Gostaria de apagar as más memórias? É possível

A palavra «recordar», do latim recordare, significa etimologicamente «voltar a passar pelo coração». É importante lembrar aqueles momentos determinantes da nossa vida em que fomos felizes, em que tudo à nossa volta parecia simples e bom ou até apenas normal, quotidiano. O problema acontece quando recordamos os momentos que nos causaram dor e daríamos tudo para esquecer. Pois, fique a saber que pode treinar o cérebro para isso.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de iStock

No filme Eternal Sunshine Of The Spotless Mind (2004), Clementine, a personagem de Kate Winslet, paga para esquecer toda a relação com o namorado. Na ficção, existe uma empresa que apaga memórias específicas, que são dolorosas. Seria fácil se acontecesse assim. Mas, por enquanto, temos de ser nós a treinar o cérebro para que este não caia em lembranças desagradáveis. E há mecanismos para o fazer.

DESCONTEXTUALIZAR A MEMÓRIA

Um estudo da Universidade de Dartmouth e Princeton indica que o contexto em que a experiência foi vivida desempenha um papel importante nas nossas memórias, tanto boas como más. Somos capazes, se quisermos, de eliminar uma memória de forma intencional se a relacionarmos com estímulos positivos em vez de negativos. Ou seja, olhar para um momento de outra forma pode mudar a ideia que temos do que foi vivido.

PENSAR ATÉ NÃO TER IMPORTÂNCIA

Quando o cérebro reativa uma memória, também desperta as emoções relacionadas com esta. Quanto mais negativo o momento, mais ansiedade vai criar, afirma Jesus Matos, psicólogo e especialista em gestão da tristeza. «Se pensarmos numa situação até à exaustão, o cérebro acabará por perceber que, neste caso, a ansiedade não serve para nada». Um estudo publicado na revista Nature afirma, inclusive, que vamos esquecer-nos. Por isso, recordar recorrentemente até os amigos já não conseguirem ouvir pode ser o caminho para interiorizar que aquele momento já passou, que não tem solução. E os amigos vão perceber e perdoar, afinal, amizade é para momentos como este.

FOCAR-SE NA APRENDIZAGEM

Parece um cliché mas não é. «Encontrar um nível superior de bem-estar em relação ao que tínhamos antes da situação negativa é uma prática usual na terapia do crescimento pós-traumático», afirma Jesus Matos. Pensar sobretudo no que aprendemos, nos recursos emocionais que possamos ter ganho é um bom antídoto para combater a negatividade das memórias. Mas claro que, como tudo na vida, é mais fácil falar do que praticar.

ESCREVER SOBRE O QUE ACONTECEU

Escrever sobre o que lhe aconteceu pode tornar-se terapêutico para superar momentos menos bons. Este processo de introspeção pode ajudá-lo a superar depressões ou estados de ansiedade. Não importa se escreve bem ou não. O que é importante é que pôr no papel (ou computador) a sua versão do que se passou pode ajudar a encontrar paz em relação ao fim do episódio. Independentemente do tempo que tenha passado ou do tipo de recordação, dedicar um momento a escrever sobre isso vai contribuir para que sinta que está resolvido e não há necessidade de voltar a pensar no assunto.