«Daqui a cinco anos, quando voltar a entrevistar-me, espero dar-lhe um frasco de medo e outro de felicidade»

O professor Gün Semin lidera o laboratório de psicologia do ISPA e vai coordenar o grupo de investigadores desta universidade que integram o projeto POTION.

POTION é o sugestivo nome do projeto de investigação internacional que o ISPA – Instituto Universitário integra e que recebeu 6,5 milhões de euros do programa Horizonte 2020, para estudar a capacidade do ser humano em transmitir as próprias emoções e influenciar o comportamento social através dos odores que o seu corpo liberta e, posteriormente, desenvolver tecnologia baseada no olfato que reproduza essa capacidade. Gün Semin, professor catedrático do ISPA e coordenador do laboratório de psicologia (Centro de Investigação William James) desta universidade, que estuda há anos o cheiro das emoções e lidera a equipa de Portugal, explica a importância de pôr o medo e a felicidade num frasco.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia Filipe Amorim/Global Imagens

Seis milhões e meio de euros para estudar o cheiro da felicidade e do medo. Por que é que isso é tão importante?

É preciso pensar no que um estudo destes envolve e no que pode significar. Estudos que conduzimos sobre a comunicação de emoções através dos odores corporais humanos – do suor e de sinais químicos que emitem –, permitem demonstrar que, quando exposto a sinais químicos constantes do odor de medo ou de felicidade, o ser humano poderá experimentar uma reprodução desse estado, noutro grau. Esta foi uma investigação que conduzi durante muito tempo, particularmente quando estava na Holanda, e que trouxe aqui para o ISPA. Os meus colegas italianos da universidade de Pisa (Itália) ficaram entusiasmados com os resultados e desafiaram-nos para este projeto, formando um consórcio internacional com dez parceiros de oito países.

E o que vai resultar daí?

Há dois objetivos principais nesta investigação: um é analisar a composição dos sinais químicos presentes no odor do suor humano, o que nunca foi feito ou se foi feito não sabemos. É o que estamos a fazer cá, a recolher suor sob diferentes estados emocionais e a mandá-lo para os nossos colegas em Pisa, o que é um processo muito complicado.

O que é que a equipa que coordena aqui no ISPA vai então fazer?

As emoções têm funções biológicas e o que estamos a pesquisar é como é que o odor afeta as pessoas. Para este projeto estamos a produzir amostras de suor de medo e de felicidade, de homens e mulheres, o que é muito complexo. Temos que garantir que as amostras não estão contaminadas, que os sujeitos da experiência não comeram alho ou cebola, não fizeram exercício físico nos dois dias anteriores à recolha, não sejam fumadores (o que em Portugal é difícil) e mantenham um diário do que fazem. Vêm durante três semanas, à mesma hora, no mesmo dia, e durante meia hora são expostos a filmes, de terror e comédia, que provoquem a emoção pretendida. Mas há uma série de variáveis a ter em conta e a controlar, por exemplo, no caso das mulheres temos que ter em consideração o ciclo menstrual.

«Queremos ver o efeito do odor em casos patológicos – se está deprimida e eu a exponho ao cheiro da felicidade, isso reduzirá a depressão?»

Disse que havia dois objetivos neste projeto, qual é o segundo?

O outro é encontrar forma de reproduzir sinteticamente essa composição química. Mas este é um projeto multidisciplinar: queremos ver o efeito do odor em casos patológicos – se está deprimida e eu a exponho ao cheiro da felicidade, isso reduzirá a depressão? E se quiser usar a mesma coisa numa escala maior e expor um grupo de pessoas ao cheiro da felicidade ou do medo, como poderá fazê-lo? Um dos grupos de investigadores está a estudar a solução para dispersar o cheiro numa sala como esta, por exemplo. Outro grupo, na Suécia, irá examinar os efeitos em doentes clínicos. Tudo isto levanta questões éticas e para isso temos um grupo de investigadores na universidade católica de Lovaina, na Bélgica a trabalhar essas questões.

Que questões são essas?

Se conseguirmos reproduzir sinteticamente os sinais químicos emitidos pelo cheiro de felicidade ou medo, os seus usos tanto podem ser benéficos como nocivos, daí a integração no projeto deste grupo de especialistas em lei e ética que está a acompanhá-lo e a desenvolver formas de controlar ou impedir usos pouco éticos das descobertas. Juntar todas estas pessoas, durante cinco anos, a trabalhar, custa mais de seis milhões. A grande questão é se será atingido o objetivo de produzir uma versão sintética do cheiro da felicidade e do medo que tenha o mesmo efeito que o natural. Esse é o grande desafio e é muito complexo.

«Se puser uma gargalhada gravada naquela cena terrível de A Escolha de Sofia ninguém vai rir-se. Ou seja, a eficácia do uso destes tipos de estimulação requer que a pessoa esteja recetiva, disponível e preparada para a receber»

E, se for atingido esse objetivo, que aplicações pode ter?

Se for possível encontrar a fórmula química que permita reproduzir sinteticamente os mesmos compostos químicos dos odores que emitimos, as aplicações podem ser muitas. Os psicólogos sabem há muito tempo que existe uma coisa que é o contágio emocional – ouvi-la rir provoca-me um estado de espírito positivo e, sabendo eu isso, posso manipular a situação de forma a conseguir esse efeito. Por exemplo, os programas de comédia do Mr Bean têm aquelas gargalhadas gravadas e isso leva quem vê a rir mais quando aparece a gargalhada. Já fiz a experiência nas minhas aulas – mostrar o filme com gargalhada e sem gargalhada e as pessoas acham mais piada quando há uma boa gargalhada por detrás do que quando não há. Portanto, acrescentar um determinado estímulo do estado emocional aumenta o efeito da experiência. É este o pano de fundo do projeto – se o odor da felicidade ou do medo induz uma certa dose de felicidade ou medo então isso pode ter efeitos benéficos numa série de aspetos e pode ter diversos usos. Mas há uma questão fundamental: viu o filme A Escolha de Sofia? Viu aquela cena terrível…

Sim, em que o soldado nazi a obriga a escolher entre o filho ou a filha.

Se eu puser uma gargalhada gravada aí, ninguém vai rir-se. Ou seja, a eficácia do uso destes tipos de estimulação requer antes de mais que a pessoa esteja recetiva, disponível e preparada para a receber. Teria, pois, aplicação em pessoas com depressão, por exemplo, ou com ansiedade e fobias. Mas também pode ter usos que não imaginamos agora. Por exemplo, em 2013, publicámos um trabalho sobre o medo e a repulsa e pouco tempo depois recebi a visita de uma empresa que produz equipamentos de ressonância magnética. Um dos problemas com este exame é o medo que algumas pessoas têm das máquinas, medo que, perceberam eles devido a esse estudo, pode ser potenciado pelo odor desta emoção deixado pelo utente anterior. Então, passaram a pôr ventiladores na máquina para quando o paciente saísse se livrarem do cheiro. Há efeitos que podem ir em direções que não esperava.

«O medo faz-nos processar muito mais informação, estar atento a mais detalhes, põe-nos alerta e isso é muito funcional», diz o professor Gün Semin.»

Cada emoção tem um odor?

A mais pesquisada é o medo, há muita investigação sobre esta emoção.

Porquê?

O medo é muito importante, é uma emoção adaptativa, e é um assunto que há muito tempo interessa à psicologia. Se reparar no que lhe acontece quando tem medo, percebe que fica num modo recetivo, os seus olhos abrem mais, a visão periférica aumenta, a sua respiração acelera, porque quer recolher o máximo de informação possível sobre o ambiente que a rodeia. Demos às pessoas odor a medo e pudemos demonstrar estas reações. A felicidade não tem sido tão analisada porque se pensa que não é muito importante, mas é, porque tem implicações muito benéficas na saúde física e psicológica.

«A felicidade também pode provocar problemas. Quando as pessoas ficam muito felizes, veem as coisas de uma forma mais geral, não olham para os pormenores. Isso é bom, mas pode ser perigoso»

Há pouco explicava que para ter o efeito pretendido, as pessoas têm que estar recetivas. Como é que alguém pode estar disponível para sentir medo? A felicidade percebe-se, o medo não tanto…

Alguma vez foi a uma manifestação em que tivesse existido tensão com a polícia? Isso pode ser assustador. É um estado que predispõe para o medo. Se der medo a cheirar, este aumenta. Mas aumenta o da polícia e o dos manifestantes e isso são más notícias.

Se descartarmos os maus usos, quais são as boas notícias de ter a fórmula química do medo reproduzida sinteticamente?

Basicamente, é o de controlar a emoção. Mas, como referi, temos um grupo de trabalho especializado em lei e ética. São eles que irão dizer quais são os perigos de ter o medo num frasco. Mas a felicidade também pode provocar problemas. Quando as pessoas ficam muito felizes, veem as coisas de uma forma mais geral, não olham para os pormenores, não os processam, só olham para a big picture. Isso é bom, mas pode ser perigoso. Em contraste, um estado de espírito receoso faz-nos processar muito mais informação, estar atento a mais detalhes, põe-nos alerta e isso é muito funcional. Uma das principais funções do medo é preparar-nos para identificar as fontes de perigo e agir – fugir ou lutar. Nesse sentido, o medo é muito funcional. Cada odor – seja o do medo ou o da felicidade –, se for usado numa situação sensível, pode ser muito funcional. O medo pode ser patológico e nesse caso é preciso terapia, mas em níveis normais é muito funcional.

Podemos esperar ter medo ou felicidade num frasco ou num sabonete?

É essa a ideia. Daqui a cinco anos, quando voltar a entrevistar-me, espero dar-lhe um frasco ou um sabonete de medo e de felicidade para os usar como achar melhor.

«Estou particularmente curioso sobre se os químicos vão conseguir fazer as análises e produzir uma versão sintética do odor do medo ou da felicidade. Estou cético.»

Que outras emoções gostaria de investigar?

Cada emoção tem uma composição bioquímica diferente, têm assinaturas diferentes. A assinatura da felicidade resulta em processos psicológicos e comportamentais específicos que são diferentes do medo e da repulsa. O que tem sido estudado são as emoções básicas: felicidade, medo, raiva, surpresa, tristeza, repulsa. Seria interessante estudar emoções como a vergonha ou a culpa, mas estas são emoções sociais, só as experimentamos por relação ao outro. São muito funcionais, porque permitem à pessoa controlar-se, quando faz algo errado, experimenta um sentimento negativo, o que foi uma bela invenção, mas não sei se há odores diferentes para estas emoções. Neste caso, as questões éticas seriam ainda mais complexas – fazer alguém sentir-se culpado… é uma coisa muito subjetiva e individual.

O odor é um dos sentidos que mais ativa a memória. Este estudo poderá trazer descobertas úteis para doenças como a de Alzheimer ou outras demências?

Sei que há colegas a tentar investigar isso, mas não tenho o conhecimento suficientes sobre esses estudos para lhe responder a isso. Isso de que fala é aquilo a que chamamos efeito de Proust, mas a investigação concreta que estamos a fazer não tem aplicação aí.

Quais são as suas expectativas quanto ao POTION?

É um grupo grande, de cerca de cinquenta pessoas, que reúne regularmente. O que é interessante no projeto é que tem pessoas de diferentes especialidades, é multidisciplinar. Há engenheiros, médicos, psicólogos, juristas e eticistas, químicos, técnicos e todos falamos línguas diferentes. É um projeto de alto risco, alto ganho. Alto risco porque não temos garantias de que os resultados vão satisfazer as expectativas, mas se não tentarmos não descobriremos. Se os objetivos forem atingidos, será revolucionário. Estou particularmente curioso sobre se os químicos vão conseguir fazer as análises e produzir uma versão sintética do odor do medo ou da felicidade. Estou cético, mas espero que consigam. Esqueça as implicações éticas, que são a fragilidade do cientista – conseguir a fusão nuclear é fascinante, embora Hiroshima e Nagasaki tenham sofrido as consequências trágicas de uma má utilização desta descoberta científica, existirá sempre essa tensão. Estou mesmo muito curioso para ver se é possível reproduzir estes compostos químicos. Temos cinco anos pela frente.