“Dar hormona tiroideia sem indicação, nos tratamentos antienvelhecimento, é um perigo”

Mais de um milhão de portugueses, sobretudo mulheres, tem problemas de tiroide, um órgão pouco conhecido, mas que tem um papel essencial na regulação e equilíbrio do organismo humano. Para dar a conhecer o seu funcionamento e as doenças que a afetam, a endocrinologista Inês Sapinho, coordenadora do Serviço de Endocrinologia e da Unidade de Tiroide do Hospital CUF Descobertas, onde co-coordena também a Unidade de Diabetes, escreveu o livro Os Segredos da Sua Tiroide [ed. Manuscrito]. Nesta conversa, procurámos desvendá-los e, ainda, perceber a polémica em torno da modulação hormonal usada nos tratamentos antienvelhecimento, contra a qual a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia lançou recentemente um alerta.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Escreveu este livro porque há muito desconhecimento sobre a tiroide. Este órgão é o braço direito do cérebro aos comandos do nosso organismo?

Todos os órgãos são fundamentais. O organismo é um todo e o importante é o equilíbrio, mas a tiroide tem que estar bem para o todo estar bem. A decisão de escrever este livro foi precisamente no sentido de dar mais informação às pessoas sobre a tiroide e de a dar a conhecer – muitos nem sabem que ela existe – porque o conhecimento poder ajudar a conseguir esse equilíbrio.

Qual é então a função da tiroide?

A tiroide produz essencialmente duas hormonas, que atuam no nosso organismo e são responsáveis pela velocidade de todas as reações do nosso metabolismo. São importantes no crescimento, na formação do bebé durante a gestação, no desenvolvimento neurológico e depois, atuando em todas as células, tem funções na respiração, no coração, no intestino, na área cognitiva, na memória, no nosso estado de espírito, no nosso humor, no peso, no metabolismo e por tudo isso é essencial à vida.

Às vezes, sobretudo nas mulheres, parece que as hormonas nos dominam. Quando isso acontece, quer dizer que alguma coisa não está bem na função tiroideia?

Pode acontecer. O que é importante é percebermos, despistarmos e avaliarmos se está tudo bem. Se existir história familiar ou fatores de risco, as alterações podem indicar um problema, mas é preciso saber olhar para dentro e não pôr as culpas todas nas hormonas.

É um equilíbrio difícil com que nos defrontamos na consulta, porque a vida é muito complexa e temos que fazer perceber às pessoas, quando as análises estão bem e elas continuam a teimar que têm uma desregulação hormonal, que há que pesquisar outras causas.

Há os dois extremos: o de desvalorizar todos os sintomas porque a vida nos abalroa e os atribuímos a isso e o de pôr a culpa de tudo nos problemas hormonais. É este equilíbrio que às vezes é difícil de explicar e desmontar.

Quando não são indicados, os suplementos podem desencadear alterações da função tiroideia, tanto suplementos com iodo, que podem desencadear tanto hipo como hipertiroidismo, como outros.

E também é difícil, por vezes, diagnosticar as doenças da tiroide, não é?

Não, elas são simples de diagnosticar. Eu penso é que esta confusão e ruído todo, ou porque se desvaloriza os sintomas ou porque estes são inespecíficos e se confundem com uma série de coisas, por vezes atrasa o diagnóstico. Por exemplo, estamos com palpitações vamos ao cardiologista, andamos a dormir mal vamos ao neurologista, andamos à roda e muitas vezes a tiroide é o tal órgão esquecido. O diagnóstico em si, com algumas análises, é muito simples.

Os médicos de medicina geral e familiar estão sensibilizados para as patologias da tiroide?

Penso que sim, cada vez mais. Eles têm um papel fundamental na nossa sociedade e no sistema de saúde porque são o nosso recurso de primeira linha e devia existir uma disponibilidade ainda mais alargada, que não existe, como sabemos, mas acho que sim, estão sensibilizados. Recebo muitos doentes encaminhados pelos meus colegas de medicina geral e familiar.

A endocrinologista Inês Sapinho acaba de lançar o livro “Os Segredos da Sua Tiroide”, em que não só dá a conhecer este órgão tantas vezes esquecido como as doenças que o afetam e de que sofrem mais de um milhão e portugueses.

Um quarto das mulheres portuguesas sofre de tiroidite, segundo o coordenador do Núcleo de Estudos de Doenças Autoimunes (NEDAI). A que se deve este número tão elevado?

Não sabemos a razão por que são as mulheres as mais afetadas pelas doenças autoimunes da tiroide, mas sabemos que há fatores genéticos, hormonais e ambienciais que estão todos interligados.

Todos os nutrientes e minerais são muito melhor aproveitados quando vêm da alimentação e dos produtos naturais.

Quais são os fatores de risco para as doenças da tiroide?

A idade (maior prevalência à medida que a idade avança), o género (feminino), existir história familiar de patologia tiroideia ou de outras doenças autoimunes, défice de iodo e exposição prévia a radiação da cabeça e do pescoço são de uma maneira geral as causas principais da patologia tiroideia.

E há alguma forma de prevenção deste tipo de doenças?

Prevenção não há, a não ser o que se recomenda para prevenir todo o tipo de doenças: manter uma alimentação saudável, atividade física e a cabeça equilibrada. De resto, se uma mulher quer engravidar e sabe que há história na família de doença autoimune ou patologia tiroideia, deve fazer vigilância antes da gravidez para ter a certeza que está em condições de avançar para uma gravidez. Por outro lado, temos atualmente em Portugal a recomendação para que grávidas sem patologia prévia de tiroide façam suplementação com iodo ao longo da gravidez e da amamentação.

Vemos muito na consulta doentes com problemas decorrentes de dietas desequilibradas do ponto de vista nutricional.

Mas existem carências de iodo em Portugal?

Os estudos têm demonstrado que há um défice de iodo na grávida e nas crianças em idade escolar. Daí as recomendações no sentido da suplementação em caso de gravidez. Somos um país em que há áreas com défices de iodo significativos.

Os suplementos alimentares, vitaminas e afins, tomados sem orientação médica, como acontece muitas vezes, constituem um risco para a saúde?

Sem dúvida. Não existe neste momento nenhuma recomendação para fazer suplementação com exceção desta que acabei de referir. Quando não são indicados, os suplementos podem desencadear alterações da função tiroideia, tanto suplementos com iodo, que podem desencadear tanto hipo como hipertiroidismo, como outros. Há muita coisa no mercado que pode ser perigosa e sabemos, e os estudos têm vindo a demonstrar, que todos os nutrientes e minerais são muito melhor aproveitados quando vêm da alimentação e dos produtos naturais.

Nódulos da tiroide, se estivermos a falar dos que são apenas detetáveis em ecografia ou outros exames de imagem, afetam cerca de 60 por cento da população.

As dietas vegan ou vegetariana, se não forem bem orientadas, podem resultar em problemas de tiroide?

Podem, porque não incluem produtos enriquecidos com iodo e há que ter algum cuidado, assim como com o ferro. Vemos muito na consulta doentes com problemas decorrentes de dietas desequilibradas do ponto de vista nutricional.

Estou a lembrar-me de uma jovem doente que resolveu começar uma dieta e aparece na consulta com a mãe e com um ar translúcido, o cabelo quebradiço, claramente mal nutrida. O que expliquei, à jovem e à mãe, é que pode fazer dieta, mas tem que procurar orientação de um nutricionista, de quem sabe, que garanta o equilíbrio e a suplementação adequada, senão as doenças vão aparecer.

Na alimentação natural, que produtos fornecem iodo?

Uma das recomendações é, quando vamos às compras, optar pelo sal iodado, enriquecido com iodo. Claro que pode perguntar, então, mas num país com tanta hipertensão está a recomendar fazer sal? Não. É na dose certa, sem excessos. De resto, ovos, leite e derivados e tudo o que vem do mar. Não é o salmão da aquacultura, é o peixe de mar e o marisco.

Quando temos um nódulo, no caso da tiroide, temos que excluir que é autónomo – ou seja ter a certeza que não está a produzir hormonas de forma autónoma – e excluir malignidade.

Além da tiroidite, de que já falámos, quais são as outras doenças da tiroide que afetam, no seu conjunto, mais de um milhão de portugueses?

Quando se fala de tiroidite, trata-se da doença autoimune que tanto pode ser o hipo como o hipertiroidismo, que tem uma grande prevalência. Depois, além do cancro de tiroide, que é pouco frequente, a mais prevalente é a doença nodular da tiroide, ou nódulos da tiroide, que afetam cerca de 7 por cento da população, os palpáveis, mas que podem chegar a 60 por cento, se estivermos a falar dos que são apenas detetáveis em ecografia ou outros exames de imagem. Em mulheres acima dos 60 anos, os números disparam e quase todas têm e daí, por vezes, o perigo de se fazerem exames, porque vamos achar sempre alguma coisa, aquilo a que na gíria chamamos de incidentalomas.

A partir de certa idade toda a gente tem? São os cabelos brancos do organismo?

Não é bem assim. Aumenta. E quando temos um nódulo, no caso da tiroide, temos que excluir que é autónomo – ou seja ter a certeza que não está a produzir hormonas de forma autónoma sem a tal regulação que existe no funcionamento da tiroide com a hipófise – e excluir malignidade.

Obviamente que hoje as técnicas de imagem já nos dão muita informação e orientam com um grau de segurança grande, mas em determinadas situações temos que fazer mais exames para analisar células e decidir o que fazer àqueles nódulos. Enfim, há que vigiar, de forma tranquila, para garantir que está tudo bem.

Temos que melhorar a qualidade de vida das pessoas, temos que as tratar e garantir que estejam bem, mas não podemos dar [hormonas] sem indicações precisas e claras.

O metabolismo é um dos sistemas regulados pela tiroide. A obesidade ou a dificuldade em emagrecer estão relacionados com problemas no funcionamento deste órgão?

A tiroide ao regular a velocidade das reações, regula o nosso metabolismo, por isso se a função tiroideia estiver afetada, é mais difícil perder peso, mas é preciso mais do que uma função tiroideia saudável para perder peso. Voltamos sempre ao mesmo: alimentação saudável e exercício físico. Dito isto, claro que a função tiroideia estar bem é fundamental para manter o equilíbrio necessário.

A medicina antienvelhecimento e a modulação hormonal estão em grande crescimento. Recentemente, a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia lançou um alerta em relação a este tipo de tratamento. Qual é o problema?

Eu também não quero envelhecer, mas o envelhecimento é um processo natural. Utilizar soluções que não estão validadas do ponto de vista científico e dar medicamentos que não têm indicação não pode ser e por isso concordo em absoluto com o que diz a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia. Trata-se de substâncias que podem até ser perigosas. Por exemplo, a hormona tiroideia, que está a ser dada nestes tratamentos antienvelhecimento, está provado que pode aumentar o risco de mortalidade para quem não tem indicação.

Não devemos dar testosterona à mulher – e eu digo-o claramente – porque não está comprovado o benefício ou eficácia. Há um mercado louco de testosterona à venda.

Mas a terapêutica hormonal de substituição em mulheres na menopausa ou que fizeram histerectomia, por exemplo…

Isso é diferente. Quem é operado à tiroide também precisa de fazer substituição de hormona tiroideia e tem toda a indicação para o fazer, na dose certa e adequada àquele doente, que será diferente no caso de um cancro de tiroide do que noutras patologias. No caso da terapêutica hormonal de substituição da menopausa, as indicações também são claras. Há que avaliar o risco de cancro da mama e de doença cardiovascular e a indicação de fazer depende muito dos sintomas da mulher.

Temos que melhorar a qualidade de vida das pessoas, temos que as tratar e garantir que estejam bem, mas não podemos dar [hormonas] sem indicações precisas e claras. Assim como não devemos dar testosterona à mulher – e eu digo-o claramente – porque não está comprovado o benefício ou eficácia e sabe-se que há um mercado louco de testosterona à venda. Este é um problema que está a acontecer em todo o mundo.

A idade é o maior inimigo da tiroide?

Obviamente que as doenças aumentam com a idade, mas… Com casos é mais fácil de explicar: se temos uma senhora com oitenta e tal anos com uma TSH acima do normal, olhamos para a senhora, para o valor, um bocadinho acima do normal, mas que para aquela idade e aquele coração está ótimo, e por isso não temos que lhe dar a hormona, que não vai ter benefício na qualidade de vida. Temos, pelo contrário, que ter cuidado porque, se lhe dermos, ela pode ter um enfarte ou uma arritmia. É este balanço que tem que se fazer e o perigo do antienvelhecimento vem daí, de isto ser esquecido. O papel do endocrinologista é manter o equilíbrio.

As hormonas usadas na medicina antienvelhecimento são medicamentos?

São medicamentos e uma das coisas que está à venda e de que falo no livro são, por exemplo, extratos de tiroide de porco que têm uma composição que associa as duas hormonas de tiroide, que estão nas doses do equilíbrio do porco, não do humano, o que criará desequilíbrios neste último. O que acontece é que nos chegam à consulta doentes muito descompensados porque não há no mercado alternativas disponíveis que permitam um equilíbrio adequado. Não podemos criar ilusões ou expetativas falsas.

Mas estes medicamentos usados na medicina antienvelhecimento não têm que ser aprovados pelo Infarmed, a FDA, enfim os organismos que em cada país regulam a área do medicamento?

Não. São medicamentos, alguns manipulados e alguns não são sujeitos ao controlo de qualidade e a regras das instituições adequadas. Daí o risco.