Ginecomastia: “o sofrimento psicológico que causa a muitos rapazes não deve ser ignorado”

Pode acontecer à nascença, na puberdade ou na velhice, mas é na adolescência que assume contornos mais problemáticos. A ginecomastia, ou aumento do volume das mamas no homem, chega a afetar até cerca de 40 por cento dos rapazes. A boa notícia é que geralmente é benigna e transitória, regredindo naturalmente em dois a três anos. A má é que é motivo frequente de sofrimento psicológico, problemas de autoestima e evitação social numa idade chave do desenvolvimento. O que a causa, que consequências pode ter e que soluções existem foi o que nos levou à conversa com o cirurgião plástico João Martins.

Entrevista de Catarina Pires

O que é a ginecomastia?

É o crescimento do volume da mama do homem. Normalmente, é criada por um desequilíbrio entre os estrogénios, que são as hormonas femininas, e a testosterona ou os androgénios, que são as hormonas masculinas. Se tivermos os estrogénios mais elevados, os androgénios diminuídos ou a combinação das duas coisas, desenvolve-se mama no homem.

Por vezes, é incluída na definição de ginecomastia a pseudoginecomastia, que tem que ver com o aumento do tecido de gordura na mama. Há um aumento do volume da mama, mas não temos verdadeiramente glândula mamária.

A ginecomastia decorre sempre de um desequilíbrio hormonal?

Se não considerarmos a pseudoginecomastia, sim, mas que pode ser causada por algumas doenças ou determinado tipo de medicação. Temos a ginecomastia fisiológica, normal em períodos do crescimento, e temos a ginecomastia não fisiológica.

Quanto à fisiológica, podemos falar no recém-nascido, com influência ainda das hormonas da mãe, que é frequente e se resolve nas primeiras semanas, no máximo meses, de vida.

No começo da puberdade, quando há um novo estímulo e moldagem das hormonas, também pode desenvolver-se ginecomastia e normalmente resolve-se em dois, três anos, sem intervenção, até o corpo se equilibrar a nível de hormonas.

Em faixas etárias mais avançadas, entre os 60 e os 80 anos, também é normal acontecer pela diminuição da testosterona no idoso e aumento de tecido de gordura.

A ginecomastia fisiológica não é para mexer, a não ser que exista um grau pesado de insatisfação psicossocial.

Que doenças ou medicação podem estar na origem desta patologia?

Doenças que provoquem desequilíbrios hormonais – hipertiroidismo, doença renal ou hepática – podem causar ginecomastia.

Certa medicação para o coração ou para o estômago ou drogas recreativas, como a cannabis ou a heroína, também pode causá-la.

Como se faz o diagnóstico?

O exame físico é o mais importante e neste descarta-se logo uma série de coisas. Observação, palpação, história clínica e algumas perguntas essenciais – há quanto tempo tem, tem dor associada, está a tomar alguma medicação, histórico de patologias noutros órgãos, como a tiroide, o rim ou o fígado.

A palpação permite perceber facilmente se é uma pseudoginecomastia: não temos verdadeiramente glândula, é só gordura, é mole. Com o aumento da obesidade entre os adolescentes vê-se mais, até porque a gordura, além e aumentar o volume, acaba por ser responsável na conversão dos androgénios para os estrogénios.

Também podemos diferenciar a suspeita de um caso de neoplasia no homem, que existe – cerca de 1 por cento dos tumores de mama são masculinos. Na ginecomastia verdadeira, benigna, normalmente o nódulo de glândula surge no mamilo, vai crescendo para fora e surge dos dois lados. Se tivermos um nódulo fora do mamilo, doloroso, duro, e alguma retração da pele, esses sinais despertam-nos para uma possível neoplasia e a partir daí encaminhamos o doente para despiste da doença.

A ecografia da mama diz-nos logo se é gordura, se é glândula, se é uma lesão suspeita. O exame dos testículos também faz parte das análises de rotina neste caso.

A ginecomastia é fator de risco para o cancro da mama no homem?

Quanto mais tecido mama tem, maior probabilidade existe, ainda que baixa.

Que abordagens terapêuticas existem para tratar a ginecomastia?

Em primeiro lugar, temos que perceber se é fisiológica ou não. No adolescente, mesmo que se trate de fisiológica temos que perceber o impacto psicológico e social que causa. Não são raros os casos em que os jovens faltam a educação física, deixam de fazer desporto, recusam despir-se no balneário, na praia ou à frente de outras pessoas ou são vítimas de bullying psicológico. Nesse caso, pode fazer sentido corrigir o problema com cirurgia, mesmo considerando que a perspetiva de resolver-se por si próprio é de dois a três anos.

Se não for uma ginecomastia causada por medicação ou por doença ou se após tirarmos a medicação e tratarmos a doença continuarmos com a ginecomastia, a solução é cirúrgica. A nível de cirurgia, tudo o que seja tecido borrachóide mais glândula tem que ser removido, com incisão, como se fosse uma mastectomia muito pequena; se for mais tecido de gordura, com lipoaspiração conseguimos dar o contorno da mama.

Além da abordagem cirúrgica que outras terapêuticas podem ser utilizadas?

Corrigir todos os fatores provocativos da ginecomastia. A partir do momento em que todos os fatores estão corrigidos, aguardamos, se o volume se mantém, se a glândula se mantém, tem que ser retirada cirurgicamente.

Em adolescentes, a partir de que idade é que esta cirurgia é aconselhada?

A partir do momento em que cause sofrimento psicológico e problemas ao nível da vida social e os pais, no caso de se tratar de um menor, estejam de acordo com a cirurgia. Normalmente, coincide com a altura em que começam a ter mais consciência do corpo e a dar mais importância a isso, entre os 13 e os 15 anos.

Há quem defenda que só a partir dos 18 anos é que uma cirurgia deste tipo deve ser feita.

Eu discordo. Se tiver um jovem que está deprimido, evita os amigos porque gozam com ele, não faz desporto, não vai à praia ou à piscina, não veste uma t-shirt, só veste camisas largas – tudo isto são situações que já me apareceram – penso que temos que ajudar este jovem porque vamos manter cinco anos de sofrimento e mal-estar psicológico e social só porque não tem 18 anos.

Esta é uma cirurgia considerada estética, o que significa que a generalidade dos seguros não comparticipa e no Serviço Nacional de Saúde (SNS) será muito difícil fazer. Poucos terão acesso, portanto.

Não é bem assim. Eu trabalhei muito tempo no SNS e a ginecomastia pode ser corrigida nos hospitais públicos. Até porque se trata de uma anomalia, que tem um impacto na vida do jovem. Não é um tumor, não mata, mas não deixa de ser uma doença e como tal deve ser tratada no SNS. Claro que podemos questionar a prioridade da doença e há listas de espera de acordo com a gravidade das situações, mas é tratado no SNS. Eu fi-lo várias vezes.

Mas no privado esta é uma doença mais frequentemente encaminhada para cirurgia do que no público, não é?

Na minha prática, não. E, se for, não devia, porque independentemente de se é privado ou público, todos os doentes devem ser tratados segundo o mesmo esquema racional de abordagem a qualquer doença.

A meu ver, a razão ou o timing de avançar para cirurgia devem ser unicamente clínicos – vai depender do doente, do impacto que a doença tem nele e da gravidade da mesma, porque a ginecomastia não é toda igual, podemos ter um pequeno nódulo atrás do mamilo que mal se vê, apenas se sente e chateia, ou podemos ter uma mama com um volume que se compara com a mama de uma mulher. Tudo isto tem que ser considerado.

Se cai mais no quadro da pseudoginecomastia, facilmente vamos para cirurgia, se a dieta e uma mudança de estilo de vida não resolverem, porque é gordura, não é mama, e então sim é uma questão estética.

Nesse caso, mais difícil ainda de tratar num hospital público ou com recurso a seguro, que não cobre cirurgias estéticas. Mas dieta e ginásio não resolvem, quando se trata de gordura?

Quanto à cirurgia, não havendo componente de sofrimento psicológico associado, sim. Mas tudo depende do caso em que encaixa. Quanto à dieta e ao ginásio, a resposta fisiológica de cada corpo é diferente e também depende do tamanho da mama. Pode ser só gordura, mas se já tivermos um excesso de pele que cai abaixo do sulco mamário, pode fazer toda a dieta do mundo que a pele vai ter uma capacidade limitada de retração.

Que consequências é que um problema como a ginecomastia pode ter a nível de saúde física e mental em adolescentes, em que a aceitação do corpo é mais problemática?

Não havendo uma doença física por detrás da causa da ginecomastia, o maior impacto é psicológico e social: evitação social, desconforto com o corpo, autoestima baixa, com consequências para a vida social, escolar, afetiva e mais tarde profissional. Somos moldados nestas idades. Se formos vítimas de bullying, se não nos sentirmos bem connosco, levamos esta bagagem ao longo da vida.