Ingleses no Porto: são cada vez menos mas continuam muito influentes

Há um desaparecimento das grandes famílias ligadas ao vinho do Porto. No século XVIII eram 30, agora são três, entre as quais a de David Symigton fotografado na sua quinta no Douro. (Rui Oliveira/Global Imagens)

O número de ingleses a viver no Porto tem diminuído muito desde a II Guerra Mundial. Mas o seu cunho continua a fazer-se sentir na cidade.

Texto de David Mandim

Em 1756 existiam já 30 famílias de negociantes britânicos a residir na cidade do Porto, um sinal dos tempos em que o comércio na zona da Ribeira tinha um forte cunho inglês. Nos dois séculos seguintes, a influência britânica no Porto tornou-se mais visível. Basta pensar nas marcas de vinho do Porto, na arquitetura de vários edifícios da cidade e no número de ingleses que fixaram habitação nas melhores zonas da Foz do Douro. Muito mudou e hoje só existem três companhias britânicas no setor do vinho do Porto, que representam as famílias Symington, Robertson (grupo Fladgate, presidido por Adrian Bridge) e Churchill-Graham. As outras mudaram de mãos. Em 2019, a comunidade britânica no Porto é pequena, menos de mil pessoas, uma tendência que não é nova: o consulado do Reino Unido – aberto em 1642 – já tinha fechado em 2005. Mas é inegável que os súbditos do Império Britânico deixaram marcas profundas na cidade e as suas gentes são uma parte de valor incontornável na história portuense.

Desde o século XII que as relações comerciais estavam estabelecidas entre o Porto e a Inglaterra. Se os tratados fortaleceram as relações, em 1387, o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre, numa histórica cerimónia que decorreu na Sé do Porto, foi um dos momentos marcantes da aliança luso-britânica. Nos séculos seguintes, os ingleses foram tomando conta do Porto, com muitos negócios, incluindo o têxtil. Com algum snobismo e superioridade, ocupavam os melhores locais da cidade, tomaram o Campo Alegre e acabaram a dominar a Foz. “Viver à inglesa” foi uma expressão que se vulgarizou. Nasceram escolas, a igreja, o cemitério e outros edifícios. Já no século XIX, a influência na arquitetura ganhou forte notoriedade. O Hospital de Santo António, a Avenida dos Aliados ou o Largo da Ribeira são exemplos disso.

Uma mudança de perceção

No século XVII, as empresas inglesas ligadas ao vinho já estavam estabelecidas. A Croft é a mais antiga que ainda hoje se mantém em atividade. Integra o grupo Fladgate, um dos três britânicos que permanecem no vinho do Porto. Os outros são o Symington e o Churchill’s Graham. Estas três companhias familiares controlam oito marcas e formam os resistentes britânicos no negócio: são os Symington, os Churchill-Graham e os Robertson, estes agora mais conhecidos agora como Bridge após o casamento de Adrian Bridge com Natasha Robertson, descendente de quinta geração.

A Feitoria Inglesa ocupa um edifício construído em 1785 e que ainda hoje é emblemático na zona da Ribeira. (Fotografia Rui Oliveira/Global Imagens)

As outras famílias, como Taylor, Sandeman, Cockburn, Dow, Delaforce ou Warre praticamente desapareceram do Porto, com exceção de descendentes, na maioria já reformados. As marcas estão nas mãos de investidores nacionais, como a Sogrape, ou estrangeiros, como franceses. Mas os nomes das marcas não enganam, são britânicos e nasceram na mais antiga região demarcada do mundo.

A Symington e a Fladgate são ambas de cariz familiar e são os dois grandes grupos ingleses que resistem. São dos principais proprietários no Douro e estenderam os negócios. As famílias, em especial a Symington, que chegou em 1882, fizeram do Douro e do Porto o “seu país”.

Adrina Bridge é o atual presidente do grupo Fladgate. (Fotografia Pedro Correia/Global Imagens)

A tendência de perda de influência dos britânicos tem décadas, com origem sobretudo no período da II Guerra Mundial. Em 2005, com a saída de muitas famílias tradicionais do Porto, o consulado do Reino Unido encerrou. Terminava assim um ciclo iniciado em 1642, data em que chegou o primeiro cônsul britânico ao Porto. A comunidade britânica aceitou com normalidade. Paul Symington declarou então ao DN. “Não estou num país estrangeiro. Faço parte desta comunidade portuguesa e tenho muito orgulho. Rejeito mesmo essa ideia de colónia britânica no Porto. Há apenas ingleses com fortes laços à cidade e outros que chegaram nos anos mais recentes e não têm a mesma perceção.”

A Feitoria Inglesa, cujo edifício foi construído em 1785 e ainda hoje é emblemático na Ribeira.

É o que se passa hoje, com as famílias antigas a não terem mais de cem pessoas, sendo a restante comunidade constituída por professores, alguns quadros superiores de empresas, reformados e estudantes. A Embaixada do Reino Unido diz não ter números de britânicos no Porto. Ao DN, avançou que existem perto de 45 mil em Portugal, embora os números oficiais apontem apenas para 22 500, com mais de metade (60%) concentrados no Algarve. No Porto, os registos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras dizem que existem 338 britânicos (670 no distrito), com a embaixada do Reino Unido a dizer que pecará por defeito. No total, não passarão de 700 a mil na cidade. Existe uma consulesa honorária que dá assistência aos cidadãos britânicos, mas quase tudo é tratado diretamente com a embaixada em Lisboa.

Os Symington mantêm fortes ligações a instituições britânicas que subsistem na cidade, como a Feitoria Inglesa, cujo edifício foi construído em 1785 e ainda hoje é emblemático na Ribeira. Ali ainda se reúnem os representantes das empresas britânicas do vinho do Porto, com Charles Symington a ser o atual tesoureiro, o homem que guarda o tesouro. É um cargo rotativo, atribuído anualmente a cada uma das oito casas associadas, com Natasha Bridge a ter sido em 2017 a primeira mulher no cargo. Na feitoria, criada para defender os interesses dos negociantes britânicos, está uma parte da história do vinho do Porto e hoje serve como instituição de promoção.

J.K. Rowling Chegou em 1991 para ser professora de Inglês, casou-se e teve uma filha no Porto, onde iniciou a escrita do primeiro livro da saga Harry Potter, com cenários da obra a serem influenciados pelo interior da Livraria Lello

De Uma Família Inglesa a inspiração para Harry Potter

A história dos ingleses no Porto tem muitos contornos e não se limita ao vinho do Porto. Há muitas figuras importantes para a cidade, cuja influência ainda hoje é notória. John Whitehead é um dos mais relevantes. Residiu no Porto entre 1756 e 1802, foi o cônsul que fez erguer a Feitoria Inglesa e quem conseguiu um espaço para o Cemitério dos Ingleses, localizado junto à Igreja Anglicana de Saint James. Além disso, terá escolhido o arquiteto John Carr para o projeto do Hospital de Santo António, um dos vários edifícios históricos da cidade que ostentam uma clara influência inglesa. Outro inglês histórico foi o barão de Forrester, que dá nome a uma rua da cidade.

John Whitehead fpi um dos mais relevantes ingleses do Porto. Residiu no Porto entre 1756 e 1802, foi o cônsul e conseguiu um espaço para o Cemitério dos Ingleses

A influência britânica na cidade, em especial no século XIX, foi retratada na obra literária Uma Família Inglesa, de Júlio Dinis, publicada em 1867 como folhetim no Jornal do Porto e no ano seguinte como livro. Entre outros exemplos, a ligação britânica ao Porto na literatura teve um caso de sucesso com a passagem da escritora J.K. Rowling pela cidade. Chegou em 1991 para ser professora de Inglês, casou-se e teve uma filha no Porto, onde iniciou a escrita do primeiro livro da saga Harry Potter, com cenários da obra a serem influenciados pelo interior da Livraria Lello. Ainda hoje declara o seu amor pelo Porto e pelas suas gentes.

A primeira escola britânica na Europa

Em relação ao ensino de inglês, o Porto tem forte tradição. A Oporto British School, nascida na Foz há exatamente 125 anos, foi a primeira escola britânica a abrir na Europa. “Pensa-se que os primeiros impulsionadores desta iniciativa tenham sido seis pais, de famílias ligadas à produção de vinho do Porto, com filhos em idade escolar. A escola começou com 11 alunos e cresceu nos anos seguintes”, explicou ao DN uma das responsáveis da escola que começou por ser só para rapazes – só em 1915 se abriu a raparigas e por causa da guerra – e onde ainda hoje os alunos usam uniformes.

A Oporto British School que abriu portas há exatamente 125 anos na zona da Foz.

Só em 1902 é que alunos que não tinham nacionalidade inglesa puderam aceder. Atualmente, a escola tem 508 alunos, dos quais apenas 8% são britânicos. Os portugueses estão em maioria, aproveitando o ensino de qualidade do estabelecimento, que tem perto de 40 nacionalidades entre os seus estudantes. No corpo de professores é diferente, com a maioria a ser britânica ou com dupla nacionalidade, excetuando os de língua portuguesa, francesa e espanhola.

Charles Symington é um dos exemplos de britânicos que estudaram na Oporto British School e hoje é um dos membros do board da escola, onde tem três filhos a estudar. Natasha Bridge, da Fladgate, é outro exemplo de uma inglesa que passou por esta mais do que centenária escola. “Várias famílias da escola são geracionais. Em alguns casos, vamos na quarta geração de pupilos, algumas das quais representaram um papel importante na fundação e crescimento da escola”, revela Mafalda Pinto, diretora de comunicação.

A Oporto British School sempre esteve sediada na Rua da Cerca, 338, na Foz. Na última semana de outubro, para assinalar os 125 anos, juntaram-se cerca de 140 pessoas, com famílias ligadas à indústria vinícola que têm uma forte ligação à escola.

A mais antiga estudou na escola nos anos 1930 e o mais novo presente formou-se há cinco anos. O Oporto Cricket and Lawn Club é outro local onde se pode encontrar muitos elementos da comunidade britânica. É um clube social, com bar, restaurante, courts de ténis e piscina e tem mais de cem anos. Foi criado em 1855, em Vila Nova de Gaia, e mudou-se em 1923 para o Campo Alegre, onde hoje existe, assimilando na década de 1960 o Oporto British Club.

Abrir a igreja com muros de seis metros

Com origens no século XIX, a Igreja Anglicana de St. James, edifício de 1815, no típico neoclássico inglês, é outro dos expoentes britânicos, com o cemitério dos ingleses ao lado. Aqui estão sepultados várias das figuras históricas como John Whitehead ou o barão de Forrester, ou os mais recentemente falecidos das famílias ligadas ao vinho, como Ian Symington.

O capelão Philip Bourne, da Igreja Anglicana de Saint James no Porto. Chegou em 2018 e decidiu abrir as portas do templo à cidade, oque aconteceu pela primeira vez. (Fotografia Pedro Granadeiro/Global Imagens)

Philip Bourne chegou ao Porto em setembro de 2018 como capelão anglicano. Na sua primeira vez em Portugal, o britânico de 58 anos apercebeu-se logo do contexto histórico do Porto com os ingleses, sobretudo pelo vinho do Porto. “Agora parece que é mais comum dizer que os portugueses fazem melhor. Talvez seja por causa do Brexit”, graceja. A comunidade anglicana é muito pequena, cerca de 50 pessoas, e muitas nem são britânicas. Há norte-americanos ou nigerianos. “Temos pessoas mais velhas, reformados, ainda ligadas às famílias antigas do vinho do Porto. Depois, e falando já dos britânicos na cidade, há muitos professores, médicos e estudantes. Somos uma comunidade pequena”, diz.

Depois de se instalar, Philip Bourne constatou que a Igreja Anglicana do Porto era um local muito fechado. “Por circunstâncias históricas, os muros são muito altos, têm seis metros. Decidiu abrir as portas à cidade, o que acontece pela primeira vez. Agora aparecem aqui portuenses que ficam admirados. Viviam aqui perto e nunca tinha entrado na igreja. Agora temos a receção sempre aberta e por aqui passam muito caminheiros de Santiago. Esta é a única igreja de Santiago na cidade do Porto.”