Francisco Goiana da Silva: saúde pública em crónica

Fez um estágio de três meses na OMS e acabou como consultor. Tirou medicina em Lisboa e um mestrado em política e gestão de saúde na Imperial College, em Londres, onde faz agora o doutoramento no Departamento de Cirurgia e Cancro. E assim Francisco Goiana da Silva se foi tornando um fervoroso defensor do Serviço Nacional de Saúde, sobre o qual escreve (entre outros assuntos) na DN Life.

Texto de Ana Pago | Fotografias de Gerardo Santos/Global Imagens

Há um ditado japonês que diz que quem não entra em cavernas de tigres nunca vai ficar com os filhotes, e Francisco Goiana da Silva é a prova disso. Não porque tenha o que quer que seja a ver com animais: aos 29 anos é médico, docente na área de Gestão e Liderança de Saúde na Faculdade de Medicina da Universidade da Beira Interior, além de adjunto do Secretário de Estado Adjunto e da Saúde. Simplesmente, esta é uma forma elegante de sublinhar que o triunfo nasce da luta, não da sorte.

«Se as minhas passagens pelo estrangeiro me ensinaram algo foi que o nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) não é o descalabro nem o desgoverno que nos querem fazer crer. Tem coisas a melhorar, como todos os outros, mas é a referência», defende Francisco Goiana da Silva, um dos cronistas da DN Life. «O que a Suíça é ao nível do sistema bancário, nós podemos bem ser nos cuidados de saúde e no SNS.»

Como não escrever, então, sobre este nas suas crónicas? Não refletir sobre um tema que conhece ainda mais a fundo do que toda a anatomia que estudou, entre 2007 e 2013, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa? «Começa a ser cada vez mais óbvio que a nossa sociedade e os seus líderes, eternizados nos locais de decisão, não foram capazes de antecipar e preparar as mudanças culturais a que o mundo global hoje nos obriga», diz.

«Defender a saúde e o SNS não significa ser conservador em relação a estes, pelo contrário.»

Na área da saúde, habituou-se a ouvir as ideias de sempre, proferidas pelos mesmos líderes de sempre. Foi quando percebeu que, mais do que ser cirurgião, faria melhor medicina a criar pontes entre a prática e a gestão do que numa sala, a operar. «Dizem que não há dinheiro para financiar o SNS, mas é uma questão de se definir prioridades e modernizá-lo», explica o consultor em inovação e prestação de cuidados. Se bem o pensou, mais depressa acabou em Londres a fazer o tal mestrado em Gestão de Saúde Internacional pela Imperial College Business School.

«Temos um sistema bem organizado, pequena dimensão, uma localização fantástica, profissionais de alto nível se comparados com o contexto internacional.» Ia procurar soluções para um SNS sustentável e de excelência, custasse o que custasse. «Defender a saúde e o SNS não significa ser conservador em relação a estes, pelo contrário.» E assim se seguiu uma pós-graduação em Políticas de Saúde pela Escola de Saúde Pública de Harvard, EUA.

Hoje, Francisco Goiana da Silva é aluno de doutoramento do Departamento de Cirurgia e Cancro da Imperial College Medical School. Membro da comunidade Global Shapers – uma rede internacional dirigida por jovens entre os 20 e os 30 anos, com vontade de desenvolverem projetos que sirvam a sociedade –, foi ele o primeiro português a participar (em 2014) nas reuniões do encontro anual do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça.

«A primeira crónica é sobre as semelhanças entre o poder viciante do açúcar e de outras drogas ilícitas.»

«Klaus Schwab, presidente do Fórum, afirmou recentemente que os millennials são a primeira geração a sofrer o impacto total das más escolhas dos seus predecessores, e talvez a última a poder fazer alguma coisa para os inverter.» Porque a área da saúde não é exceção a essa regra, acredita o médico, é urgente dar voz às gerações mais jovens, «que por sinal irão suportar os encargos do SNS do futuro».

E assim voltamos à parte em que Francisco conta escrever para despertar consciências. «A primeira crónica, Sexo, Açúcar e Rock’n’Roll, debruça-se sobre as semelhanças entre o poder viciante do açúcar e de outras drogas ilícitas.» Tem tudo a ver com promoção da saúde e prevenção da doença, as duas áreas a que dedica a sua carreira. «Terem sido deixadas para segundo plano nas últimas décadas justifica a atual epidemia de doenças crónicas que coloca a sustentabilidade do SNS em risco.»

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