Je suis Barcelona. Je suis Nice. Não sou Jacarta – e não há mal nenhum nisso

Naquela noite de quinta-feira, durante a sexta-feira, no fim de semana e nos primeiros dias da semana que se seguiu, vimos sem parar, num loop macabro a que não conseguimos fugir, as imagens do camião branco. Alguns terão conseguido desviar o olhar a tempo e mudar de canal no momento em que aquelas 19 toneladas que espalharam a morte no sul de França aceleraram novamente pela nossa casa adentro. Mas muitos, tantos, viram e voltarão a ver. Eu sou um desses. Vi na televisão e vi na internet. Vi os corpos tapados com toalhas e vi as imagens com objetos pessoais das vítimas no chão quente. Vi as manchas de sangue na roupa. Vi as imagens abusivas, intrusivas, invasoras, agoniantes que um canal de televisão passou por cá.

Na noite de 14 para 15 de julho de 2016 sonhei com Nice. Depois disso, imaginei-me vezes sem conta com as minhas filhas e a minha mulher em sítios cheios. Em carruagens de metro. Em aeroportos. Em aviões. Em esplanadas. Na rua. Em locais vulneráveis à mercê de um louco idiota ou de imbecis recrutados em nome de uma qualquer ideologia – ou apenas solitários perdidos e desenraizados à procura de palco para esvaziar a raiva contida. De então para cá, pensei no que faria se fosse eu. Se fossem os meus. E li e reli as histórias de quem virou à esquerda e sobreviveu e de quem virou à direita e viu a mulher ser atropelada e morrer.

Nos dias seguintes – até na própria noite – surgiram as inevitáveis comparações com outros atentados e ataques recentes que têm ceifado a vida a tanta gente. Não pelo número de vítimas, mas pela forma como as choramos e nos chocamos. Se acompanhamos com tanta atenção e sofremos com tanta dor os 84 mortos de Nice, dez dos quais crianças, porque não choramos também todos os outros, em locais menos badalados? Desde o famoso «Je suis Charlie» na sequência dos atentados ao jornal Charlie Hebdo em Paris, em janeiro do ano passado, que a pergunta é lançada em jeito de desafio, numa provocação que se percebe mas revela pouca reflexão e muito impulso: e agora, não somos todos Jacarta (12 mortos em janeiro de 2016)? Não somos Ouagadougou (29 mortos em janeiro)? Ancara (28 em fevereiro)? Bagdade (130 no início de julho)?

Não. Não somos. Eu não sou. E não há mal nenhum nisso. Não porque estas mortes valham menos do que as 129 de Paris de novembro de 2015, as 35 de Bruxelas de março de 2016, as 49 de Orlando de junho de 2016. Ou as de Munique. Ou o padre francês degolado em Rouen. São vítimas inocentes, deixam filhos, deixam pais, famílias enlutadas, vazios na vida de outras pessoas. Dores que nunca vão acalmar. Os mortos de Paris ou de Bruxelas (ou os de Madrid em 2004 ou de Londres em 2005) só me dizem mais porque é aqui que eu tenho gente que conheço. Que está em trânsito, de férias, em trabalho. Ou emigrou à procura de vida melhor. É aqui, por aqui, que eu já passei – pela Promenade des Anglais de Nice, pela estação de metro de Maelbeek, em Bruxelas, pela esplanada do A La Bonne Bière de Paris. Já estive em todos estes sítios. E em todos eles conheço gente.

E Ouagadougou? Bom, em Ouagadougou nunca estive. E não conheço lá ninguém. O que não torna aqueles crimes e aquelas mortes menos graves, apenas mais distantes do ponto de vista emocional. Ouagadougou está tão longe em distância e afectos para mim como um camião branco a esmagar pessoas na Côte d’Azur está para alguém que esteja em Jacarta. É recíproco. E é natural. Não é indiferença. É apenas distância afetiva.

Da próxima vez que vos perguntarem por que não são também Bagdade ou não choram os mortos de Qamishli, na Síria, talvez seja bom recorrer, por exemplo, a quem conseguiu explicar tão bem esta coisa da proximidade dos afetos na desgraça. Basta recuar um século e pouco. Ninguém terá descrito este mecanismo de forma tão sucinta e brilhante como Eça de Queirós. «Segundo a cruel lei física que regula os fenómenos da emoção, um empregado da Alfândega que caiu de um barco e desapareceu na baía do Rio de Janeiro vale, para o habitante do Rio, como mil pescadores despedaçados sobre os rochedos nas costas da Islândia», escreveu o autor em Cartas Familiares e Bilhetes de Paris.

Numa cruel e certeira descrição que faz de «uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, à luz do candeeiro (…) um jornal da tarde», Eça explica como ninguém essa natural atenção que nos deve quem nos está mais próximo. «”Na ilha de Java um terramoto destruíra vinte aldeias, matara duas mil pessoas…” (…) Ninguém comentou, sequer se interessou.» As notícias iam-se sucedendo. Quanto mais perto, menos graves, maior comoção. Do «que desgraça» seguido de bocejo pelas cheias na Hungria ao «Que horror… Pobre gente» pelos grevistas mortos na Bélgica. Os três mortos pelo trem descarrilado no Sul de França também provocaram reações, mas nada que chegasse àquele «Santo Deus!» «Solta um grito, leva as mãos à cabeça.» «Foi a Luísa Carneiro, da Bela Vista… Esta manhã! Desmanchou um pé! As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltrona; e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!»

«Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças na Bélgica, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações… Pudera! Todos conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro, dando à rua sombra e perfume.»

[Atualização (17 de Agosto de 2017): Hoje, ao ver as notícias das Ramblas de Barcelona, aqui tão perto, e do rasto de morte que ceifou 13 pessoas, voltei a pensar: «E se fosse eu? E se fossem os meus?»]

 

[Editado e aumentado (o título foi alterado). A versão original foi publicada a 24 de julho de 2016.]