Fazes tu o ninho ou faço eu?

Entre todos os mecanismos, ferramen­tas e irritantes manias de que me socorro para viver com a minha crónica pancada da organização, há uma essencial: as lis­tas. Preciso de listas para as tarefas a fa­zer ao longo do dia (às vezes com lista da manhã e lista da tarde), para as coisas de que não me posso esquecer de fazer quan­do chegar a casa, para as compras, para as pessoas a quem tenho de telefonar, para os assuntos de que não me posso esquecer, para isto, para aquilo, para tudo e mais al­guma coisa. Juntamente com outro gran­de aliado dos fulanos como eu, os insubs­tituíveis post-it, sinto que podia dominar o mundo, uma lista de cada vez.
Mas, embora me considere um tipo or­ganizado (o que talvez seja apenas uma forma de enfrentar a caótica desorganiza­ção que vai dentro da minha cabeça), há uma lista que, raios partam, me esqueci de fazer: a lista de comportamentos espectá­veis na minha mulher quando engravi­dasse pela segunda vez. Sim, eu sei que não há duas gravidezes iguais, e que cada caso é um caso, e que o que era assim pa­ra a primeira filha, se calhar é assado para a segunda, bla, bla, bla. Eu sei isso tudo. Mas, ainda assim, há coisas que se repe­tem. E se eu me tivesse lembrado de listar isto tudo quando da primeira gravidez, agora não passava a vida a dizer “tchiii, é verdade, já não me lembrava disto”.

A hipersensibilidade, menos mal. Os nervos à flor da pele, OK. A compulsão pa­ra chocolates, ainda vá. Os es­quecimentos e distracções (adoro a expressão “cabeça de grávida”) não têm gran­de problema. Mas o raio do nesting… caramba, o raio do nesting pode ser muito desgastante.

Lembram-se do nesting, leitoras com filhos com mais de cinco anos? Ou isso já é uma me­mória tão longín­qua que a arrumaram na gaveta do fundo? Sim, isso mesmo, refiro-me à febre de arrumação do ninho (nest, em inglês) para a chegada da criança. A pintura do quarto, a preparação do saco para a maternidade, a lavagem da roupa do recém-nascido, a limpeza imacula­da das superfícies que estarão em contacto com a pele da cria, a disposição perfeita dos artigos de higiene, o abastecimento da des­pensa em caso de ataque nuclear, etc, etc.

Seria de esperar que, ao segundo filho, o nesting atacasse com menos força. Ou me­lhor, que já fosse relativizado. Que a mãe dissesse para ela própria: “Calma, isto são só os instintos de preparação do ninho. É só o cocktail de estradiol, prolactina e progeste­rona numa rave party de hormonas dentro do meu corpo. Vamos lá a relaxar, que o mundo não acaba amanhã.” O pai também podia estar de sobreaviso e ajudar a mãe a descontrair, mas a checklist de tarefas a executar é tão grande que ele não tem hipó­tese de relativizar coisa nenhuma.

Para piorar a coisa, os blogues de mães e outras redes de apoio não ajudam muito: em vez de aconselharem as futuras mães (mesmo que repetentes) a “keep calm and para de limpar tudo”, ainda criam mais lis­tas e mais tarefas, para garantirem que não fica nenhum centímetro por desinfetar.
Ao contrário do que se passa com muitas das nossas manias – e muitos dos compor­tamentos que podem levar os pais ao deses­pero –, isto do nesting não é coisa exclusiva de humanos. E, mal por mal, antes a com­pulsão para ter o frigorífico cheio e os cortinados lavados do que ter a toca cheia de erva, para ficar tudo fofi­nho, como fazem as coelhas. Ou o ninho cheio de penas, quenti­nhas, como fazem algumas aves. Eu não tenho a certeza é de que na natureza, perfeita, os ma­chos das outras espécies que não o Homo sapiens tra­balhem tanto. E te­nham de fazer e desfazer tudo tan­tas vezes.

[08-12-2013]