Guia Completo de Tudo o Que Não Queriam que Acontecesse na Vossa Relação – mas vai acontecer

Talvez já exista. Talvez já alguém se tenha lembrado disso e, com tantos livros e artigos sobre relações e a tentativa de as gerir da melhor forma (coisa que nesta página raramente se lê, que isso de dar bitaites é para os outros), se calhar a obra já está publicada. Se não, aqui fica a ideia: uma lista de tudo o que é difícil de gerir num casamento. O guia completo dos momentos difíceis. O derradeiro compêndio sobre as fases desgastantes. Aquelas coisas mesmo complicadas que, ao fim de alguns anos, podem revelar-se fraturantes. Cada uma por si, isolada, pode ser vista apenas como um episódio menos conseguido. Mas todas juntas, ou repetidas ao longo de muito tempo, podem consumir anos de vida. Energia preciosa. E, arrumadinhas num livro, por ordem alfabética, são informação essencial para quem nunca viveu com outra pessoa. Não para se arrepender do passo que estará prestes a dar. Mas para lhe dar mais conhecimento teórico de algumas coisas que vai encontrar na prática. Cultura emocional nunca fez mal a ninguém.

Poderiam chamar-lhe Leiam Isto Antes de Casar. Com uma frase de assinatura debaixo do título: «Se ao fim de 15 anos de relação vocês não passaram por vários momentos destes, você são especiais. Ou então vivem em casas separadas.» Depois era só incluir a obra na lista de bibliografia obrigatória dos Cursos de Preparação para o Matrimónio. Nos casos (são cada vez mais) em que passam diretamente para a fase da vida a dois, seria um bom presente para os amigos oferecerem. Sobretudo os que já passaram por isso e lamentam que nunca ninguém os tivesse avisado.

O tema «discussões» talvez não merecesse capítulo autónomo, tal a frequência com que pode aparecer na vida a dois. Eventualmente, e para quem percebe de neurolinguística e linguagem corporal, é coisa que se pode tentar controlar, seja para acalmar alguém ou para levarmos a água ao nosso moinho. Senhor autor, guarde isso para o prefácio. Deixe lá o assunto, arrumado, para toda a gente saber que não se esqueceu de o abordar. Mas foque-se antes noutras coisas mais complicadas. Ou porque são mais comezinhas e corroem por dentro, lentamente, ou porque são mais difíceis de gerir, porque representam choques de feitios. Ou então porque obrigam os casais a testar os seus próprios limites. Físicos e psicológicos.

É o caso dos filhos, por exemplo. Esses merecem umas páginas valentes. Os horários e a gestão de tempo, também. E as contas. E as tarefas. E as férias. E o tempo de que cada um precisa para si. E a família do outro. E os amigos do outro de quem não gostamos. Ah, importantíssimo: o silêncio. Não esquecer de incluir o silêncio. Não o silêncio bom, confortável, sintoma de que já conseguimos estar com o outro sem precisar de ocupar o éter com sons que enchem de mais. Refiro-me ao outro silêncio. O que se instala devagar e nos cala quando até temos coisas para dizer, mas guardamos porque não dissemos nada no dia anterior. Nem no outro. Nem no outro. Em cada um destes itens, o autor poderia colocar pessoas reais, a falar na primeira pessoa, sobre as suas situações. Ou psicólogos a dar sugestões sobre a forma, não de evitar, mas de enfrentar estes momentos. E, claro, descrições tão detalhadas quanto possível sobre o que costuma acontecer nestas alturas. Os primeiros sinais. As dicas subtis. As coisas mais evidentes. Os sintomas mais declarados. Até à discussão final. Ou a deceção. Ou a tristeza. Seja o que for que se atravesse no caminho dos sentimentos de quem passa por estas coisas (passamos todos, não é?) ao fim de algum tempo de vida em comum.

[Publicado originalmente na edição de 13 de dezembro de 2015]