima, com verdade, tendo em conta a sua idade e perceção. «Não diminuindo a tristeza, pelo menos diminui a incerteza.»

DOENÇA

É um facto da vida: toda a gente adoece de vez em quando. Especialmente os mais novos, que ficarão bem mais tranquilos se lhes explicar que sim, há vários tipos de doenças, mas não, nem todas são graves ou conduzem à morte. No caso de a perda do familiar ou animal se ter devido a doença, fazer esta ressalva é fundamental para evitar que o seu filho alimente medos desnecessários. «Não podemos contornar a morte, mas podemos mobilizar apoios para que a vida das crianças possa continuar o melhor possível», observa a psicóloga.

FIM

Outra questão importante é explicar às crianças – sempre com muita calma e verdade, sem dramatismos – que a morte é definitiva, faz parte da vida, é mesmo assim e não há volta a dar. É melhor isso do que alimentar-lhe falsas esperanças de que um dia possa rever o tio Carlitos ou a gata Mimi. «A partir do momento em que nos consigam compreender e perguntar o que querem saber, é boa altura para se falar com elas», aconselha a docente do Instituto Universitário Egas Moniz.

DOR

É importante dizer às crianças que quem morre já não sente mais dor. Na verdade, já não sente nada: muitas vezes os pais tentam minimizar o choque inventando que quem morreu está no céu ou numa paisagem verde, e a criança aflige-se ao pensar que está sozinha, com medo, à chuva e ao frio. «O modo como se fala depende da capacidade da criança, mas regra geral devemos devolver-lhe as questões para compreender aquilo que está a preocupá-la», diz Teresa Andrade.

SILÊNCIO

Outro erro que os adultos cometem sem querer é darem aos pequenos muito que fazer e em que pensar, de modo a distraí-los da perda que possam estar a sentir. É mais eficaz se respeitarem a sua tristeza não os sobrecarregando, indica a psicóloga clínica. «Dar-lhes a possibilidade de falar quando quiserem e lembrarem as pessoas que amam, sem lhes retirar a memória que têm da vida familiar.»

RISOS

Acontece a criança querer rir-se ou brincar em plena perda. E acontece os pais repreenderem-na por acharem que não está a respeitar devidamente o falecido, quando a única questão é que está a preencher o vazio à sua maneira. Ao seu tempo. «Faça com a criança coisas especiais que faziam com a pessoa que morreu», sugere a especialista, considerando que isso ajuda a família. Em conjunto.

PESAR

Fazer o luto por alguém implica sentimentos penosos como a raiva, a mágoa, a negação, a saudade, a ansiedade, o medo e até muita culpa com a qual não sabemos lidar, razão por que se calhar é boa ideia dizer ao seu filho que não se podia ter feito nada para evitar aquela morte. Nem ele, nem ninguém.

EMOÇÕES

Sentimo-las, independentemente de sermos adultos, e sabemos agora que são idênticas às das nossas crianças, ainda que possamos lidar com elas de maneiras diferentes. Então para quê esconder, numa altura em que nos apetece tudo menos desperdiçar energia com fingimentos desnecessários? Diga-lhes que também está triste, é natural, mas vai passar, recomenda Teresa Andrade. Só fará com que entendam melhor o que elas próprias estão a sentir e queiram falar disso.

PRESENÇA

A partir de uma certa idade, consoante a maturidade da criança e apenas se manifestarem essa vontade, pode deixar os seus filhos assistirem às cerimónias menos pesadas, como uma missa ou levar flores ao cemitério. «Já tive meninos de 2 anos a perguntarem o que sucede às pessoas quando morrem», conta a psicóloga, frisando que cada caso é um caso. «Se a cerimónia for serena e mais restrita, a partir dos 6 ou 7 anos conseguirá participar no processo de luto familiar e sentir-se incluída.» De novo, pode ser uma forma importante de ajudá-los a aceitar melhor a morte.

CONSOLO

E eis que chegamos ao medo mais derradeiro e perturbador de qualquer criança, que é o de perder os pais e ver-se sozinha na vida. Se o seu filho ficar demasiado angustiado diante desta ideia, tranquilize-o dizendo que isso só vai acontecer daqui a muitos-muitos-muitos anos, quando já for velhinho para lá da conta e ele crescido com os seus próprios filhos. «E que mesmo aí nunca estará só, porque o melhor dos que amamos fica na nossa memória e no nosso coração», conclui Teresa Andrade.