Igualdade de género? Isso é uma fantasia de Natal, certo?

– Mas porque é que tenho de ser eu?
– Estás a gozar comigo, não estás?
– Não, não estou. Sabes como ando a mil à hora no es­critório. Não podes ser tu a tratar disso?
– Posso. Poder posso. Mas não quero. Por que é que não hás de ser tu? Sou sempre eu. Sempre fui eu. Este ano, para variar, podes ser tu. Aliás, vais ser mesmo tu. Eu não trato disso.
– Mas se és sempre tu, por que é que este ano é diferente?
– Olha lá, tu queres que eu te mande a um sítio ou es­tás só a meter-te comigo? Estamos casados há 17 anos, antes disso namorámos quatro. E tu nunca, mas nun­ca, trataste dos presentes de Natal. Este ano, por essa razão, trata tu.
– Mas qual razão? Estás a falar de quê?
– Estou a falar de estar cansada de ser sempre eu a pen­sar nisto tudo. Fazer a lista a tempo. Andar a correr que nem uma louca à procura das coisas. Depois, pen­sar nas alternativas quando não há o que queremos ou é muito caro. E às vezes ainda tenho de levar contigo a torcer o nariz porque não gostas disto ou daquilo. Pois olha, este ano não vai ser assim. Este ano fazes tu a lis­ta e fazes tu as compras.
– Ok, já percebi. Estás farta. Eu entendo isso. E pro­meto que ajudo mais. Mas tem paciência. Tens de dar o grito do Ipiranga dos presentes de Natal, logo este ano? Com tantas coisas que tenho em mãos na empre­sa, com tantas preocupações na cabeça, ainda tenho de pensar na lista de presentes este ano? Tem paciência.
– Olha, meu caro… Meu querido marido mimado e pro­tegido e com a papa feita e o jantar quente à tua espera e os filhos de banho tomado quando chegas a casa e mais o acompanhamento dos trabalhos de casa feito porque tu vens muito cansado e mais as mil e uma coisas que eu tenho de fazer porque tu andas sempre demasiado atarefado na tua vida importante e séria para poderes descer à terra para ao menos te lembrares da festa de Natal da tua filha… Tu não me dizes para eu ter paciên­cia. Tu dizes muitas asneiras, muito disparate sai des­sa boca para fora. Mas no momento em que eu te peço, pela primeira vez em vinte anos, para fazeres alguma coisa no Natal, tu não me pedes para eu ter paciência. Estamos entendidos?
– Estás a gritar. Fala baixo.
– Não. Eu não estou a gritar. Eu ainda não estou a gritar. Porque quando eu começar a gritar tu vais ouvir-me. Ouves tu, ouve a vizinha, ouvem os filhos, ouve o teu chefe que te dá trabalho e tu aceitas, ouvem os teus co­legas para quem és capaz de arranjar tempo e ir jogar à bola uma vez por semana. E ouve também o teu paizi­nho e a tua mãezinha, que gostam muito do filho ape­sar de ser a nora quem lhes compra os presentes, por­que o senhor meu marido é muito atarefado. Acredita em mim: eu ainda não estou a gritar.
– Está bem. Tem calma.
– Não! Resposta errada. Também não me dizes para ter calma. Calma ando eu há muito tempo. Sabes porquê? Porque não me posso enervar. Porque tenho de com­prar os presentes de Natal, as coisas do supermercado, a roupa dos miúdos, dar jantar aos teus filhos e ainda manter uma profissão. É que eu também tenho relató­rios para entregar e chefes para aturar, sabes? E tam­bém tenho dias maus em que chego a casa e não me apetece fazer coisas nem tratar dos filhos.
– Está bem, vou fazer a lista. Ajudas-me com isso? Para não me esquecer de ninguém?
Não. Não ajudo. Faz tu. Mas dou-te uma pista: acres­centa aí as luzes de Natal novas. Amanhã é dia de fazer a árvore. E és tu que vais fazer isso.

[Publicado originalmente na edição de 30 de novembro de 2014]