Filhos só de mãe: três mulheres que decidiram ser mães sozinhas

A possibilidade de ser mãe tem prazo de validade. Um prazo biológico que obriga as mulheres a pensarem em alternativas quando não existe um parceiro no horizonte. Três mães que decidiram engravidar sozinhas, com recurso a tratamentos de fertilidade, contam as suas experiências.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Diana Quintela/Global Imagens e iStock

«Uma coisa é garantida, elas são minhas». Rita Moura, 44 anos, não hesita um segundo quando o assunto são as gémeas Maria e Luísa, que nasceram há dois anos e meio. Aos 39, estava sozinha e sem vontade de continuar à espera de um companheiro com quem pudesse dividir o projeto de uma família.

Inscreveu-se para adoção, seis meses depois estava aprovada para receber uma criança mas o tempo de espera tornou-se desesperante. «Aos 41, comecei a pensar que teria de encontrar noutro caminho.»

A Lei da Procriação Medicamente Assistida (LPMA) tinha sido aprovada em 2006 mas apenas estava autorizada a mulheres casadas ou em união de facto há pelo menos dois anos, heterossexuais e inférteis.

350 portuguesas solteiras ou em casais homossexuais deslocaram-se a Espanha para engravidar entre 2011 e 2015, segundo o Instituo Valenciano de Fertilidade.

Rita foi a Sevilha e engravidou à segunda tentativa por inseminação artificial. As gémeas nasceram um par de meses antes de a LPMA ser alargada a todas as mulheres, independentemente do estado civil ou orientação sexual. Estávamos no verão de 2016 e, no final desse ano, o decreto-lei foi publicado em Diário da República.

Segundo o IVI (Instituto Valenciano de Infertilidade), nos cinco anos anteriores, 350 portuguesas solteiras ou em casais homossexuais deslocaram-se ao país vizinho para engravidar. Ana Silva, 42, e Márcia (nome fictício), 36, já puderam fazer o tratamento na sede do IVI, em Lisboa.

Ana sempre quis ser mãe. Aos 32 anos, acabou uma relação de 14 por achar que não estava com a pessoa certa para ser o pai dos seus filhos. «O meu maior medo era não conseguir encontrar outra pessoa e não poder ter filhos. Mas meti na cabeça que até aos 40 teria uma criança nos braços».

Um linfoma aos 37 veio colocar a vida em perspetiva. «De início, parecia muito grave. Quando dei entrada no hospital tinha um pulmão completamente colapsado. Lembro-me que quando me diagnosticaram e ainda não sabia qual seria o tratamento, chorei muito. Só pensava que já não ia conseguir ser mãe».

«O MEU PAI É MÉDICO, JÁ VIU MUITO E DIZIA-ME SEMPRE: “QUANTAS MULHERES CHEGAM AO HOSPITAL E FICAM SOZINHAS E DESAMPARADAS COM BEBÉS NOS BRAÇOS? SABES QUE PODES CONTAR CONTIGO E ISSO BASTA.”»

Apesar de ter sido um tratamento rápido – durou seis meses – a quimioterapia trouxe mazelas. Aos 38, estava na menopausa e os planos de uma família eram substituídos pela urgência do momento. Exatamente aos 40, Ana engravidou com doação de ovócitos (tratamento em que a mulher recorre à doação anónima de óvulos e esperma). Era um menino.

Márcia é a mais jovem das mães. «Quando fiz 30, inscrevi-me logo como candidata singular para adoção. Sabia que ia demorar algum tempo. Estava em lista de espera há anos e, quando a LPMA mudou, pensei que era um sinal».

Tinha 34 e estabilidade profissional como docente do ensino básico. «Esperar para quê? Sou homossexual, sempre soube que teria de recorrer a tratamento se quisesse engravidar». Mas ninguém disse que ia ser fácil. As duas primeiras tentativas de inseminação artificial não resultaram e a carga psicológica tornou-se pesada.

«Em casal, apoiam-se um ao outro. Estava a lidar sozinha com tudo mas não podia desistir.» Mudou de clínica e quando tentou pela terceira vez, já no IVI, sentiu que ia conseguir. E conseguiu. Os gémeos, um rapaz e uma rapariga, têm apenas sete meses e há muito para aprender acerca da maternidade.

«São dois! Ainda não voltei ao trabalho e de início não foi fácil. Tendo uma pessoa ao lado seria mais fácil, claro que sim. Para ajudar e para partilhar a evolução deles que acontece todos os dias. Esta experiência é minha e só minha. Como mãe, consigo sentir-me completa. Como mulher, faz-me falta ter alguém», confessa.

Rita também teve o apoio da família. «O meu pai é médico, já viu muito e dizia-me sempre: “Quantas mulheres chegam ao hospital e ficam sozinhas e desamparadas com bebés nos braços? Sabes que podes contar contigo e isso basta.”»

Sempre foi ansiosa mas a maternidade trouxe-lhe uma certa calma. «Sei que sou a boa e a má e não me importo nada com isso. Não me faz confusão impor castigos e regras e depois, quando resolvidas as coisas, irmos brincar».

Enquanto mulher, não abdicou do tempo para si e as gémeas estão habituadas a ficar com a avó desde muito cedo. «Adoro as miúdas, mas gosto muito de ir às compras ou ao cinema sem elas.» Todos os anos, faz uma viagem sozinha e tem a noite de quinta-feira só para si.

A terapia ao longo do processo foi uma ajuda importante. «Sinto que não preciso de abdicar de mim para ser uma boa mãe. Mas conheço muitas mães que o fazem», admite. Ter um parceiro faz falta, sobretudo na parte prática. «Financeiramente, é muito pesado para uma pessoa só. É a escola, a alimentação, tudo. Antes, tinha uma vida muito folgada, tenho um bom ordenado. Para uma é óptimo, para três já custa um bocadinho».

Quero que estejam preparados para que, quando alguém lhes disser “não tens pai”, os gémeos possam dizer: “não tenho pai mas tenho uma mãe que me quis muito”», diz Márcia.

Quem achar que é um cenário linear, pode falar com Ana. «É muito duro, há momentos em que uma pessoa acha que não vai conseguir. Mas depois nunca sentiste nada assim por ninguém. É uma explosão de amor. Ele já ri e acha piada a diversas coisas e o teu dia vai-se todo nisto. Mas nunca me esqueço que a responsabilidade está toda nos meus ombros».

MÃE, ONDE ESTÁ O PAI?

Para o psicólogo Eduardo Sá, «duas pessoas na vida de uma criança trazem a hipótese do contraditório. Podemos ter casos casos em que ser mãe sozinha seja um grito de independência e isso pode levar a más decisões na educação dos filhos».

Os novos modelos de família ainda estão em fase de aceitação na sociedade. Não existem dados estudados sobre o número de pessoas que recorreu a inseminação artificial desde que a lei foi alterada há dois anos, no entanto, na sede portuguesa do IVI, 15 por cento do total de pacientes são mulheres solteiras e casais de mulheres.

Números significativos mas, ainda assim, estas três mães sabem que a pergunta sobre a figura paternal pode surgir. «Não acho que vão sentir falta de um pai porque nunca tiveram um, não sabem o que é. Preocupa-me o ambiente escolar, as crianças sabem ser más. Quero que estejam preparados para que, quando alguém lhes disser “não tens pai”, os gémeos possam dizer: “não tenho pai mas tenho uma mãe que me quis muito”», diz Márcia.

Ana acredita que tudo pode acontecer e conjugar-se. «Eu dei foi um passo em frente em relação ao meu destino.»

Amor é amor e Rita Moura não duvida disso. «Se elas tiverem afeto, sentirem-se queridas, não vão sentir falta. Lá em casa, existe muita harmonia. Quantas crianças não vivem em angústia porque os pais não se entendem? As minhas filhas não vão passar por isso.»

A mãe das gémeas quer, inclusive, que as filhas saibam de onde vieram. «Mais tarde, explico a parte do dador. Também vou querer ir com elas a Sevilha para elas conhecerem as suas origens. No fundo, elas são ibéricas», brinca.

Ana vai mais longe e, quando olha para trás, sabe que fez o certo. «Se penso na quantidade de decisões que tive de tomar para chegar aqui, se estivesse com o meu antigo namorado, ia dar discussão. Existe algum alívio em ter sido eu, e apenas eu, a escolher um rumo».

O preconceito existe e pode surgir de onde menos se espera. Exemplo disso foi o dia das vacinas das gémeas Maria e Luisa. «Nunca senti preconceito no trabalho, o padre da igreja que a minha família frequenta rezou uma missa por nós. Mas uma enfermeira sentiu-se no direito de especular sobre a nossa vida enquanto dava as vacinas às miúdas. “Onde está o pai? As crianças têm de ter pai.” Não dei conversa mas apanhou-me de surpresa.»

As relações amorosas não são carta fora do baralho. Muito pelo contrário. Ana acredita que tudo pode acontecer e conjugar-se. «Eu dei foi um passo em frente em relação ao meu destino. Imagine que encontro o amor aos 50. Não estou assim tão longe, estou a oito anos. Mas aí já não poderia ter filhos. Assim já terei os dois, se acontecer. E espero que aconteça.»

IMPASSE NA LEI

Em abril deste ano, o Tribunal Constitucional (TC) considerou inconstitucional a lei nº 17/2016, no que respeita ao anonimato dos dadores de gâmetas, previsto no documento.

Cláudia Vieira, presidente da Associação Portuguesa de Fertilidade (APF), explica o que aconteceu. «O CDS e alguns deputados do PSD pediram ao TC que analisasse a lei e este declarou-a inconstitucional. É importante salvaguardar que não estão em causa os tratamentos com dadores, mas sim o levantamento do anonimato.» Há sete meses que não há avanços.

Enquanto não há consenso, a espera, que já era grande, torna-se indefinida. «Estávamos a falar de uma espera na ordem dos 21 meses para dadores masculinos (esperma) e 33 meses para dadores femininos (ovócitos). Neste momento, a maior parte dos tratamentos estão suspensos porque a maioria dos dadores não consentiu o levantamento do anonimato e desistiu.»

Na tentativa de desbloquear parte da situação enquanto o imbróglio legal não se resolve, o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida estabeleceu que quem quiser fazer novo tratamento, com dador ou dadora que autorize o levantamento do anonimato, pode fazê-lo.

«O problema é que as pessoas já investiram o seu dinheiro – cerca de seis mil euros – e têm de começar tudo novamente.» Para a APF, não há vantagem nenhuma em saber-se a identidade do dador ou da dadora, mas «não vamos poder fugir à decisão do TC».

Em alguns países, como Inglaterra, o levantamento do anonimato é uma realidade há muitos anos. A identidade civil só pode ser conhecida se o adulto resultante do tratamento assim o desejar quando atingir os 16 ou 18 anos (a idade ainda não foi definida por lei).