Porque ficamos tão irritados quando temos fome?

Sabe aquela agressividade latente que aumenta à medida da nossa necessidade de comer algo urgentemente? De certeza que já lhe aconteceu. A culpa é da fome, não sua.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Almoçamos uma salada leve, até porque contamos ir cedo para casa e lanchar melhor antes do ginásio. Mas sabe-se lá como o trabalho atrasa, os transportes idem, não resta sequer uma bolacha na mala para enganar a fome, e às tantas já só nos apetece bater nas pessoas à nossa volta. Soa-lhe familiar?

E é mesmo, confirma uma pesquisa publicada na plataforma académica The Conversation, que relaciona a queda nos valores de açúcar no sangue com uma maior dificuldade em comportarmo-nos segundo as regras socialmente aceites – incluindo ser gentil com quem nos rodeia ou, pelo menos, não entrar a matar.

Na prática, os carboidratos, proteínas e lípidos que comemos são digeridos para se converterem em açúcares simples (como a glicose), aminoácidos e ácidos graxos livres, que passam depois para a corrente sanguínea para serem distribuídos pelos tecidos, órgãos e usados como energia.

Quanto mais tempo passa da última refeição, mais o organismo entra em estado de alerta.

Quanto mais horas passam desde a última refeição, mais estes nutrientes a circular no sangue começam a cair, fazendo o organismo entrar numa espécie de estado de alerta. Ao mesmo tempo, aumenta a produção de hormonas relacionadas com o stress, como o cortisol e a adrenalina.

«A fome é, sem sombra de dúvida, um mecanismo de sobrevivência que tem servido tanto os humanos como os outros animais», explica Amanda Salis, investigadora em nutrição e desordens alimentares na Universidade de Sydney, Austrália.

«Se os organismos esfomeados se afastassem e deixassem graciosamente os outros comerem antes deles, a respetiva espécie podia morrer», conclui a especialista.

O que sucede então quando temos fome é que os alarmes do corpo disparam diante da falta de glicose que devia, em teoria, estar a ser processada a partir de alimentos que não estamos a ingerir – glicose essa de que o cérebro necessita desesperadamente para funcionar bem.

A quebra de glicose no sangue faz-nos sentir ansiosos e impacientes.

Não admira que sem ela nos sintamos aturdidos, ansiosos, amorfos. Impacientes a uma escala que pode ir de uma irritação ligeira – se o corpo for rápido a processar os açúcares ou eficaz a recorrer às nossas reservas acumuladas – até fúrias explosivas, capazes de nos fazer mandar tudo pelos ares (quem nunca?).

Pouca energia significa ainda que iremos sentir dificuldade em concentrar-nos, articular o discurso ou realizar tarefas básicas. Chegará à justa para não mandarmos o chefe para um certo sítio escuro e nada aprazível, porém pode já não dar para evitarmos discutir com as pessoas que mais amamos, sabendo que serão elas as primeiras a perdoar-nos o estado de espírito bélico.

Uma pesquisa relaciona a hipoglicémia com uma maior violência entre casais.

De facto, um outro estudo de Brad J. Bushman, professor de comunicação e psicologia na Universidade Estadual de Ohio, EUA, vai mais longe ao apontar estas hipoglicémias como as causadoras de agressões frequentes entre casais: quanto menor o açúcar a circular na corrente sanguínea, pior a intensidade e a duração da fúria.

«A violência doméstica é um problema sério em todo o mundo, sendo o baixo autocontrolo um dos fatores que concorrem para isso», admite o académico, considerando que a solução requer muito alimento para o cérebro sob a forma de glicose.

«A agressão e a violência começam frequentemente quando o autocontrolo bloqueia, pelo que o metabolismo saudável da glicose pode contribuir para lares mais pacíficos ao fornecer um boost de energia aos casais nesse sentido», diz. Isso e adotar a máxima, válida para toda a gente em todos os contextos, de que assuntos importantes se discutem com a barriga cheia, nunca antes.

Para evitar estes maus humores no futuro, deixamos-lhe na fotogaleria algumas sugestões saudáveis a ter sempre à mão. A fome nunca foi boa conselheira.