Forma como casais discutem prevê doenças que terão no futuro

Por mais que as pazes acabem por chegar e as discussões sejam atiradas para trás das costas, um bate-boca entre os casais tem sempre mais que se lhe diga além das palavras. É uma questão de saúde.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Ao contrário das zebras, que desligam a resposta de stress quando o leão se afasta, casais têm bem mais dificuldade em manter a calma. Há as contas para pagar e a pilha de roupa suja a crescer. Terra na sala porque o outro não se descalça à entrada ao fim deste tempo. Os miúdos para meter na cama e nem uma ajuda com o jantar. Claro que vai haver discussões, como não? Uma pessoa não é de ferro…

O problema, alerta uma equipa de investigadores da Universidade da Califórnia em Berkeley, EUA, são os efeitos nocivos que essas zangas têm na saúde dos parceiros a longo prazo, muito mais impactantes do que quaisquer palavras despropositadas proferidas no calor do momento.

Impacto das zangas é tão grande que permite prever as doenças que os parceiros terão daqui a 20 anos com base no modo como agora discutem.

Pior, acrescenta a pesquisa: esta questão das zangas a dois é tão demolidora para o organismo que torna possível prever as doenças que os parceiros terão daqui a 20 anos apenas com base no modo como agora discutem um com o outro.

E não, nem sequer é preciso um esforço ou capacidades adivinhatórias por aí além para se fazer esta antevisão com maioria de certezas, sublinham os cientistas, após terem esmiuçado as vidas de 156 casais heterossexuais desde 1989, com resultados idênticos para todos: verem o casal em confronto durante 15 minutos é quanto lhes basta para traçarem um quadro de saúde bastante exato para o futuro.

«Há anos que sabemos que as emoções negativas acarretam perturbações de saúde bastante sérias, mas este estudo foi mais longe ao apurar que certas emoções específicas estão ainda ligadas a problemas de saúde específicos», explica o psicólogo Robert W. Levenson, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley e um dos principais responsáveis pela descoberta.

Aqueles que reprimem as emoções tendem a desenvolver mazelas nas costas, pescoço e músculos.

O padrão é de tal maneira limpo que quase parece mais matemática do que neurociência afetiva: aqueles que reprimem as emoções e assumem uma postura defensiva nos confrontos tendem a desenvolver mazelas nas costas, pescoço e músculos.

Se quem briga for do género explosivo, disposto a levar tudo à frente até às últimas consequências, o mais certo é vir a sofrer de problemas cardíacos, dores no peito e hipertensão. Sobretudo os maridos, que mais do que elas são afetados por estas tensões maritais.

«Se pensarmos que continuam a existir diferenças significativas na forma como educamos homens e mulheres, e que de um modo geral os homens de hoje foram educados no sentido de reprimir as suas vulnerabilidades, percebe-se que lhes seja mais difícil construir laços emocionais significativos fora das relações amorosas», justifica a psicóloga e terapeuta familiar Cláudia Morais, autora de Sobreviver à Crise Conjugal (Oficina do Livro, 2004).

Casamentos conflituosos resultam em inflamações no corpo, distúrbios alimentares, dores de cabeça e reações intensas de stress.

Já antes a ciência tinha validado esta noção de que casamentos felizes trazem aos parceiros uma vida mais longa e saudável do que a de solteiros, divorciados e viúvos, ao passo que casamentos conflituosos resultam em inflamações no corpo, distúrbios alimentares, dores de cabeça e reações intensas de stress que prejudicam desde o coração ao sistema imunitário.

«Se pensarmos que de um ponto de vista biológico nascemos apetrechados desta capacidade para nos ligarmos do ponto de vista emocional, e que essa é uma necessidade equivalente à de nos alimentarmos, torna-se mais fácil entender que o impacto das nossas relações se estenda à saúde do nosso corpo», conclui Cláudia Morais.

Segundo os neurocientistas, um truque para os casais lidarem com as emoções negativas é seguirem os três passos simples que lhe deixamos na fotogaleria. Com a prática, será cada vez mais fácil lidar com elas logo que surjam.