Fausto Pinto: o português que está a dar cartas na cardiologia mundial

Dirige a maior faculdade de Medicina portuguesa e o maior departamento cardiovascular do país, dá aulas, dá consultas e ainda está envolvido em diversas estruturas nacionais e internacionais da área. Disciplina, organização e capacidade de delegar são, garante Fausto Pinto, a chave da multiplicação do tempo. Depois de ter sido o primeiro português à frente da Sociedade Europeia de Cardiologia, o professor volta a assumir um cargo de destaque internacional, como presidente-eleito da Federação Mundial do Coração (World Heart Federation – WHF). Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e do Departamento de Coração e Vasos do Centro Hospitalar Lisboa Norte (unidade que integra os serviços de Cardiologia, de Cirurgia Vascular e de Cirurgia Cardiotorácica), em março será também o primeiro português a ser agraciado com o International Service Award 2019 pelo American College of Cardiology (ACC), pelos seus contributos para o progresso da medicina cardiovascular.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia D.R.

Foi eleito recentemente presidente-eleito da Federação Mundial de Cardiologia. Que significado tem esta eleição para si?
A Federação Mundial de Cardiologia é a única sociedade global na área cardiovascular, envolvendo tanto as sociedades científicas como as fundações, que representam a comunidade, ou seja um dos seus grandes objetivos é estabelecer a ligação entre a comunidade científica e a sociedade civil e traduzir para o grande público as principais recomendações e mensagens que se quer veicular sobre esta matéria. A nível pessoal é uma grande honra, um grande privilégio e uma grande responsabilidade ser eleito para uma estrutura com estas características e que é a única interlocutora reconhecida pela Organização Mundial de Saúde para a área cardiovascular, o que é fundamental para o desenvolvimento do trabalho na área da promoção da saúde cardiovascular e da sensibilização global, nomeadamente dos decisores políticos, para aquilo que é ainda a causa número 1 de mortalidade e morbilidade no mundo: as doenças cardiovasculares.

Nos últimos anos, houve um grande investimento na promoção de estilos de vida saudáveis e na prevenção das doenças cardiovasculares. Por que continua a ser a principal causa de morte? É assim tão difícil mudar os hábitos?
É mesmo um pouco paradoxal. Por um lado, a comunidade médica tem sido muito eficaz na forma como trata as doenças cardiovasculares e houve nos últimos anos um decréscimo das taxas de mortalidade de algumas das principais doenças cardiovasculares, como o enfarte do miocárdio ou o acidente vascular cerebral, aliás 80 por cento do aumento da esperança média de vida nos últimos 50 anos deveu-se aos avanços médico-científicos na área cardiovascular, mas por outro lado assiste-se a um significativo aumento dos fatores de risco.

«Gastamos cerca de 95 por cento do orçamento a tratar as doenças cardiovasculares e 5 por cento a prevenir»

Quais?
A obesidade, a diabetes, a hipertensão, as perturbações do metabolismo dos lípidos, o colesterol, o tabagismo, etc. O aumento destes fatores de risco e a combinação de alguns deles faz subir muito a probabilidade de o indivíduo vir a ter um problema cardiovascular. Portanto, tem sido muito frustrante a ineficácia da prevenção junto das populações em geral. Há estudos que demonstram que a prevenção das doenças cardiovasculares não tem o impacto que deveria ter e que gostaríamos que tivesse.

Mas porque é que isso acontece?
Porque na verdade o investimento em prevenção é pequeno. Em termos globais, se olharmos para o orçamento global da saúde, gastamos cerca de 95 por cento a tratar e 5 por cento a prevenir, sendo que 80 por cento das doenças cardiovasculares são preveníveis, ou seja, se corrigíssemos os fatores de risco, estas desapareceriam ou diminuiria muito a sua prevalência. Portanto, este não é só um problema médico, é também social, e é aí que estruturas como a Federação Mundial de Cardiologia podem desempenhar um papel importante quer na sensibilização das populações em geral, quer na sensibilização dos decisores políticos, uma vez que grande parte das medidas que possam ter efeito precisam de um suporte político por parte dos governos.

«A proibição de fumar em locais públicos baixou a taxa de enfartes do miocárdio»

Como assim?
A proibição de fumar é um bom exemplo do que acabo de dizer. A ciência demonstrou que uma lei como esta era importante para reduzir o impacto que esse fator de risco tinha no aparecimento de doenças e temos hoje evidência disso: há estudos que mostram que, após a implementação da lei de proibição de fumar em locais públicos, baixou a taxa de enfartes do miocárdio. Também a redução de sal no pão ou outras medidas, que têm vindo a ser tomadas de forma tímida e lenta, têm tido algum impacto. Mas estamos ainda numa fase em que é preciso uma mobilização da comunidade médica e científica, dos decisores políticos e da população em geral para desenvolver projetos e medidas que possam melhorar a prevenção, que é o calcanhar de Aquiles nesta área, ao contrário do tratamento, que, com os desenvolvimentos tecnológicos e terapêuticos absolutamente fantásticos, tem atingido taxas de sucesso muito significativas.

Como perspetiva a cardiologia do futuro?
O grande desenvolvimento da medicina em geral, e a cardiologia é um dos exemplos disso, é ser cada vez mais certeira na forma como trata o doente, de forma individualizada, o que a torna mais eficaz. É a chamada medicina de precisão e também a medicina personalizada. É esse o caminho que se está a procurar trilhar, já com alguns resultados.

O grande avanço da medicina será a capacidade de, através de análise genética, metabólica, etc. (as ómicas todas), podermos fazer como que uma grande impressão digital da pessoa para saber exatamente onde e como atuar.

Mas ainda numa fase embrionária.
Sim, ainda funcionamos muito com a aplicação daquilo que é a evidência obtida em resultados de grandes estudos, envolvendo populações grandes, que indicam que há uma percentagem significativa de melhoria quando se aplica determinada estratégia terapêutica, embora ao fazê-lo não tenhamos a garantia de que vai ser eficaz naquela pessoa.

Portanto, o grande avanço da medicina será a capacidade de, através de análise genética, metabólica, etc. (as ómicas todas), podermos fazer como que uma grande impressão digital da pessoa para saber exatamente onde e como atuar, que tipo de fármaco usar, que tipo de dispositivo aplicar ou até como prevenir, para sermos mais eficazes. Isto em termos genéricos é o futuro.

Mas, de uma forma geral, e em cardiologia isso tem sido muito claro, há três grandes áreas de atuação: uma é a da prevenção, em que ainda há muito a fazer, outra é a do diagnóstico, nomeadamente do diagnóstico precoce, que permita intervir de forma a abortar o desenvolvimento da patologia ou minimizar o seu impacto, e, finalmente, a do tratamento. Nestas últimas, tem havido avanços tecnológicos enormes.

Em que sentido?
Permitem hoje fazer um diagnóstico mais apurado e preciso, quer para identificar quer para monitorizar os tratamentos e seguir depois os doentes. Não esquecer que a maioria das doenças cardiovasculares, uma vez estabelecidas, não têm cura. Nós tratamo-las, controlamo-las, mas não curamos. A doença não desaparece, o que fazemos é minimizar o seu impacto. Daí ser tão importante apostar na prevenção. Na área terapêutica também tem havido evoluções extraordinárias, tanto com o desenvolvimento de novos fármacos, como de novos dispositivos que nos permitem hoje reparar a maioria das doenças cardiovasculares.

Tudo isso no serviço nacional de saúde?
Temos um excelente serviço nacional de saúde e é importante dizer isto para tranquilizar as pessoas. Tem sido avaliado por entidades externas e é considerado um dos melhores do mundo. Não quer dizer que não tenha problemas, mas não há nenhum, por esse mundo fora, que não os tenha. Também nos compete, quer a quem tem a responsabilidade da tutela, quer aos profissionais de saúde, zelar para que o serviço nacional de saúde atinja os seus objetivos e mantenha a qualidade.

São muitas as vozes a dizer que este está em risco, nomeadamente a do bastonário da Ordem dos Médicos. A nova lei de bases da saúde contribui para reforçar o SNS ou fragiliza-o?
A lei de bases está ainda em discussão e espero que sejam afinados os elementos necessários para que tenhamos uma boa lei de bases da saúde. Não gostava de dizer muito mais sobre isto, porque, tanto quanto sei, ainda não está finalizado o trabalho. A lei de bases da saúde preenche uma função, como é óbvio, mas não é o único elemento que irá balizar de forma substancial o funcionamento do SNS. É importante sobretudo que tenhamos uma lei de bases que esteja de acordo com o que é a realidade portuguesa e com o que se pretende para um SNS com as características do nosso.

O professor Fausto Pinto foi eleito em dezembro último presidente-eleito da Federação Mundial de Cardiologia, cargo de que tomará posse este ano.