Francisco George: “A melhor profilaxia é manter-se informado e evitar alarmismo”

“No atual contexto, com esta nova estirpe, não sabemos com exatidão qual é a taxa de mortalidade. O que sabemos é que há novos casos todos os dias. A fase ascendente da curva epidémica continua a aumentar.”

Começa com rumores de um surto, depois já se fala em epidemia e, subitamente, resvala para uma pandemia. Ninguém sabe como se comportar, que medidas adotar. Desta vez é o novo coronavírus a pôr o mundo em sobressalto. O presidente da Cruz Vermelha Portuguesa dissipa muitas das dúvidas que atormentam a população.

Texto de Sandra Gonçalves | Fotografia Filipa Bernardo (Global Imagens)

Quando é que uma epidemia passa a pandemia?
É simples de definir. Uma epidemia é quando existe a confirmação de uma ocorrência de casos de determinada doença acima do que é esperado para aquele lugar e época do ano. Por exemplo, considerando o paludismo, os casos que estão a ocorrer atualmente em Bissau não representam uma epidemia. Porém, se houver casos de paludismo confirmados em Lisboa já são enquadrados no conceito de pandemia. Falamos numa pandemia quando a epidemia se propaga simultaneamente em mais do que um continente. Veja-se esta situação do novo coronavírus. Se fosse diagnosticada e comprovada só na China, não estaríamos a falar numa pandemia. Mas assim que se formam cadeias de transmissão da doença fora do continente asiático, então, sim, estamos perante uma epidemia que adquiriu uma expressão pandémica.

Sendo assim, o novo vírus já pode ser considerado uma pandemia?
Sim, claro. A epidemia já adquiriu uma expressão pandémica.

Os agentes patogénicos estão a tornar-se mais virulentos, mais resistentes?
Não. O que acontece, simplesmente, é que este coronavírus é novo, é uma nova estirpe. Os virologistas e epidemiologistas conhecem os coronavírus há mais de 50 anos. Mas são diversas as famílias e os géneros. Os hospedeiros na fase animal podem ser vários. Quando se cinge aos animais, não podemos falar de uma epidemia, mas sim de epizootias. Tudo indica que os vírus estão resguardados na natureza. E no caso do 2019-nCoV está confirmado que o reservatório é o morcego, que elimina o patógeno através das fezes. Os morcegos, neste contexto, são os hospedeiros do vírus e, ao eliminá-lo pelos excrementos, vão infetar outros animais. Naturalmente, havendo contacto destes animais com seres humanos, pode acontecer um salto de barreira de espécie, que foi precisamente o que aconteceu com este coronavírus, passando a infetar os humanos. Portanto, estamos perante uma epizootia que deu o salto e provocou uma epidemia. Mas não, não há qualquer evidência de que os vírus estejam a tornar-se mais resistentes.

“No caso do 2019-nCoV, está confirmado que o reservatório é o morcego, que elimina o patógeno através das fezes. Os morcegos, neste contexto, são os hospedeiros do vírus e, ao eliminá-lo pelos excrementos, vão infetar outros animais. Naturalmente, havendo contacto destes animais com seres humanos, pode acontecer um salto de barreira de espécie, que foi precisamente o que aconteceu com este coronavírus.”

E porquê os morcegos?
Sabe-se que são reservatórios de múltiplos vírus, incluindo desta nova estirpe de coronavírus.

Não se poderia combater o problema pela raiz, pelos morcegos?
A questão é oportuna e tem sido motivo de muita reflexão. Mas os morcegos não se podem extinguir. Há mais de 1200 espécies e desempenham um papel fundamental para a saúde dos ecossistemas terrestres. São os maiores reflorestadores naturais do planeta, além de predadores de um vasto números de pragas agrícolas e vetores de doenças. Porém, sabe-se também que são reservatórios de vários vírus, e que conseguem mantê-los com grande viabilidade no seu organismo. O que aconteceu com este novo agente patogénico é que foi identificado com carácter epidémico na China, no seu epicentro, num mercado de animais, e a partir daí adquiriu a capacidade de se transmitir entre seres humanos, uma transmissão inter-humana.

Isso implicou uma adaptação do vírus?
Pode ser considerada uma adaptação, embora o vírus seja o mesmo. Só que saltou a tal barreira de espécie e começou a infetar humanos, provocando um quadro respiratório com capacidade de degenerar numa pneumonia atípica, que pode ser grave.

As maiores vítimas são os idosos?
Essa é uma questão importante de sublinhar. Os idosos e os doentes com problemas crónicos são sempre os mais vulneráveis às doenças. E o que se passa com este vírus não é diferente. Estamos perante um problema preocupante, que teve a sua origem na China mas que se propagou para fora e que representa uma preocupação a nível mundial.

No atual contexto, com esta nova estirpe, não sabemos com exatidão qual é a taxa de mortalidade. O que sabemos é que há novos casos todos os dias.

Há probabilidade de escalar?
Não se sabe. Até porque anteriores epidemias também provocadas por coronavírus, embora de estirpes diferentes, foram contidas a tempo. A síndrome respiratória aguda grave (SARS), que surgiu em 2002-2003, teve oito mil casos diagnosticados e 800 óbitos. Dez anos depois foi detetada uma nova epidemia, que teve como reservatório os camelos, a síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS). Também esta foi contida pelas autoridades de saúde pública, mas teve indicadores mais graves do que a anterior. A probabilidade de se morrer na primeira epidemia de coronavírus, que tinha por hospedeiro o carnívoro civeta, um gato riscado, era de 10%, enquanto no Médio Oriente, onde o reservatório era o camelo, as hipóteses eram superiores a 30%. No atual contexto, com esta nova estirpe, não sabemos com exatidão qual é a taxa de mortalidade. O que sabemos é que há novos casos todos os dias. A fase ascendente da curva epidémica continua a aumentar. Imaginemos que a curva epidémica é como uma montanha, e quando se chega ao cume, ao pico, depois começa-se a descer. Ainda estamos na fase ascendente da curva epidémica. Ainda não se chegou ao pico.

Como é que se sabe quando atingirá o cume?
Quando os casos diagnosticados começarem a decrescer em relação à semana anterior. Quando isso acontecer, é sinal de que se atingiu o topo da curva, mas ainda não se sabe quando é que esse topo irá surgir. Por outras palavras, há aqui um fenómeno que pode ser visto como a fase visível de um icebergue, mas não sabemos qual é a dimensão e a proporção que estão submersas. É preciso dar tempo ao tempo. Vamos saber, mas é preciso tempo.

“Não é só a questão da vacina. Também é preciso encontrar tratamentos eficazes. Estas são as principais medidas de prevenção e controlo que se avizinham.”

E o período de incubação, já há certezas?
Tudo indica que é inferior a 14 dias. É preciso sempre pensar em termos de média, que poderá ser de cinco a seis dias até 14 dias. Os estudos em curso estão a chegar a essa confirmação, de que o período de incubação não ultrapassa as duas semanas.
Quando comparado com os anteriores coronavírus… Tem um período de incubação semelhante.

O que é que os países podem fazer em termos de prevenção?
Estarem bem informados. E planearem bem as medidas de prevenção e controlo através de um planeamento rigoroso, aplicado em função de cada momento. Os cidadãos devem estar informados, é muito importante que assim seja. Sobretudo através de órgãos de comunicação social de referência. Não podem ser veiculadas notícias sensacionalistas, alarmistas, fake news. A informação tem de ser rápida, consistente e transparente, seja entre pares, aqueles que trabalham nos serviços de saúde, mas também, e isto é muito importante, aquela que chega aos cidadãos. Têm o direito de ser informados de forma rápida e transparente, sem margem para omissões ou dúvidas. É imprescindível que haja confiança recíproca entre quem informa e aqueles que difundem a informação para os cidadãos. E depois há ainda as redes sociais. Não é admissível que as pessoas se entretenham a lançar ideias sem fundamento, originando graves problemas relacionados com a falta de clareza e verdade. Toda a informação tem de ser insuspeita, inquestionável.

Qual o pior cenário que se pode prever?
Este cenário já é preocupante. E não é preciso ir além. Não estamos a viver a gripe espanhola de 1918, a pandemia mais mortífera de todo o século XX à escala mundial. Naquela época não havia vacinas, nem sequer se conhecia o agente patogénico. Sabia-se apenas que as pessoas adquiriam uma infeção respiratória, que podia ser letal, mas desconheciam o que a provocava. Por isso, nem sequer tinham como a tratar. Eram tempos de total ignorância em relação ao agente. Inicialmente, até se discutia se não seria uma bactéria. O vírus da gripe só viria a ser conhecido em 1933. Por isso, estamos a falar de muitos anos antes. A situação não é comparável aos dias de hoje, é completamente distinta. Conhece-se a nova estirpe, a sua ultraestrutura, a sequenciação do genoma…

Sendo assim, para quando a vacina?
Não é só a questão da vacina. Também é preciso encontrar tratamentos eficazes. Estas são as principais medidas de prevenção e controlo que se avizinham. É preciso dar tempo ao tempo, é verdade, mas também é verdade que a ciência hoje não é comparável à de 1918. Acredito que as investigações em curso vão ter sucesso.

Diria que para o ano já haverá vacina para este novo vírus?
Sim. Isso sem margem para dúvida.

E tratamentos no imediato?
A doença está a ser tratada de forma sintomática. Se um doente apresenta febre, tem de receber antipiréticos. Se tem problemas respiratórios, tem de ser assistido em unidades de cuidados intensivos. Depois, é preciso dar tempo ao organismo para que, através das suas resistências, ganhe a luta contra a infeção.

Justifica-se declarar o estado de emergência nacional?
O estado de emergência nacional é decidido simultaneamente por vários órgãos de soberania, nomeadamente a Assembleia da República, o Presidente da República e o Governo. É uma suspensão dos direitos constitucionais, e tem a duração máxima de 15 dias. Nada o justifica. Apenas em caso de uma enorme catástrofe, um terramoto, uma guerra, se fôssemos invadidos por marcianos.

Face ao perigo de contágio, voltou ao debate a necessidade de rever a Constituição no que diz respeito à quarentena e internamento compulsivo. (Em Portugal, o internamento compulsivo é limitado a anomalias psíquicas.) Qual a sua posição?
Ninguém com bom senso pode dizer que a lei é eficaz – não é!, uma vez que só é aplicada depois da transmissão. Um doente infetado com ébola ou uma tuberculose multirresistente não pode ser forçado, por lei, a ficar de quarentena ou a receber tratamento. Se quiser ir para casa, vai. Apanha o autocarro ou um táxi, e vai. O que o Código Penal prevê é uma pena para quem transmite a doença. Por lei, é crime transmitir uma doença. Mas aí já o mal está feito. Não estamos a evitar o problema. Não se pode permitir que um doente nestas circunstâncias vá para o cinema ou que circule na via pública e esteja a infetar outros. É uma questão de inteligência. Não pode haver oportunidade legal para transmitir uma doença contagiosa. Mas a decisão é uma competência da Assembleia da República.

Portugal está preparado para lidar com esta crise?
Tem de estar preparado. E está! Não podemos ser críticos em relação às capacidades dos portugueses. Temos de ter confiança. De nada adianta desconfiar. Basta ver o que aconteceu com a operação de repatriamento dos 20 cidadãos que estavam em Wuhan. Em termos organizativos, foi muito bem-sucedida. Naturalmente, temos de a aplaudir. Tudo pode não correr bem. Mas se isso acontecer, emenda-se, introduzem-se as correções devidas. No fundo, é isso que tem estado a acontecer. Mas, neste caso, estamos a falar apenas de 20 pessoas, já referenciadas e identificadas. Com a mobilidade que existe… Há sempre risco. O risco em Portugal não é zero. Mas uma coisa é certa, jamais enfrentaremos um cenário semelhante ao da China. Este problema é trágico naquelas cidades chinesas, mas nunca será vivido com tanta intensidade em Portugal. Temos meios de prevenção e contenção que vão evitar, seguramente, um descontrolo como aquele que se vive atualmente na China.

E que medidas deverá o cidadão tomar no seu dia-a-dia?
Informar-se. Estar atento. Não viver alarmado. Pôr de lado a ansiedade e fazer uma análise da situação baseada na confiança.

Justifica-se começar a andar com máscaras?
Não. Apenas devemos começar a usar máscaras caso a Direção-Geral da Saúde emita uma declaração pública nesse sentido. Mas esse dia pode nunca acontecer. Por conseguinte, não vamos estar agora a circular nas ruas com máscaras. Ainda por cima quando muitas delas têm eficácia duvidosa. Nem pensar. Não estamos na China, Portugal não é a China, os portugueses não estão a viver aquela tragédia.