Genética: As escolhas que os nossos avós não tinham

Parecem cenários da ficção científica mais avançada: plantas a dar frutos que não têm caroços. Vacas que produzem leite otimizado. Clones dos nossos animais de estimação (que nunca mais nos iriam morrer). Insulina produzida em quantidade suficiente para valer a grandes populações com diabetes.

Texto de Ana Pago

Só que não, não são devaneios, avisa a bióloga e geneticista brasileira Mayana Zatz. «As questões que no início eram restritas a famílias com pessoas afetadas por doenças genéticas estão a tomar proporções maiores.»

Menino ou menina: o que teria se pudesse escolher? «É ético selecionar embriões de determinado sexo? Estamos preparados para testes clínicos com células estaminais?» Quais os limites?

Face às incertezas, sem respostas simples a dar, escreveu GenÉTICA (ed. Luz da Razão) para explicar que o potencial dos avanços nesta área é colossal, mas por isso mesmo o público deve perceber os dilemas éticos que se levantam no dia-a-dia. E não são poucos.

PATERNIDADE

Já toda a gente ouviu falar nos testes de paternidade, uma ferramenta ótima que a genética nos deu para tirar dúvidas que, no passado, corroíam relações e o bem-estar dos filhos. Mas e se o exame de ADN revela segredos que a família queria manter escondidos, como o facto de aquele não ser o pai biológico? Contar ou não contar? Que repercussões? Fica fácil de perceber a falta de consenso em torno do assunto.

SEXO DO BEBÉ

Na era da genética, outra escolha possível a quem tiver meios para o fazer (as clínicas cobram muito pelos resultados) é se o bebé é menino ou menina – algo que pode ser um problema em países como a China e a Índia, com uma preferência manifesta por crianças do sexo masculino. Zatz diz ser a favor do diagnóstico pré-implantação para evitar doenças genéticas, «mas não por motivos fúteis como a escolha do sexo». O que nos deixa com nova questão ética.

OS GENES FÚTEIS

Em teoria, os pais poderão decidir se querem que os seus filhos nasçam mais bonitos, inteligentes e resistentes a infeções, loiros ou morenos, altos ou baixos, superatletas ou cientistas. Se se pode melhorar os seres humanos modificando-lhes os seus genes, porque não fazê-lo também por essas razões frívolas e não só se correrem o risco de desenvolver doenças incapacitantes ou letais? O debate vai ficando cada vez mais aceso.

CLONAGEM

Recorda-se da ovelha Dolly, clonada em 1997 a partir de uma célula da glândula mamária da mãe? Abriu caminho a pesquisas revolucionárias com células estaminais e à possibilidade de se vir a clonar pessoas, porém convém analisar bem o tema antes de deixar que a ciência se adiante ou o bana de uma vez por todas. Afinal, quando o primeiro bebé-proveta nasceu em 1978 também se falou em horror e escândalo.

EMBRIÕES SALVADORES

E que dizer daqueles casos em que crianças são concebidas para serem geneticamente compatíveis com irmãos que sofrem de uma doença grave, a exigir transfusões e transplantes de um dador (os chamados irmãos salvadores)? É ético ou antiético? Como se sentirá esse filho gerado para salvar outro? E quem poderá censurar os casais que o fazem? Fascinante e assustador, não?