Hiperactividade ou falta de regras?

“O meu filho é hiperactivo” é uma frase que, de tanto ser ouvida, tornou-se quase banal. Também muitos professores afirmam que os seus alunos são hiperactivos e sugerem aos pais uma avaliação médica e psicológica da criança, que traga o tão desejado medicamento.

E se é um facto que muitas destas crianças reúnem critérios de uma perturbação de hiperactividade, muitas outras não reúnem. Então, porque entende a família e a escola que aquela criança é hiperactiva?

Quando questionados, dizem que a criança não para quieta, é muito faladora, remexida e distraída. Ainda, que é uma criança que não acata as regras e que responde torto ao adulto, desafiando-o. Que tem uma “personalidade muito vincada” (seja lá o que isso for) e que “ela é que sabe”. E que a criança não pode ser contrariada, sob pena de armar confusão, gritar e fazer birras.

Ora, muitas vezes estamos perante uma criança, não hiperactiva (porque essas, sim, precisam de uma avaliação e intervenção neuropsicológica, por vezes complementada com medicação), mas sim uma criança que está a ser educada sem regras.

Muitos pais consideram que um padrão permissivo, caracterizado por baixo controlo e dificuldade em definir regras e limites claros e consistentes, é a melhor forma de ajudar a criança a crescer de forma saudável. Acreditam que ouvir um “não” pode traumatizar a criança e que, por esse motivo, todas as suas vontades e caprichos têm de ser atendidos. Estes pais apresentam-se à criança, mais como um recurso para que esta possa satisfazer os seus desejos, do que um modelo.

As crianças cujos pais aliam a sensibilidade e o afecto ao controlo adequado são mais assertivas e auto-confiantes, apresentam melhor auto-estima e mais competências sociais e de resolução de problemas.

Contrariamente ao que possa pensar-se, educar uma criança desta forma não é positivo. Crianças que crescem num ambiente afectuoso, mas sem limites que as balizem e orientem, tendem a apresentar maior imaturidade. Observa-se ainda maior agressividade e impulsividade, aliada a baixa auto-confiança e dificuldades de auto-controlo.

As crianças precisam de afecto, naturalmente, mas que seja acompanhado de limites. Porque é este controlo firme e consistente que permite um desenvolvimento mais seguro, autónomo e competente. As crianças cujos pais aliam a sensibilidade e o afecto ao controlo adequado são mais assertivas e auto-confiantes, apresentam melhor auto-estima e mais competências sociais e de resolução de problemas.

Por isso, quando pensar que o seu filho pode ser hiperactivo, e antes de correr para uma avaliação médica e psicológica, pense: estarei eu a conseguir exercer uma parentalidade sensível e responsiva, centrada nos afectos e no controlo?