Imaginação, justiça, coragem: o que as crianças aprendem com os super-heróis

Salvam o mundo dos vilões, protegem os mais fracos, conseguem o impossível. Para as crianças, os super-heróis são uma fonte de inspiração e de referências. Têm lições poderosas para ensinar, mas é essencial que haja supervisão, dizem os especialistas.

Texto Joana Capucho | Fotografia Maria João Gala

Quando lhe perguntamos qual o seu super-herói favorito, Joshua, de 6 anos, não hesita: “Todos. Mas só os que são bons”. Acaba por reconhecer que tem alguns preferidos, embora as figuras em cima da cama já não deixassem margem para dúvidas: Homem-Aranha, Hulk e Batman. Divide-se entre o universo da Marvel e da DC Comics. No entanto, se pudesse escolher, gostava de ser o Homem-Aranha, até porque também adora aranhas. “Mas o vermelho, porque o que veste o fato preto é mau”.

Para a mãe, Nathalie Borralho, o fascínio de Joshua pelo mundo fantástico é “uma faca de dois gumes”. Por um lado, explica, os super-heróis são “personagens boas, justas e que salvam as pessoas”. Contudo, “fazem coisas que não são reais”, e também “representam uma certa violência”. Neste altura, conta, começam a surgir as dúvidas: “Pergunta-me se eles existem e se pode ser um super-herói quando crescer”. Não sabe se a Marvel tem alguma responsabilidade no assunto, mas, garante, “o Joshua tem uma imaginação que transborda”.

De acordo com os especialistas, o universo da fantasia e da ficção desperta a imaginação das crianças. “Os super-heróis podem estimular a criatividade e imaginação ao exporem a criança a situações, problemas, ambientes e personagens diferentes”, diz ao DN Filipe Glória e Silva, pediatra do neurodesenvolvimento do Hospital CUF Descobertas. Este estímulo, prossegue, “será muito mais rico se a criança tiver oportunidade de fazer as suas próprias criações, seja pelo desenho, seja pelo brincar ao faz de conta – o jogo simbólico”.

Como é que se explica o fascínio por estas personagens? “Penso que as crianças são atraídas pela fantasia, a força, o poder e coragem dos super-heróis, que enfrentam e vencem todos os perigos e vilões”, explica o pediatra. Em entrevista ao ABC, o neuropediatra Manuel Antonio Fernández disse, recentemente, que, ao entrar no mundo da fantasia, as crianças “pensam em objetivos inalcançáveis”, que se podem superar a eles próprios. “De facto, os super-heróis têm essa capacidade de nos fazer imaginar capacidades e feitos fantásticos onde o único limite é a imaginação”, confere Filipe Glória e Silva.

Quando são um bom exemplo, o pediatra diz que podem ser “modelos de valores e de ética, encorajando a criança a desenvolver as mesmas características de empatia, respeito, coragem, diligência e proteção das pessoas mais frágeis, por exemplo”. Uma opinião partilhada pelo psicólogo clínico Luís Gonçalves: “Podem funcionar como fonte de referências. À medida que crescem, as crianças vão procurando modelos de comportamento, relação. E começam a encontrar nos super-heróis referências com as quais se identificam e, de alguma maneira, acabam por assimilar vários comportamentos para eles próprios”.

Além disso, o diretor clínico da Psinove considera que são “uma fonte de resiliência”. “Alguns passam por situações complicadas e conseguem superá-las, o que pode ser inspirador para a criança, que percebe que também pode superar as dificuldades”, refere Luís Gonçalves, destacando que podem ser importantes quando existem problemas de autoestima, de aproveitamento escolar ou na prática desportiva.

Se a criança tem medo, dê-lhe a capa de super-herói

Carlota, de 4 anos, não é fã de nenhum super-herói em particular. “Mas sabe que eles têm poderes especiais, que ajudam toda a gente e conseguem tudo”, conta a mãe, Sofia Salgado Mota, autora do blogue Pedaços de Nós. Por isso, sempre que surge algum medo, Carlota usa uma capa de super-herói às costas (uma camisola ou um pedaço de tecido), que faz com que seja capaz de enfrentá-lo. Quando diz que não quer ir ao quarto buscar um brinquedo porque está escuro, por exemplo, é essa a estratégia usada pela mãe.

Sofia Mota, educadora de infância, costuma sugerir aos pais a mesma técnica. “É uma maneira de ajudar os miúdos a lidar com o medo. E resulta”, garante. Em contexto de trabalho, o mundo fantástico está muito presente, mas nem sempre as brincadeiras acabam da melhor forma. “Quando se lembram de brincar aos super-heróis acaba alguém a chorar, porque são situações onde há sempre luta. A agressividade é normal, mas em contexto de aula é mais complicado gerir isso”, conta.

Existem várias áreas nas quais os super-heróis podem ter uma influência positiva. “O Hulk ajudou-me a introduzir o caldo verde e aquilo a que chamamos a sopa verde”, recorda Nathalie. No entanto, lembra, houve alguém na família que partiu um braço quando saltou do sofá a pensar que era o Super-Homem.

Os acidentes podem acontecer, é certo, mas, de uma maneira geral, os super-heróis dão bons ensinamentos às crianças, dizem os especialistas. “Têm papel muito pedagógico, porque surgem em alturas muito sensíveis para criar noções de bom e mau, certo e errado, verdadeiro e falso”, destaca Luís Gonçalves. Também levam a um “salto de crescimento” quando “a criança percebe que eles também têm problemas, ou que são criações”.

Quando se tornam uma obsessão

Um dos problemas que pode surgir, destaca o psicólogo, é a criança criar uma relação demasiado próxima com a personagem. “A certa altura, pode ficar muito fixada naquele herói e, quando se apercebe que ele desaparece ou é pouco real, há um vazio tremendo. Aí, quando a fonte se dissolve, podem passar um mau bocado e sofrer bastante”, alerta Luís Gonçalves, apelando ao controlo parental e à necessidade de existirem diferentes tipos de brincadeiras.

Outra fonte de preocupação é quando o herói potencia comportamentos agressivos. Destacando que nos últimos anos tem havido “menor preocupação com o conteúdo educativo e formativo dos desenhos animados e séries para crianças em geral”, Filipe Glória e Silva afirma que, “se o herói em destaque se torna apetecível com maus exemplos de conduta (abuso, desrespeito, mentira, insolência, violência, ausência de reflexão), então torna-se um mau modelo e pode ser uma influência negativa na crianças”. Por isso, reforça, “é importante que os pais acompanhem os conteúdos a que os filhos assistem e que falem sobre o seu significado”.

Embora possam ser modelos com quem as crianças podem aprender, os heróis não podem ser as únicas referências dos mais novos. “É importante que os pais estejam por perto e que sejam eles os principais super-heróis das crianças”, conclui Luís Gonçalves.