Sou homem e sou vítima de violência *

«Tenho vergonha em falar disto, em contar a minha história… por isso escrevo, sempre é mais fácil do que falar… sou homem, tenho quase dois metros de altura, uma profissão respeitável e todos esperam de mim que seja, no mínimo, assertivo. Ou então que seja bruto e violento. Agressivo. São esses os olhos com que os outros me olham.

Na verdade, sou vítima de violência por parte da minha mulher desde há muitos anos. Primeiro era uma violência mais escondida, chamar-me nomes, humilhar-me a vários níveis, arrasar-me. Apenas quando estávamos os dois, depois também na presença de outras pessoas. Tentei sempre não dar o troco, ignorar, para não alimentar aquela violência. Dar um desconto, pensar que ela o fazia sem pensar, movida pela raiva e pelos ciúmes. Ciúmes doentios. E quem sente ciúmes ama…

Depois começaram os empurrões, as estaladas, puxar os cabelos, arranhar a pele, rasgar a camisa. Chegou a rasgar-me uma farda do trabalho. Cega de fúria e ciúmes, esses malditos ciúmes. Controla todos os passos que dou.

Há anos que assim é. Cada vez com mais frequência, a sós ou na presença das nossas filhas, que não sabem o que dizer ou fazer. Tento acalmá-la, segurar-lhe os braços, evitar as dentadas, contê-la. Confesso que me magoam mais as palavras que ouço do que as chapadas que levo.

Desabafei apenas com um colega e amigo, uma única vez. Olhou-me incrédulo, de olhos esbugalhados, boquiaberto. Não queria crer que o seu amigo, homem-de-quase-dois-metros-de-altura era vítima de violência. E por parte de uma mulher?

Senti uma vergonha sem fim. Queria enfiar-me num buraco e esconder-me, de tanta vergonha.

“Porque é que nunca lhe bateste também?”

“Faz queixa dela na polícia!”

Não bati e não bato, porque não será com violência que se combate violência.

Não fiz queixa por vergonha, é certo, mas também por pena dela e por medo do que possa acontecer. Apesar de tudo, gosto dela, é a mãe das minhas filhas, a mulher que eu escolhi para viver.
Não quero que as minhas filhas cresçam sem a mãe.

Admito que não quero eu também viver sem ela. Pode ser que mude.»

* Testemunho fictício baseado em relatos reais.

A violência das relações de intimidade é mais prevalente sobre as mulheres, é verdade. No entanto, os dados nacionais (que acompanham os dados internacionais) demonstram um número crescente de homens que são também vítimas desta forma de violência.

As estatísticas criminais indicam que 1 em cada 4 vítimas de violência nas relações de intimidade é do sexo masculino. Dados que podem corresponder à ponta de um iceberg.

No entanto, a percentagem de homens que revela e pede ajuda é ainda muito baixa. Muitos destes não o fazem, simplesmente, porque nem sequer se percepcionam como vítimas, desvalorizando ou mesmo normalizando os comportamentos agressivos.

Outros há que são inibidos pela vergonha e pelo medo. Os homens sentem-se (e são, de facto) desacreditados e humilhados, não apenas por familiares e amigos, mas também por parte das entidades que os deveriam proteger e encaminhar.

Estes homens entendem o sistema formal de ajuda como pouco eficaz, na medida em que continua a estar centrado, acima de tudo, nas vítimas do sexo feminino. Acabam por sentir-se revitimizados após pedirem ajuda.

Temos em Portugal um caminho percorrido, é certo. Mas um outro caminho, ainda longo, a percorrer. Um caminho que implica mudar a forma como se aborda este tema. Seja a nível de campanhas de sensibilização da comunidade, numa perspectiva de prevenção primária, seja a nível da formação dos vários intervenientes do sistema profissional. Precisamos de respostas específicas e adequadas que salvaguardem a protecção e integridade destas vítimas. Que sentem e sofrem da mesma forma. Porque o que se sente não depende do sexo.

Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Siga-nos no Facebook e fique a par de todas as crónicas de Rute Agulhas (leia aqui um perfil da psicóloga).