Fernando, Rita e Ana: histórias de quem mudou de vida pela defesa do ambiente

Fernando Paiva (Joca) criou em 2013 o movimento "Não Lixes". É muito crítico dos comportamentos que contribuem para o aumento da pegada ambiental. (Fotografia Tony Dias/Global Imagens)

Mudaram de vida pela defesa do ambiente e porque consideram que pequenos gestos podem fazer a diferença num planeta que já ultrapassou o limite da sustentabilidade há muito tempo. Querem inspirar outros e alertar para a importância de mudar comportamentos e estilos de vida.

Texto de Cláudia Pinto

Se adquirirmos um par de calças de ganga usadas, em vez de as comprarmos estamos a reduzir a utilização de água, no mínimo, em dez mil litros. O mesmo se aplica à nossa pegada de oxigénio no que respeita à T-shirts. Por exemplo, se trocarmos cinco no período de um ano, em vez de as comprarmos iremos reduzir a nossa pegada de CO2 em 10,5 kg. Isto porque são necessários 2600 litros de água para produzir uma única T-shirt que demora 40 anos a decompor-se, alerta a organização sem fins lucrativos Planet Aid.

Os números não deixaram Rita Gomes indiferente. Adepta da realização de eventos e jantares de trocas de vestuário desde há já alguns anos, criou, em maio passado, o projeto Circular Wear com o objetivo de reduzir o desperdício e a poluição na indústria da moda. Depois de uma temporada a viver em Londres, onde é comum a existência de lojas de venda de roupa em segunda mão, Rita começou a ficar mais atenta ao impacto ambiental da indústria da moda. “Há alguns anos que não compro roupa nova”, diz.

“Há alguns anos que não compro roupa nova”, diz Rita Gomes, que em maio deste ano criou um projeto para reduzir o desperdício na indústria têxtil. (Fotografia Orlando Almeida/Global Imagens)

Neste projeto comunitário que pretende ser uma open store, qualquer pessoa pode tornar-se fundadora e ficar responsável por um swap spot [ponto de trocas]. Em Lisboa, o primeiro foi instalado no Impact Hub Lisbon, um espaço de cowork em Alcântara, depois de a fundadora ter convidado os responsáveis a tornarem-se os primeiros apoiantes do projeto em troca de disponibilização de um local. “A maior parte das pessoas que lá estão já têm esta preocupação social, ambiental e comunitária e achei que fazia todo o sentido começar por lá por haver algum engagement com os próprios membros. Aos poucos, com o feedback que íamos recebendo, fomos melhorando o sistema. A partir daí, os pontos de trocas foram crescendo”, conta Rita. Neste momento, existem dez em Lisboa e dois no Porto.

Na Invicta, o mais recente foi inaugurado no passado sábado, dia 16 de novembro. “Considerando o desperdício e a poluição que existe atualmente na moda, achei interessante tentar fazer chegar esta comunidade de partilha e de economia circular ao maior número de pessoas possível”, diz Rita.

É um modelo simples, sem controlo, gratuito e sempre disponível, que pretende funcionar em rede. Qualquer pessoa que tenha algumas peças de roupa que não usa, por qualquer motivo, pode deixá-las num dos pontos disponíveis [é possível saber quais são e onde se localizam no site do Circular Wear em www.circularwear.com] e levar as que entender.

Por uma vida plena

Também Ana Milhazes, socióloga, instrutora de yoga, formadora e fundadora do Movimento Lixo Zero Portugal, tem por hábito comprar roupa em segunda mão. Foi preciso trabalhar 12 a 13 horas por dia numa empresa de informática e ter passado por um problema de saúde para abrandar. A consciência ambiental já lá estava desde há muitos anos [aos 16, começou a ser vegetariana] mas também a sensação de que os dias precisavam de mais horas e que nem o facto de ter uma casa perto da praia e uma profissão de que gostava eram motivos suficientes para se sentir realizada.

“Costumo repetir nos meus workshops que, muito mais do que a sustentabilidade ambiental, temos de tentar ser sustentáveis connosco próprios”, explica Ana Milhazes, fundadora do Movimento Lixo Zero Portugal. (Fotografia Fábio Poço/Global Imagens)

Depois de procurar informação sobre minimalismo, encontrou o blogue e o livro da autora francesa Bea Johnson, traduzido para português Desperdício Zero – Simplifique a Sua Vida Reduzindo o Desperdício em Casa“, editado pela Editorial Presença, e decidiu criar o Ana, Go Slowly, em 2012, que funciona como uma espécie de lembrete para a importância de viver mais devagar. Abrandar era obrigatório. Pelo caminho, descobriu a meditação e o yoga, começou a dar aulas e, em simultâneo, passou alguns anos a reduzir, de forma gradual, as coisas que tinha em casa. Depois de dois meses de baixa médica, devido a um diagnóstico de burn-out e depressão, tomou a decisão de se despedir do anterior emprego e passar a dedicar-se realmente ao que mais gostava de fazer. “Costumo repetir nos meus workshops que, muito mais do que a sustentabilidade ambiental, temos de tentar ser sustentáveis connosco próprios. Agradeço todos os dias pelo problema que tive porque se não fosse isso não estava aqui.”

Defensora de que as coisas mais sustentáveis são aquelas que temos em casa,
considera que existe um caminho a percorrer para implementar mudanças – algumas delas bem simples – na vida de quem pretende ter um estilo de vida diferente e que contribua para reduzir e pegada ambiental. Ana começou a fazer compras a granel, prefere ir diretamente ao produtor, sempre que possível usa frascos em vez de embalagens, e conseguiu uma redução de lixo substancial ao longo dos anos. “Praticamente não faço reciclagem porque não produzo muito lixo em casa”, afirma.

Ana tem noção de que “nem sempre é fácil” e que o seu estilo de vida gera sempre muitas dúvidas mas também tem a certeza de que quando se começa a ter maior cuidado com o ambiente, também é possível parar e sair do “piloto automático”.

Para quem quer começar e não sabe por onde, Ana criou o Guia Desperdício Zero disponível gratuitamente no seu blogue mediante subscrição da sua newsletter. É lá que dá a conhecer o kit Zero Waste que a acompanha diariamente composto por: um lenço de tecido que substitui os de papel, um ou dois sacos de compras dobráveis para evitar ter de trazer sacos das lojas ou supermercados e uma garrafa de água de aço inoxidável. Uma vez que bebe água da torneira, pode encher a garrafa em qualquer lado. Por último, tem também um kit de talheres que leva para restaurantes convencionais e sempre que vai comer fora, feito com restos de tecido, onde leva os seus talheres reutilizáveis, uma palhinha de aço inoxidável, pauzinhos que trouxe de um restaurante japonês e um guardanapo de pano, que era da sua avó. Tem noção de que “nem sempre é fácil” e que o seu estilo de vida gera sempre muitas dúvidas mas também tem a certeza de que quando se começa a ter maior cuidado com o ambiente, também é possível parar e sair do “piloto automático”.

Quando dá palestras em escolas, acaba por almoçar na cantina para perceber como funciona e faz questão de recolher o lixo existente no recinto e mostrar o resultado aos alunos para quem vai falar.

Um planeta acima do limite

Fernando Paiva, mais conhecido por “Joca”, também tem este hábito de fazer uma limpeza de lixo existente nas escolas que visita para dar palestras, nunca com uma distância de mais de 40 a 50 quilómetros do sítio onde vive, na praia da Barra, em Aveiro. Muito crítico sobre os comportamentos que contribuem para o aumento da pegada ambiental, desenhou a sua vida no sentido de não ter carro e de reduzir ao máximo os bens materiais, como por exemplo a roupa. Reduziu o vestuário que tinha para sete T-shirts brancas, dois pares de calças pretas, um blazer preto, dois quispos e um fato de surf. “Tenho apenas duas gavetas de roupa. Visto-me sempre da mesma maneira. Também já tive três televisores e, a dada altura, percebi que a vida que levava era anedótica”, afirma.

Naquele que considera “o declínio de um império com conhecimento de causa”, não vislumbra “nada de bom” no futuro enquanto “os governantes e a economia não andarem de braço dado com o ambiente”, diz Fernando (Joca) Paiva

Em 2013, criou o movimento Não Lixes depois de ter percebido, ao praticar windsurf no rio Mondego, que alguns estudantes universitários de Coimbra, no decorrer da latada, “furtavam carros de supermercado e atiravam-nos, carregados de lixo, para o rio”. Nesta ação de consciencialização que desenvolve sem retorno monetário, no primeiro ano, Joca e um grupo de amigos recolheram 214 carros e formaram um cordão humano para evitar que fossem atirados mais carros e mais lixo ao Mondego.

Tem aumentado a afluência de pessoas de várias idades nas limpezas de praia, como a que decorreu no último sábado, na praia da Barra em Ílhavo. (Fotografia Tony Dias/Global Imagens)

Todos os anos, o grupo apanha a média de 1100 carros que são atirados ao rio. “Isto continua a acontecer”, partilha, estupefacto. Durante a Queima das Fitas, realizada anualmente, em maio, “alguns estudantes acham-se no direito de regar pessoas com álcool, atirar beatas para qualquer lado, produzir lixo… Assistimos a uma degradação dos comportamentos em todas as universidades do nosso país”, acrescenta. O Não Lixes tem como missão consciencializar para a mudança de estilos de vida e de comportamentos. “Queremos comprar muita coisa, somos muito acumuladores, continuamos a ter viagens de avião low cost.” Naquele que considera “o declínio de um império com conhecimento de causa”, não vislumbra “nada de bom” no futuro enquanto “os governantes e a economia não andarem de braço dado com o ambiente”. Considera insustentável viver como se vive hoje. E por isso não faz viagens de avião, passou a viver perto da natureza, dedica o seu tempo a fazer o que gosta e a abraçar esta causa e é professor de surf, naquela que é a sua única atividade remunerada.

Fernando corre oito a dez quilómetros, todos os dias, descalço, em qualquer tipo de piso, mudou radicalmente a sua alimentação e ser pai não está definitivamente nos seus planos. “Optei por não ter filhos porque o planeta está cheio de gente”, afirma, sem rodeios. Passou por vários cursos universitários, teve diversos empregos e a maneira que encontrou de lidar com a frustração foi através da “dependência de substâncias tóxicas”. Adoeceu, apanhou “um enorme susto” e foi aí que decidiu mudar radicalmente de vida e estar na linha da frente na defesa do ambiente. “Estamos todos a contribuir para a extinção da espécie”, defende. Mas vê com satisfação a afluência de pessoas nas limpezas de praia, como aquela em que participou, no último sábado, na praia da Barra, em Ílhavo. “As pessoas gostam de estar em contacto com o mar e acabam por aceitar o desafio.”

Um futuro em mudança

O sonho de Rita Gomes é ter um swap spot em todo o país e, quem sabe, em todo o mundo. Para já, existe uma pessoa responsável em Madrid que vai começar o projeto na cidade. “Queremos mesmo fomentar esta mentalidade de cocriação e seria tão bom se, no futuro, pudéssemos viajar, olhar para o mapa e perceber onde existe um swap spot perto do destino… Viajaríamos com metade da bagagem”, afirma, entre risos.

São necessários 2600 litros de água para produzir
uma única t-shirt que demora 40 anos a decompor-se,
alerta a organização sem fins lucrativos planet aid.

Ana Milhazes tem como lema de vida que “a grande mudança está nos pequenos passos de cada um. Por menores que sejam as mudanças, certamente vão surgir outras e inspirar os que nos rodeiam a mudar”.

Fernando confessa a tristeza que sente perante as expectativas futuras. “Os dados são assustadores. Estive hoje num encontro com cientistas que falam de falta de água, seca, chuvas, cheias… Não vejo nada que me anime e digo isto com profundo conhecimento de causa.” Considera, no entanto, que podemos todos continuar a viajar de carro, de avião, a ter filhos e a comprar coisas mas dentro de um determinado limite. “A questão é que esse limite já foi ultrapassado há muito tempo”, conclui.