Gravidez: um estado de (des)graça

Estar grávida é a melhor coisa do mundo! Um estado de graça, como tanta gente diz!

Ou não.

Esta crónica destina-se a dar voz a tantas e tantas mulheres que adoram a ideia da maternidade, que anseiam pelo nascimento dos seus bebés… mas que detestam estar grávidas! Sim, existem muitas mulheres para quem a gravidez é, acima de tudo, um estado de desgraça.

Queixam-se de muitas coisas. Da barriga que cresce sem pedir licença, da azia, das náuseas e vómitos, do inchaço crescente, do incómodo elevado a n, de todos os constrangimentos que a gravidez acarreta. Porque são tantas as coisas que a gravidez não permite fazer…

A imagem que se altera todos os dias (e não é para melhor), a roupa que deixa de servir num ai, a sensação de que se é como um elefante, desajeitado, a tentar movimentar-se numa loja de cristais.

Tudo o que não se pode comer…

Tudo o que não se pode beber… ou fumar…

Tudo o que não se pode trabalhar…

O calor, o cansaço, a falta de posição para dormir, a cama que agora é mesmo apenas para dormir.

E a nível emocional… as dúvidas, o medo, a ambivalência. Porque os bebés não trazem manuais de instrução, é um facto. E cada gravidez é única. Não é porque já se têm mais filhos que a mulher tem, necessariamente, de estar tranquila e confiante.

Estas mulheres existem e, quando admitem publicamente aquilo que sentem, são simplesmente ostracizadas por quem as rodeia. Porque estar grávida tem de ser a melhor coisa do mundo. E assumir que se sente o contrário é visto como algo de muito errado e negativo. E são, seguramente, más mães. Porque as “boas mães” estão felizes e contentes a desfrutar deste estado passageiro, tão breve, enquanto bordam babetes, decoram os quartos e fazem barrigas de gesso e sessões fotográficas.

Não, estas mulheres não são, necessariamente, más mães.

São apenas mulheres que não sentem a gravidez como algo fantástico e maravilhoso. Que querem ser mães, sim, mas que, se pudessem, “saltavam” os 9 meses da gravidez ou, pelo menos, parte deles. Como dizia uma amiga minha, “se não fosse pelo brinde no fim…”

E estas mulheres têm o direito a sentir-se assim. Têm o direito a sentir que este estado não é de graça, têm o direito a verbaliza-lo sem medo e sem culpa e têm, ainda, o direito a não ser apedrejadas por admitir aquilo que pensam e sentem.

Têm o direito a não gostar de um estado que acarreta, efetivamente, muitas mudanças físicas e emocionais, com implicações a nível conjugal e social.

São 9 meses, é verdade, parece pouco. Mas apenas quem os vive na primeira pessoa sabe aquilo que sente.

Não tem a sociedade o direito de apontar o dedo acusatório da culpa. De ajuizar e fazer sermões. De definir a forma como devem as mulheres grávidas sentir-se.

A sociedade tem o dever de escutar e tentar compreender. Sem condenar à partida quem apenas admite aquilo que sente.

E haverá algo mais importante para um bebé do que ter, desde logo, uma mãe que é honesta e admite perante si e perante os outros aquilo que pensa e sente, mesmo quando isso implica a exposição das suas vulnerabilidades?

Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses.