Isto da genética é muito bonito, mas não queiras ter o feitiozinho do teu pai

Foram as minhas irmãs que me chamaram a atenção. Primeiro uma, num Natal qualquer, depois de uma palhaçada que fiz. Depois a outra, num dia em que estávamos só os dois. Uma disse‑o a rir, a outra disse‑me para pensar nisso. Mas a nenhuma prestei grande atenção. Se somos adolescentes e nos dizem que somos parecidos com o nosso pai em expressões ou reações, chutamos para canto e rematamos: «É natural, sou filho dele.» Mas, à saída da puberdade, quando a voz está a engrossar e os pelos a nascer em sítios novos, não somos dados a grandes reflexões cognitivo‑comportamentais sobre a pegada genética. Naquela altura, eu atendia o telefone e ficava contente quando alguém dizia «Olá Zé», confundindo‑me com o meu pai.

Foram também as minhas irmãs a dar conta de outra herança sensível: tal como a minha mãe, tenho dificuldade em resumir o discurso oral. Uso palavras a mais. Graças à profissão que escolhi, ganhei alguma capacidade de síntese, mas, a contar o que quer que seja, sou capaz de fazer escala em Vigo para relatar uma viagem de Lisboa a Santarém.

A primeira vez que refleti a sério sobre estas coisas já tinha quase 30 anos. Era demasiado novo para pensar que estava a ficar velho, mas já tinha alguma maturidade para dissertar sobre isto. Tinha saído de casa dos meus pais com 26 e lembro‑me de um dia estar a fazer umas contas, ao chegar do supermercado, e aquilo bater‑me com força: o meu pai também faz isto! Quando vem das compras, olha para os talões da caixa e faz cálculos de cabeça. Tal como eu estava a fazer naquela altura.

Não controlamos o que herdamos dos pais e o que passamos aos filhos, mas podemos tentar. Quando achamos que os progenitores fizeram um bom trabalho a educar‑nos, temos tendência para achar que, de certeza, retiraremos daí – e das idiossincrasias deles – o melhor para passarmos à descendência. Mas a minha psicoterapeuta, teria eu uns 36 ou 37 anos, fez‑me ver que isso pode não ser bem assim: que a organização exterior (essa mania de arrumar papéis e fazer contas, como o meu pai, e de limpar a bancada da cozinha, como a minha mãe) pode ser uma forma de disfarçar a confusão interior; que não somos obrigados gostar dos hábitos herdados dos pais – e temos de saber confrontar‑nos (ou a eles) com isso; e que eu sou livre para passar às minhas filhas os valores e hábitos que bem entender, independentemente de os ter recebido. Dizem que Freud explica bem esta relação com o poder parental, sobretudo do lado da mãe, mas a mim, confesso, deixou‑me um pouco baralhado.

Agora, aos 40, de cada vez que a minha filha de 3 anos dispõe meticulosamente os bonecos numa fila indiana perfeita a ligar o quarto à casa de banho lembro‑me do meu pai a separar talões de compras. Não bastava ela ser fisicamente muito parecida comigo – eu preferia que tivesse herdado os olhos grandes e bonitos da mãe, em vez dos meus rasgados, que a fazem parecer que temos antepassados que vieram de Xangai – também é obsessiva com a ordem, tal como eu. Mas depois fico tranquilo quando ela os deixa desarrumados no meio do hall para ir lanchar ou ver desenhos animados. Ela e a irmã, quase com 2 anos, são ainda pequenas para percebermos se serão poupadas nas descrições ou, tal como o pai e a avó, se precisam de muitas palavras para se explicarem. O tempo e o cocktail genético com a família da mãe o dirão. Até lá, vou apreciando o espetáculo – e intervindo apenas quando uma se senta em cima da outra até lhe tirar o ar. É sinal de que deixam ali algum espaço para o improviso também.

[Publicado originalmente na edição de 15 de novembro de 2015]