Ir desta turma para melhor?

Pais querem sempre o bem dos filhos, evitar dores de crescimento, sabê-los seguros. Não podendo estar perto 24 horas, ao menos que estejam os amigos que eles conhecem desde sempre, a turma como uma segunda família. A não ser que ela lhes traga dores de crescimento ainda maiores…

Texto Ana Pago | Fotografia Leonardo Negrão/Global Imagens

Só de pensar na filha indefesa na nova escola, Marina Bravo sentia fraquejar-lhe os joelhos. Pouco importa se lhe chamam coruja: a ela sossegava-a saber que Beatriz, então com cinco anos a fazer os seis (em novembro), ficava com os amigos da pré-primária. «A turma com quem ela esteve dois anos passou em peso para o 1.º ciclo, conheciam-se todos», conta a mãe, técnica de emergência pré-hospitalar. Bia quase ficou de fora, por ser das mais novas, condicionada às vagas. Ao saber que a escola ia abrir uma turma extra não prevista inicialmente, Marina exultou: «Acabou por ficar com três amigos na mesma situação. Aos outros não os larga no recreio, é uma paixão entre eles.»

Algo muito bonito de se ver mas que pode, também, ter os seus reveses, alerta Magda Gomes Dias, especialista em educação positiva. «Miúdos que estão sempre juntos não se abrem à possibilidade de conhecer outros amigos que até lhes podem fazer melhor», aponta a formadora nas áreas comportamentais e comunicacionais, autora do blogue Mum”s the boss e do site Parentalidade Positiva. A separação é boa inclusive para os superamigos: «Se a zona de conforto do Manuel é estar com o Miguel, isso não significa que a zona de conforto do Miguel seja ter sempre o Manuel atrelado a si. Torna-se contraproducente para os dois», sublinha.

Marina Bravo não tem tanta certeza de que as coisas sejam assim preto no branco. Não tratando-se de crianças tão pequenas – como poderia pensar diferente? «Os pais criaram um grupo, que partilham desde o pré-escolar, e todos são da opinião de que é melhor ter os filhos juntos do que separados», afirma a mãe, convicta. Da parte dos adultos, mantêm a ligação uns com os outros dentro e fora da escola, mesmo com os filhos em duas turmas de 2.º ano diferentes. Por outro lado, admite, Beatriz é a primeira a dizer que não queria outra turma além da que tem hoje, a sala de aula não é para brincar. Para isso existe o recreio, onde vai a voar matar saudades dos antigos colegas.

«Percebo que os pais tenham receio, mas ao insistirem em mantê-los juntos estão a tirar aos filhos uma grande oportunidade de descobrirem que não estão dependentes deste ou daquele colega e conseguem fazer novas amizades e avançar», reforça a coach em parentalidade positiva.

Magda Gomes Dias aplaude a sensatez da criança de sete anos: «À partida, terá muito menos dificuldades ao longo da vida do que outros meninos que não têm a hipótese de desenvolver em si esta capacidade de adaptação, de empatia, de se porem no lugar do outro e adequarem o seu discurso ao outro», diz. O mundo atual também não poupa ninguém: ou nos ajustamos e aprendemos a tirar o melhor partido do que ele nos traz, bom e mau, ou somos cilindrados em três tempos. «Percebo que os pais tenham receio, mas ao insistirem em mantê-los juntos estão a tirar aos filhos uma grande oportunidade de descobrirem que não estão dependentes deste ou daquele colega e conseguem fazer novas amizades e avançar», reforça a coach em parentalidade positiva.

E quanto mais cedo melhor, uma vez que a nossa capacidade de adaptação aos 11 anos é já muito diferente da dos cinco. Para não falar que depois também não vamos ficar nos mesmos empregos, talvez nem sequer no país, e há tudo a ganhar em educar para a diferença. Nem de propósito, Magda conhece uma escola – o Liceu Francês Internacional do Porto – onde os miúdos mudam de turma todos os anos. «A troca permite que os alunos de um mesmo nível se conheçam [existem quatro turmas por nível] durante o período de escolaridade desde os 3 anos, quando entram, até saírem com 17 ou 18 no 12.º ano», justifica Paulo Fernandes, diretor-adjunto da escola.

Na primária, além de mexerem nos colegas, mudam ainda os professores para diversificar os métodos pedagógicos inerentes a cada um. «Relembro que os alunos passam 15 anos na nossa escola. As relações entre eles são fundamentais para o bom ambiente geral», defende o responsável, cuja experiência lhe mostra que por mais tristes que possam chegar no primeiro dia de aulas, por não ficarem com o amigo X ou Y, ao fim de uns dias já não querem outra turma. Apesar de tudo, ainda são os pais os mais difíceis de convencer: «Todos os anos temos vários a pedirem mudança de turma, mas não damos resposta positiva a estes pedidos já que os motivos são quase sempre relacionados com a presença, ou não, de amigos dos filhos», diz.

SENDO ASSIM, OS MAIORES MEDOS SÃO DAS CRIANÇAS, DE FACTO?

Ou a tendência para pô-las no mesmo grupo por sabermos com quem estão tem a ver com uma insegurança dos próprios pais? «Acompanho muitos alunos do 2.º ciclo que não só entram num novo ano, numa nova escola, como em muitos casos vêm do privado para o público», revela o psicólogo Nuno Francisco Maia, mais inclinado para a primeira hipótese pelas histórias a que assiste na Ousar Crescer, a sua academia de desenvolvimento pessoal em que ajuda pais e filhos a construir ferramentas educativas e familiares. «Ouve-se falar em tentativas de pressão junto das escolas, com cartas que se escrevem e influências que se movem, e acho que os pais nem se apercebem de que já estão a transmitir muita coisa apenas pelo modo como vivem este processo», aponta.

Felizmente, não dispõem de nenhum mecanismo legal que lhes permita interferir na constituição das turmas ou havia de ser bonito, observa Delfina Velez, professora de português de 7.º, 8.º ano e cursos de educação e formação num agrupamento de escolas em Loulé. «Podem sugerir que gostariam de, até insistir na mudança argumentando ou fazendo uma exposição aos diretores. Contudo, no final a escola decide o que entender», explica. Se num ano três alunos perturbaram o funcionamento das aulas, sendo ou não melhores amigos, o mais certo é serem divididos por três turmas no ano seguinte para evitar confusões, por mais que a família interceda para ficarem juntos.

“Ah, ficaram todos juntos menos o meu filho, coitadinho dele”, quando nós vemos os miúdos integrados e felizes, com altas competências sociais», conta Nuno Francisco Maia.

E sim, claro que os pais só querem o melhor para as crianças, é indiscutível. Mas então ensinem-lhes que não são vítimas. Que quaisquer que sejam as circunstâncias há sempre uma margem de liberdade em cada indivíduo para agir sobre elas, de dentro para fora. «Temos pais que chegam à Ousar Crescer e dizem “Ah, ficaram todos juntos menos o meu filho, coitadinho dele”, quando nós vemos os miúdos integrados e felizes, com altas competências sociais», conta Nuno Francisco Maia. Queixamo-nos de que os jovens dependem dos pais até serem adultos, porém todos contribuímos para isso. «Mudar de turma é apenas um exemplo do que vem depois», diz.

Delfina dá-lhe razão, até por ter três filhos muito diferentes entre si: Fábio, de 16 anos e no 12.º ano, saltou tranquilo da 1.ª para a 3.ª classe (aprendeu a ler sozinho) e no 5.º ano pediu para trocar de escola a fim de integrar o Conservatório de Música (toca violino): «A mudança nele foi sempre benéfica», garante a mãe. Maria, de 13 anos, mantém os mesmos colegas de turma desde a pré: «É bom em termos de boleias mas não para uma turma disciplinada, porque podem mudá-los 30 vezes de lugar que vão ficar com alguém que conhecem.» E ainda há a Laura, de 7 anos, «um caso de perfeito insucesso na mudança»: andou numa escola privada na pré por não ter vaga, mudou para a pública no 1.º ano e o descalabro sobreveio.

«Aflige-me por ser uma menina muito doce, que não se sabe defender no recreio e tem uma única amiga, mas mantenho o que digo aos pais dos meus alunos que são vítimas de bullying: ir para outra escola não é solução», considera a professora. Em casa vigia-a, dá-lhe colo, explica que um dia que ela for crescida e trabalhar numa empresa, rodeada de colegas manhosos, não irá despedir-se por causa deles. «Por mais que doa, sei que isto lhe vai dar bagagem para lidar com a frustração.» Há a parte de ter que enfrentar o desconhecido e conquistar as pessoas do novo grupo. Eventualmente, a de apanhar os cacos se não correr bem. «Queremos superprotegê-los, mas o mundo é uma selva e terão que desenvencilhar-se», diz. Então mais vale saberem lutar.


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