Férias da Páscoa: o que fazer com os miúdos quando precisamos de trabalhar?

férias da Páscoa

Desejadas pelas crianças, temidas pelos pais que trabalham e não sabem onde deixar os filhos, as férias da Páscoa não têm de ser um drama familiar. Se já só pensa em ovos de chocolate para afastar o stress, guarde esta palavra de ordem: flexibilidade. Ah, e vá jogando com as dicas funcionais da coach Magda Gomes Dias.

Texto de Ana Pago

Deixá-los em casa dos avós?
Os seus sogros ou pais estão sempre a oferecer-se para ficar com os netos? Pois esta é a altura certa de aceitar essa preciosa ajuda, desde que uns e outros queiram, ressalva a especialista em parentalidade positiva Magda Gomes Dias, muito conhecida pelo blogue Mum’s the boss e o site Parentalidade Positiva. “Alguns avós só querem ir à vida deles e descansar, sem jeito nenhum para cuidar dos miúdos, mas aceitam ficar com eles porque se sentem culpados e torna-se um suplício para todos”, diz a coach. Tios também costumam reivindicar uns dias com os sobrinhos, apelando à categoria especial que os habilita a estragá-los com mimos, por isso procure sondar a família com tempo e conciliar o melhor possível as disponibilidades de cada um.

Os avós na nossa casa?
É outra solução possível quando as famílias vivem longe umas das outras – em cidades diferentes, até noutros países – e reservam algumas semanas por ano para visitarem os filhos e os netos. “Conheço imensa gente nesta situação, a fazer com que as vindas cá coincidam com as férias da Páscoa para poderem dar essa assistência em casa”, conta Magda Gomes Dias. E são só vantagens: não só ficam com as crianças em exclusivo para si até os pais chegarem dos empregos, como ajudam os filhos a resolver um problema bicudo e fazem os netos sentir-se úteis, ao mostrarem aos avós spots que desconhecem.

Pedir ajuda à família?
Se por acaso a sua irmã, cunhada ou outro parente próximo for agora de férias, de preferência com filhos da mesma idade, pergunte-lhe se não se importa de ficar também com o seu – em troca, pode oferecer-se para cuidar de todos nas suas folgas, por exemplo. “Se ninguém se importar e for tudo bom, é uma opção espetacular, que liberta os pais enquanto o familiar que os leva sente que vai ali criar uma memória muito positiva na vida daquela criança”, aplaude a formadora nas áreas comportamentais e comunicacionais. Lógico que é uma responsabilidade, mas por norma o que os miúdos aprendem connosco e não fazem em casa – levantar o prato, pôr a mesa, arrumar a roupa, não contestar – fazem-no bem na casa dos outros, diz.

A opção de marcar férias em separado?
A ideia é o pai tirar uma semana de férias e a mãe outra, de maneira a totalizarem o período da pausa escolar das crianças. “Conheço cada vez mais casais a fazerem isto quando não têm retaguarda viável, ninguém que os ajude, nenhuma forma de pagarem a quem quer que seja”, reconhece Magda Gomes Dias. Ela própria já o fez – e resulta, embora goste mais de tirar férias com o marido. A sua melhor amiga ainda faz, após ter perdido a mãe que lhe ficava com os miúdos. O mesmo princípio de desfasar as férias vale se o casal for separado: é uma questão de combinar com antecedência aquilo que resulta melhor para todas as partes envolvidas.

Fazer atividades Páscoa (cursos, visitas, etc.)?
Podem ser minicursos de férias – de inglês, música, dança, escrita criativa –, as atividades extracurriculares que a criança já faz no resto do ano – caso não interrompam para férias – ou programas específicos de baixo custo desenvolvidos pela Junta de Freguesia da sua zona ou instituições lúdicas/pedagógicas/culturais como o Oceanário, o Pavilhão do Conhecimento, a Gulbenkian, o Jardim Zoológico, os museus da cidade e outras que tais. “Até ver os pais não se conseguem desdobrar, pelo que tudo o que mantenha os miúdos entretidos, a experimentar coisas que os fazem crescer, será bom para eles”, nota a especialista em parentalidade positiva. Só tem de ter cuidado para que não se torne uma obrigação – para isso já bastam as aulas.

Pô-los num ATL?
Muitas escolas dispõem de um centro de Atividades de Tempos Livres que fica aberto durante as pausas letivas, de modo que se o seu filho estiver inscrito pode continuar a levá-lo de manhã, como de costume, e ir buscá-lo ao final da tarde. “Acordar cedo e passar o dia no ATL pode tornar-se tão cansativo como ir às aulas: as crianças apenas saem de uma determinada rotina para se meterem noutra”, admite Magda Gomes Dias. Porém, acabam por socializar, fazer atividades, brincar, ter as refeições asseguradas e até aprender a gerir a frustração quando aquilo que as espera não é exatamente o que mais lhes apetece. “É tudo bom, portanto.”

Acampamento. Uma boa solução?
Para a autora do Mum’s the boss, trata-se de uma excelente opção “se for num bom acampamento, com gente porreira”: podem começar com um de três dias num ano, à experiência, e no seguinte irem por uma semana ou duas. “Tenho visto alguns pais fazerem isto e os filhos crescem imenso”, afirma a coach, eterna defensora de que os miúdos só têm a ganhar ao lidarem com o máximo de gente possível no dia-a-dia. “Também haverá crianças que não vão gostar do acampamento, mas pronto, faz parte da vida”, desdramatiza. É da maneira que ficam a saber desde logo e avaliam outras opções no futuro.

Pode pedir ajuda a alguém?
Se os pais tiverem a sorte de contar com uma empregada, essa é uma solução a considerar, sem dúvida. E quem diz a empregada diz uma baby-sitter ou até a senhora da limpeza que lá vai a casa por umas horas – a ideia seria perguntar-lhe se teria disponibilidade para fazê-lo de segunda a sexta (ou naqueles dias mesmo difíceis para si), mediante um pagamento extra a combinar. “Eu até faria outra coisa neste caso: pôr mais um amiguinho ou dois em casa com o meu filho, para poderem brincar juntos e os adultos dividirem despesas”, sugere Magda Gomes Dias. Ao mesmo tempo, os pais podem tentar organizar-se para irem a casa almoçar e passarem esse tempo com as crianças.

Criar uma rede de pais?
É das melhores soluções porque as crianças ficam seguras em casa de um deles à vez, divertem-se com os melhores amigos, os pais só têm de meter um dia ou dois no trabalho (com sorte até há feriados pelo meio) e não têm de pagar atividades extracurriculares. A própria Magda é adepta da medida e recomenda. “Umas semanas antes das férias enviava mensagem a quatro ou cinco mães mais chegadas a dizer: ‘Malta, as nossas filhas dão-se lindamente, vão estar sem escola daqui a nada e eu terei disponibilidade nesta data da semana X e naquele dia na semana Y. Mandem-nas para minha casa.’ Então elas faziam o mesmo e geríamos assim os restantes dias das miúdas, que consideravam este planeamento o melhor do mundo.”

Levá-los para o emprego?
Lembra-se de quando ia para o trabalho dos seus pais em criança? E o quanto se divertia? Os chefes nem sempre acham muita piada, por isso tenha o cuidado de perguntar primeiro se pode fazê-lo sem correr o risco de comprometer a sua imagem profissional ou o desempenho. Nem que seja apenas por umas horas, ou em dias especialmente complicados de gerir em família, ou quando os compromissos laborais não são tantos que o impeçam de levar o seu filho a conhecer (ou revisitar) o local onde passa a maior parte do tempo. “É uma solução corajosa por ser difícil trabalhar com eles ao lado, mas se for pontualmente não vejo porque não”, concede a especialista em parentalidade positiva.

Negociar horários laborais?
Ainda no que diz respeito ao trabalho, também pode tentar negociar com o seu chefe uma espécie de acordo que sirva ambas as partes, do género: durante esta semana deixa-me tirar duas tardes, uma manhã ou o que for, e na próxima eu compenso com duas horas a mais todos os dias. “Desde que o acordo seja feito com regras, de forma a que as pessoas se responsabilizem por essa flexibilidade laboral, parece-me perfeito avançar com esta solução”, assegura a coach. Com tanta tecnologia à disposição não há razão nenhuma para não se facilitar a vida aos pais.

Trabalhar a partir de casa?
Já para não falar na possibilidade de eles poderem trabalhar a partir de casa, a menos que sejam médicos, enfermeiros ou tenham profissões que os obriguem a uma presença física no emprego. “Hoje em dia, a maior parte dos trabalhos pode ser executada à distância e acredito que esta plasticidade é boa para todos”, defende a Mum´s the boss. Lá está: tem de haver responsabilidade de quem o faz, de modo a não comprometer a produtividade, mas este é o futuro – e muitas vezes a única hipótese de os pais darem conta do recado, reitera. “Coitados, saem destas férias completamente exaustos. Apenas quem trabalha com crianças pequenas em casa sabe como isto é duro.”

E deixá-los sozinhos?
Desde que tenham idade suficiente e demonstrem maturidade e vontade em fazê-lo, Magda Gomes Dias não vê motivo para não deixar os filhos sozinhos em casa, pelo contrário: “Os miúdos não são incompetentes. A partir de certa altura precisam desta independência e nós de os ensinarmos a tê-la”, sustenta. Os pais podem dar-lhes atividades com que se entreterem, pedir-lhes ajuda em certas tarefas domésticas, assegurar-se de que um familiar ou amigo lá passa e os leva a almoçar ou a passear (caso não morem muito longe). “Sinceramente, acho que isto é mais difícil para nós do que para eles. Além de que para haver esta confiança temos mesmo que trabalhá-la e darmos-lhes a oportunidade de mostrarem que estão à altura das nossas expetativas”, diz.