Homens e mulheres: descubra as diferenças (sim, há algumas)

homens de Marte, mulheres de Vénus sexos

Crescemos a ouvir dizer que somos todos iguais, mas não somos. Tal como não somos melhores nem piores do que ninguém, razão por que as diferenças de género não servem de desculpa para discriminar com base em preconceitos. Sexo forte (ou fraco) é coisa que não existe. Apenas pessoas mais ou menos esclarecidas.

Texto de Ana Pago

A princípio, Filipe Simão e Sofia Domingues pensaram que com empenho redobrado talvez pudessem tornar-se mais iguais, mas não foi o caso. O informático continuou introvertido, desarrumado, fechado na concha. A consultora de comunicação organizada, conversadora, emotiva. Os meses passavam e eles apaixonavam-se cada vez mais um pelo outro (para não dizer melhor), contudo Sofia melindrava-se com aquela mania de ele se retrair em vez de falar, ao passo que Filipe descobria que com ela ajudava sempre, especialmente se a abraçasse. Ao fim de onze anos de namoro, supõem que alguma coisa devem estar a fazer bem porque são felizes. Já nem a incomoda por aí além que Filipe nunca, mas mesmo nunca, se lembre das datas importantes.

“Estamos a entrar numa era em que tanto homens como mulheres começam a compreender as suas singulares biologias e como essas diferenças afetam as suas vidas”, observa a neuropsiquiatra Louann Brizendine, autora dos best-sellers O Cérebro Feminino e O Cérebro Masculino (Alêtheia Editores). A investigadora americana garante que certas funções e áreas cerebrais funcionam de modo diferente, tendo evoluído ao longo do tempo para produzir versões mais bem-sucedidas de homens e mulheres. Se soubermos que os nossos impulsos estão a ser guiados por um estado cerebral biológico, diz, podemos decidir o que fazer e não apenas seguir as pulsões.

Fingir que homens e mulheres são iguais não só presta um mau serviço a ambos os sexos como é injusto.

“Há o receio enraizado da discriminação baseada na diferença e, durante muitos anos, a assunção da diferença entre os sexos não foi cientificamente examinada com medo de que as mulheres pudessem perder a luta da igualdade em relação aos homens”, justifica a especialista, para quem um cérebro unissexo é coisa que não existe à luz da realidade biológica. Fingir que homens e mulheres são iguais não só presta um mau serviço a ambos os sexos como é particularmente injusto para as mulheres: “A perpetuação do mito da norma masculina menospreza as diferentes maneiras como se processam os pensamentos e, consequentemente, a perceção da realidade.” Além de desvalorizar os poderes e talentos peculiares do cérebro feminino, lamenta Brizendine.

Como casal, Filipe e Sofia dizem ser compatíveis, embora às vezes tenham vontade de chorar se os ânimos se exaltam (ou melhor, ela chora; ele fica em silêncio à espera que passe). Foi-lhes difícil habituarem-se ao outro quando se juntaram há sete anos, apesar de ficarem com a vida bastante facilitada em casa: o que ele percebe de montar móveis, ela compensa a desbloquear situações e a ler pessoas. Entretanto, aprenderam a não alimentar expectativas irreais e a respeitar os processos internos do parceiro, cientes de que a sociedade também desempenha o seu papel na arquitetura do cérebro ao exigir que homens e mulheres se comportem de modo “adequado” ao seu género.

Sofia e Filipe tornaram-se hábeis a respeitar os processos internos um do outro.

“Não sou romântico. Nunca lhe disse que a amo com medo de vulgarizar a palavra”, confessa o informático, envergonhado. “Deve ser coisa que me dirá no leito de morte, no máximo. Já lhe perguntei e ele respondeu que sim, mas mais importante é eu sentir-me amada”, desdramatiza a namorada. Pelo contrário, irrita-a que ele deixe as tralhas espalhadas e lhe responda sem ouvir nada das conversas, como se falasse para o boneco, enquanto Filipe detesta vê-la chorar e esticar os lençóis ao milímetro. Curiosamente, acha fofo ela falhar como copiloto: “Uma vez estávamos a ir para Beja na carrinha, a Sofia pegou no mapa e deu-me as indicações. Após 20 quilómetros vi que a estrada era aquela, mas íamos na direção errada”, ri-se.

Tudo porque embora haja uma partilha de cerca de 99% do código genético, as diferenças no cérebro de homens e mulheres são evidentes, tanto a nível estrutural como funcional, explica Catarina Resende Oliveira, médica e investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra: “O cérebro masculino é maior, ao passo que o feminino tem uma densidade celular superior (igual número de células numa caixa craniana menor)”, revela. O córtex cingulado anterior, importante na tomada de decisões, é maior na mulher, da mesma forma que o córtex pré-frontal – com a função de travão na atividade da amígdala, o núcleo cerebral responsável pela agressividade – é mais desenvolvido no homem. “Também o hipocampo, relacionado com a memória, é maior e mais ativo na mulher”, diz.

Ainda de acordo com a especialista em neurologia, até às oito semanas o cérebro do feto tem características femininas, com os genes e os níveis de hormonas sexuais a determinarem como se vão estabelecer e desenvolver os circuitos neuronais: “A subida da testosterona nessa idade do desenvolvimento do feto masculino altera o número de sinapses, o tipo de circuitos cerebrais que se vão formar e a maneira de as células neuronais comunicarem entre si, o que é decisivo para as diferenças de comportamento que mais tarde caracterizam os dois género.” Já no cérebro feminino os estrogénios promovem o desenvolvimento dos circuitos cerebrais relacionados com a interpretação, o reconhecimento das expressões faciais e a empatia. “Simultaneamente, o cérebro masculino é moldado para uma maior capacidade de raciocínio matemático”, adianta.

Sendo que equações são bem mais fáceis de entender do que as pessoas.

“Considerando tudo o que sabemos sobre biologia, património genético e estereótipos que a sociedade foi concebendo, é possível falar de formas de reagir mais femininas ou masculinas sem, no entanto, ficarmos restritos a um padrão de desempenho”, acautela a neuropediatra Sofia Duarte. O facto de podermos dizer que existem características mais típicas deles – sabem orientar-se, consertar coisas, têm medo de dar – e delas – são multitasking, boas ouvintes, receiam receber –, não significa que devam ser entendidas como exclusivas de homens ou mulheres.

Ainda assim, esta perceção não invalida que se multipliquem os livros mais ou menos sarcásticos, mais ou menos científicos, baseados nas diferenças comportamentais entre sexos: Porque é que os Homens Mentem e as Mulheres Choram, de Allan e Barbara Pease (ed. Bizâncio); Porque é que os Homens Nunca Ouvem Nada e as Mulheres Não Sabem Ler Mapas de Estrada (dos mesmos autores e mesma editora); Porque é Que os Homens Querem Sexo e as Mulheres Precisam de Amor (idem, aspas); Nem as Mulheres São Tão Complicadas Nem os Homens Tão Simples, de María Jesús Reyes (A Esfera dos Livros); Não Nos Estamos a Entender, de Deborah Tannen (ed. Estrela Polar); Porque é que os Homens Nunca se Lembram e as Mulheres Nunca se Esquecem, de Marianne J. Legato (ed. Caderno); Quanto Mais Conheço os Homens, Mais Gosto do Meu Gato, de Daisy Hay (só podia ser uma mulher).

Compreender as diferenças no casal ajuda a sanar muita da frustração decorrente de se alimentar falsas expectativas (e de lutar para mudá-las).

“Todos os princípios contidos neste livro foram testados: pelo menos 90% dos mais de 25 mil indivíduos questionados reconheceram-se entusiasticamente nas descrições”, garante o psicossexólogo e terapeuta familiar John Gray, que em 1992 escreveu o best-seller Os Homens São de Marte, As Mulheres de Vénus para melhorar a vida dos casais. “Percebendo como homens e mulheres são completamente distintos, é possível aprender novas formas de tratar, ouvir e apoiar o sexo oposto”, oferece o especialista em relacionamentos norte-americano.

Há alturas em que gostar do outro não chega, sobretudo quando o casal parece não falar a mesma língua: homens e mulheres pensam, sentem, percebem, reagem, respondem, amam, precisam e apreciam distintamente, pelo que compreendê-lo ajuda a sanar muita da frustração decorrente de se alimentar falsas expectativas (e de lutar para mudá-las). “Regra geral, nenhum está consciente de que têm necessidades emocionais diferentes, pelo que não sabem como apoiar-se”, resume John Gray. Admitem erradamente que o parceiro tem os mesmos desejos, então acabam os dois ressentidos.

Uma certeza refutada por Cordelia Fine, psicóloga e investigadora em cognição social na Universidade de Melbourne, Austrália, a quem sempre fez muita confusão a ideia de que as psicologias masculina e feminina são diferentes por inerência, em vez de criadas pela sociedade e por neurossexismos vários. Daí ter escrito Homens Não São de Marte, Mulheres Não São de Vénus (ed. Cultrix, 2012) para desmascarar o que considera ser um mito pseudocientífico das diferenças estruturais entre o cérebro de homens e mulheres.

Existe uma componente genética e uma componente ambiental na génese do funcionamento cerebral, logo na origem de pensamentos, comportamentos, padrões fisiológicos, suscetibilidade a doenças e outras funções.

“Não há dúvida de que o eu feminino e o eu masculino podem ser tão úteis como qualquer outra identidade social nas circunstâncias adequadas. Contudo, útil e flexível não é o mesmo que estruturalmente constituído”, reforça Pine, defensora de um determinismo social extremo que faz muitos cientistas criticarem-na por negar o papel da biologia na origem de diferenças de sexo na mente e no cérebro (a par dos tais fatores sociais que defende), quando estudos provam o oposto. Lá por ela mostrar que a manipulação de variáveis sociais muda o comportamento – um ponto notável do seu trabalho –, não significa que sejam essas variáveis a causar as diferenças espontâneas originais.

“Existe uma componente genética e uma componente ambiental na génese do funcionamento cerebral e, por consequência, na origem de pensamentos, comportamentos, padrões fisiológicos, suscetibilidade a doenças e outras funções”, sublinha a neuropediatra Sofia Duarte. Em certas sociedades matrilineares, por exemplo, as mulheres são mais competitivas do que na nossa sociedade, em que homens estão mais presos a cargos de poder do que elas. “A determinação genética do sexo é apenas uma variável na complexidade imensa do ser humano”, sustenta a investigadora, atenta às pesquisas que indicam que a envolvente influencia os padrões de resposta femininos ou masculinos tanto quanto a biologia, pelo que seria muito difícil separá-las.

E quanto aos símbolos que hoje estão por toda a parte? Qual a origem?

Na astronomia representam os planetas Marte e Vénus. Na mitologia, os deuses Marte e Vénus, assim batizados em homenagem aos planetas que os antigos viam no céu. Em biologia (e nas casas de banho públicas por razões óbvias), os sexos masculino e feminino. Os gregos ligavam ainda cada corpo celeste e cada deus a um metal específico – o ferro para Marte, cobre para Vénus –, o que os levou a servirem-se de símbolos que abreviavam a nomenclatura dos metais, aproximando-os destes signos.

Apesar do contexto propício, só na Idade Média os alquimistas criaram o escudo de Marte (♂) e o espelho de Vénus (♀) como hoje os conhecemos, ao retomarem os estudos dos gregos que ligavam planetas, deuses e metais. Depois disso caíram no esquecimento até 1751, altura em que o médico e botânico sueco Carl von Linné, considerado o pai da taxonomia moderna, fez finalmente esta associação ao publicar uma dissertação sobre plantas híbridas (Plantae hybridae), em que usou os símbolos de Marte, Vénus e Mercúrio (☿) para designar o masculino, feminino e hermafrodita, algo que lhe poupou bastante tempo e espaço no papel.

Apenas não impediu que as diferenças entre sexos continuem a ser tema de discórdia e a alimentar mitos e descobertas (alguns deles contraditórios). Uma pesquisa divulgada em 2017 pela Universidade de Edimburgo, Escócia, apurou que o cérebro dos homens é maior que o das mulheres, apesar de o feminino ter sub-regiões do córtex maiores associadas à memória, sentidos, aprendizagem e tomada de decisões. Serem os próprios investigadores a ressalvar que as diferenças não se traduzem forçosamente em diferenças de comportamento substanciais diz-nos que a heterogeneidade é inerente às pessoas, não pode reduzir-se a sexos. Que importa se o que para eles é verde possa ser verde-alface, lima, ervilha, azeitona, menta, tropa, esmeralda ou jade para elas?