Ginecologista: a primeira vez (ainda) não é fácil

Há uns anos, falar de sexo era tabu e ir ao ginecologista era para mulheres feitas. Ainda é assim? E o género do médico – homem ou mulher – importa? Dois especialistas e mulheres, de gerações diferentes, respondem. E alertam para a importância de fazer a primeira consulta na adolescência.

Texto DN Life | Fotografias Shutterstock

«Receio e vergonha» são as palavras que a ginecologista Maria do Céu Santo utiliza para descrever a primeira vez da generalidade das adolescentes numa consulta de ginecologia. «Mas há melhoras», esclarece.

Inês Abreu tem 23 anos e olha para o ginecologista «como para outro médico qualquer». Lembra-se de ter ido com a mãe à primeira consulta, mas pediu-lhe que não entrasse. «Estava cheia de vergonha. Tinha iniciado a minha vida sexual há pouco tempo e não queria que ela soubesse.»

«É normal as raparigas terem vergonha de falar à frente dos pais e exporem as suas dúvidas», diz Maria do Céu Santo.

A especialista em ginecologia, obstetrícia e medicina sexual diz que «é normal as raparigas terem vergonha de falar à frente dos pais e exporem as suas dúvidas», adiantando que «o desconforto se explica porque mexe com tudo o que é tabu e vida íntima das pessoas.»

Mas se hoje ainda pode levantar questões, há décadas era quase um bicho de sete cabeças como lembra Eva Pardal, 52 anos, ao contar a sua primeira vez. «Fui sozinha e não sabia para o que ia. Muito menos o que ia acontecer. Naquela altura, as mães não aceitavam que as filhas iniciassem a vida sexual fora do casamento. Principalmente a minha.»

Da mesma geração, Esmeralda Porto tem algum pudor em abordar o assunto e limita-se a contar que foi à consulta aos 23 anos, quando engravidou e depois nunca mais lá foi.

Entre os 13 e os 15 anos é a idade ideal para a primeira consulta de ginecologia. A especialidade não diz apenas respeito ao planeamento familiar ou à saúde reprodutiva.

Não é de estranhar, num país em que só há 40 anos começou a falar-se em planeamento familiar, com campanhas por todo o país, após a revolução de abril de 1974.

No entanto, é importante que as adolescentes, depois de terem a sua primeira menstruação, sejam vistas por um especialista. Entre os 13 e os 15 anos é a idade ideal para a primeira consulta. É claro que devem ir acompanhadas pelos pais (ou pela mãe) e devem colocar todas as dúvidas que tenham, inclusivamente em relação à própria consulta e à observação clínica a que serão sujeitas.

Para o ginecologista Pedro Sereno, «a sociedade encara hoje as questões relativas à sexualidade com maior abertura» e a primeira vez no ginecologista já não se faz tão tardiamente. Apesar de persistir algum pudor, como refere Maria do Céu Santo, este desfaz-se mais facilmente. «Os pais já se sentem mais à vontade em abordar o assunto e o acompanhamento escolar também ajuda», diz Pedro Sereno.

«Quando acabamos a consulta até costumo perguntar: “então continua a preferir uma mulher?”. A resposta é geralmente não. Continuam a vir às consultas.»

Quando o assunto é escolher entre um homem e uma mulher, não há consenso, mas todos reconhecem que é uma questão, que não se coloca noutras especialidades.

No caso das mais novas, o ginecologista Pedro Sereno diz que, «de um modo geral, na primeira consulta, as adolescentes pedem sempre que seja uma médica a atendê-las. Mas, mais tarde isso deixa de ser uma questão.»

Ao especialista isto não faz diferença. «Normalmente, quando acabamos a consulta até costumo perguntar: “então continua a preferir uma mulher?”. A resposta é não. Continuam a vir às consultas.»