Quando fazemos uma tempestade num copo de água

Hoje trago-vos dois conceitos-chave da psicologia cognitiva e uma estratégia de resolução.

Vejamos o primeiro conceito. Aquilo que pensamos influencia o que sentimos e o que fazemos. Ora vejamos um exemplo prático. Imaginemos que estamos em casa, sozinhos, e ouvimos um barulho. Se pensarmos que «é um ladrão!», muito provavelmente serão activadas emoções negativas (por exemplo, medo) e intensas e, por sua vez, também com elevada probabilidade, tendemos a reagir com um comportamento coerente com essas mesmas emoções (por exemplo, fugir, gritar, chamar a polícia).

Voltemos agora ao início deste exemplo. Face ao mesmo barulho se, em vez de pensarmos que é um ladrão, pensarmos que «é o barulho do vento, devo ter deixado a janela aberta», naturalmente que as emoções activadas serão diferentes (neutras, pelo menos). Consequentemente, não iremos fugir nem pedir ajuda. Vamos até ao local de onde vem o barulho e tentamos resolver a situação com tranquilidade.

Este exemplo, um clássico da literatura, ajuda-nos a perceber a relação entre o que pensamos e acreditamos (dimensão cognitiva), o que sentimos (dimensão emocional) e fazemos (dimensão comportamental).

O estímulo é o mesmo: um barulho. O que mudou? Apenas a forma como pensamos sobre ele. Os chamados pensamentos automáticos que, no primeiro caso, eram negativos e, no segundo, mais positivos.

Com isto queremos dizer que a forma como pensamos é mesmo muito importante. E pode ser determinante no nosso bem-estar. Mas conseguir pensar de uma forma positiva e ajustada, sem distorções, nem sempre é fácil. Porque os pensamentos negativos são mesmo muito automáticos e nem sempre conscientes.

Agora vejamos o segundo conceito-chave da psicologia cognitiva. Fazemos diferentes tipos de distorções, as chamadas distorções cognitivas. Uma muito frequente é a catastrofização. Ou, dito de uma forma mais clara, fazermos tempestades em copos de água.

  • «É horrível».
  • «É o fim do mundo».
  • «Não vou aguentar».

Estes são exemplos de alguns pensamentos associados à atribuição de extrema gravidade a algo. No entanto, nem sempre as situações que avaliamos são, efectivamente, muito graves. Em muitas delas, mais não fazemos do que distorcer essa leitura, atribuindo-lhe uma gravidade superior àquela que realmente têm. Quando se catastrofiza, as emoções activadas serão, muito provavelmente, negativas e intensas e os comportamentos mais desajustados.

E agora a estratégia de resolução:

Ora, se a situação não é, de facto, assim tão grave, então importa aprender a descatastrofizar (esta palavra difícil de pronunciar, mas que é tão fundamental).

Uma forma muito eficaz de o fazer é tão somente colocar uma pergunta de projecção futura. Perguntarmos a nós próprios: «Daqui a 5 ou 10 anos, quão importante será isto na minha vida?»

Não raras vezes, percebemos que a resposta é: «nem sequer me vou lembrar que isto aconteceu…» Ou ainda que «no futuro isto não terá qualquer importância».

Significa, então, que não é assim tão importante e grave. Estamos, portanto, a fazer uma tempestade num copo de água e importa olhar para a situação de outra forma.

Outras questões que podemos (e devemos) colocar a nós próprios:

  • «Em que medida esta situação tem de condicionar a minha vida?»
  • «Porque razão tenho de ser derrotado por esta situação?»
  • «Não vivi já situações semelhantes com as quais consegui lidar?»

As situações graves exigem, naturalmente, que activemos os recursos necessários para as ultrapassar. Recursos internos e externos.

As situações menos graves exigem ser olhadas dessa forma.

É que viver sem tempestades desnecessárias é mesmo muito bom para a nossa saúde mental.


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Sou homem e sou vítima de violência *


Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

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