IPO Lisboa: “Infelizmente, não há uma torneira para o sangue ou forma de o fabricar artificialmente”

Para fazer face às necessidades diárias em sangue dos seus doentes, o IPO Lisboa precisa de pelo menos vinte dadores por dia.

Nos primeiros dias do ano, o Instituto Português de Oncologia de Lisboa teve falta de plaquetas, um componente sanguíneo essencial para o tratamento da leucemia aguda, por exemplo. Esta semana, fomos dar sangue e perceber as dificuldades que o serviço de imunohemoterapia enfrenta o ano inteiro.

Texto de Catarina Pires | Fotografias de Orlando Almeida/Global Imagens

Os olhos azuis e bem-dispostos da enfermeira Susana Mendonça distraem da agulha que entra quase sem se dar conta numa das veias do braço direito. Enquanto prepara os apetrechos, Susana vai explicando todos os procedimentos. Em menos de meia hora o saquinho ligado à veia vai encher-se de 450 ml de sangue, que depois irá para laboratório para ser analisado, processado e separado em componentes – plasma, plaquetas e eritrócitos (glóbulos vermelhos) –, que ajudarão a tratar doentes, quem sabe salvar vidas, aqui no IPO de Lisboa, que, em virtude do tipo de patologia que recebe – cancro – e da especificidade dos tratamentos que realiza, precisa de muito mais componentes sanguíneos do que a maioria dos hospitais.

Plasma, eritrócitos e plaquetas são os componentes sanguíneos que resultam de uma colheita de sangue total, depois de analisado e transformado.

A sala branca de camas brancas, onde é feita a colheita, é tão acolhedora como o pessoal que trabalha neste hospital onde quase todos parecem estar em missão. Antes da dádiva, que não custa nada e vale muito, a administrativa Ana Paula Oliveira faz a inscrição e explica os passos a dar: responder a um questionário e fazer uma consulta médica prévia (e confidencial). Naquele dia, foi o médico Pedro Simões a avaliar se a dadora estava apta a doar sangue, fazendo as perguntas necessárias, medindo a tensão arterial e os níveis de hemoglobina e esclarecendo possíveis dúvidas.

Na consulta prévia, é medida a tensão arterial e os níveis de hemoglobina no sangue.

Feita a consulta e porque o pequeno-almoço já lá ia há mais de duas horas, houve que comer um pão de leite com queijo e beber um café na pequena sala de refeições. Ritual que se repetiu depois da colheita de sangue. Uns minutos de repouso, mais uma peça de fruta e a recomendação de beber água com fartura e não fazer grandes esforços durante o resto do dia. Daqui a quatro meses está-se pronta para outra (dádiva).

O serviço de imunohemoterapia do IPO de Lisboa, que tem novas instalações no segundo piso do pavilhão de radio desde março de 2019, garante as transfusões de componentes sanguíneos aos doentes internados e em ambulatório, faz colheitas de sangue total ou aférese (o dador é ligado a um separador celular e são retiradas apenas plaquetas, o que permite a colheita de um concentrado unitário de plaquetas que corresponde às que resultariam de cinco ou seis dádivas de sangue total) e tem um laboratório onde o sangue é analisado e processado de forma a garantir a segurança imunológica da transfusão e a hemovigilância.

Uma colheita de sangue total demora cerca de 15 minutos, meia hora e são recolhidos 450 ml, que o corpo recupera em poucos dias.

Entre as 9h00 e as 16h00 dos dias de semana e as 9h00 e as 11h00 de sábado está aberto para colheita (saiba mais aqui), um horário que Dialina Brilhante, diretora do serviço, gostaria que fosse alargado, para melhor suprir as enormes necessidades deste hospital oncológico.

“O sangue é um produto biológico – ainda não temos uma torneira ou uma forma de o fabricar artificialmente e não creio que o tenhamos nos tempos mais próximos – e o grande problema dos produtos biológicos é que têm um prazo de validade curto e há alturas em que pode haver uma diminuição do acesso a matéria-prima, como aconteceu no fim do ano, em virtude do período de férias e feriados. Isto pode e deve ser contrabalançado com planos de contingência adequados, mas há uma questão fundamental que neste momento é um obstáculo: os recursos humanos. Os serviços estão a funcionar à pele – falo pelo meu e sei que no Instituto Português de Sangue e Transplantação (IPST) é a mesma coisa”, diz a responsável, que esteve mais de um ano à espera de autorização do ministério das Finanças para substituir uma técnica de laboratório que saiu, e que todos os dias luta com o quebra-cabeças que é gerir um serviço com falta de pessoal.

Dialina Brilhante é a diretora do serviço de imunohemoterapia do IPO de Lisboa.

“Numa semana em que tive um grande aumento de consumo de plaquetas, a primeira medida em termos de plano de contingência seria abrir horários de atendimento e não imagina a angústia que é não poder fazer isso por falta de recursos humanos. Há uma enorme dificuldade na contratação, porque os hospitais não têm autonomia nessa matéria, e o valor que se paga de horas extraordinárias é muito baixo. Mesmo assim, todos os dias fazemos horas a mais e pomos todo o nosso empenho no tratamento dos doentes, porque se cumpríssemos escrupulosamente o horário de trabalho muito ficaria por fazer”, diz Dialina Brilhante, que, se pudesse, alargaria o horário de colheita de sangue não só ao sábado como durante a semana ao período pós-laboral, porque sabe que isso facilitaria a dádiva.

O serviço de sangue do IPO de Lisboa tem novas instalações desde março do ano passado. As colheitas são feitas todos os dias da semana, entre as 9h00 e as 16h00, e aos sábados, entre as 9h00 e as 11h00.

“É importante apelar à dádiva e sensibilizar as pessoas para virem dar sangue, mas mais do que isso há este problema de recursos humanos para resolver”, diz a médica, ainda não refeita da aflição dos dias em que faltaram componentes sanguíneos, sobretudo plaquetas, para suporte dos doentes deste hospital, para onde são referenciadas as leucemias agudas, cujo tratamento exige uma quantidade elevada de componentes sanguíneos. Os mesmos que são essenciais nas cirurgias, transplantes e outros tratamentos oncológicos, nomeadamente os imunossupressores (“que põem a medula quase a zero para lhe dar oportunidade de, ao retomar o seu ciclo de renovação de células, nomeadamente as hematológicas, produzir células sem doença”), que são o dia-a-dia do IPO Lisboa.

O Serviço de Imunohemoterapia dispõe de um laboratório onde se realizam as técnicas laboratoriais que garantem a segurança imunológica da transfusão e a hemovigilância. É aqui que o sangue total, colhido nos dadores, é separado em concentrado de eritrócitos, concentrado de plaquetas e plasma. Durante a separação, são removidos os leucócitos para evitar reações transfusionais no doente. Os componentes são preservados em solução aditiva para garantir a sua viabilidade.

No ano de 2019, foram transfundidos 1661 doentes, sobretudo da hematologia e da pediatria (unidade de transplante de medula) e foram usados 8300 concentrados de eritrócitos, 22 mil unidades de plaquetas e 771 concentrados unitários de plaquetas. Destes só 30 a 40 por cento foram colhidos no IPO, sendo que no caso dos concentrados unitários de plaquetas (resultantes de aférese), este número ultrapassou os 50 por cento. O resto vem da rede transfusional, gerida pelo IPST de acordo com as necessidades dos diversos hospitais.

“Não somos autossuficientes em componentes sanguíneos e não é possível pensar que um hospital como nós o seja porque somos umas das unidades para onde são referenciados os doentes com leucemias agudas e o gasto sanguíneo a que estes obrigam é tão grande que eu teria que ter outros meios para garantir a autossuficiência. De um modo geral, todos os hospitais que têm programas de atendimento e de tratamento de leucemias agudas ou de transplante são sempre serviços que exigem um grande número de componentes sanguíneos e as plaquetas são um fator crítico”, diz Dialina Brilhante, que explica as dificuldades de gerir um stock de sangue.

“Os concentrados de erictrócitos têm um tempo de duração de 42 dias, mas por exemplo o prazo de validade das plaquetas é de apenas 5 dias e está a ver a dificuldade de gerir um stock com estas especificidades quando temos que ter os componentes de que necessitamos disponíveis no momento certo?”. Estou. E é por isso que fui dar sangue.