Brasil. “Chorar sobre o óleo derramado”

Chorar sobre o óleo derramado
DR
Opinião de João Almeida Moreira, em São Paulo

 

É difícil encontrar um caso isolado em que incompetência do governo Bolsonaro se manifeste completamente. Mas o do óleo derramado no Nordeste, dos últimos dias, talvez consiga.

Aos factos: há dois meses, manchas de óleo invadiram as praias da região, um dos principais destinos turísticos do Brasil. A extensão da tragédia ultrapassa 2100 km do litoral brasileiro – a costa continental portuguesa é de 943 km – e atingiu 187 localidades de 77 municípios de nove estados. Falamos de mais de 900 toneladas de óleo.

Nos tais dois meses desde o início da tragédia ambiental, turística e económica, o governo não fez nada de útil para a combater. Perdeu apenas tempo a enquadrá-la, como enquadra tudo, dentro da sua limitada e bizarra maneira de ver o mundo.

Primeiro, Jair Bolsonaro fez-se fotografar, tal e qual um presidente norte-americano a meio de uma guerra, rodeado de militares medalhados numa reunião. Mas do encontro não resultou nada além de uma suspeição: o derramamento parece – talvez seja, supõe-se que seja, pode ser que seja – resultado da ação de um navio estrangeiro.

De que país? Da Venezuela, claro, porque Bolsonaro, qual Pavlov, sabe que basta mencionar o país de Maduro para as redes sociais comandadas pelos seus filhos e difundidas pelos seus robôs começarem a salivar – e esquecerem o essencial: resolver o problema.

Mais tarde, não contente em lançar a primeira suspeição, lançou uma segunda, porque é da saliva dos pitbull de internet que se alimenta o seu governo: o objetivo do derramamento, verbalizou Bolsonaro sem se rir, poderia – eventualmente, supostamente, alegadamente, provavelmente, hipoteticamente – ser uma tentativa de sabotar um mega-leilão de petróleo marcado para novembro no país.

Mais bolsonarista do que Bolsonaro, o ministro do ambiente Ricardo Salles, aquele que foi condenado por crime ambiental antes de ser convidado a integrar essa pasta no governo e que ficou tristemente célebre mundo afora no caso das queimadas da Amazônia, também é um campeão das “meias verdades” – para usar um eufemismo.

Depois de andar de helicóptero a sobrevoar as praias para a fotografia, publicou um vídeo de um porta-voz do Greenpeace a explicar porque a ONG não estava a ajudar na remoção do óleo. E comentou: “ah, ’tá”, como quem diz, “pois, pois”.

Sucede que o vídeo era editado, um método juvenil muito comum entre bolsonaristas para moldar a realidade à tal visão limitada e bizarra.

Salles, como de costume, acabou a levar uns valentes puxões de orelhas do Greenpeace, de parlamentares e de governadores dos estados afetados.

Por fim, a imprensa descobriu que o governo, na sua saga desvairada para reduzir o tamanho do estado, extinguiu por decreto presidencial em abril dois comités do “Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água” criados pelo governo de Dilma Rousseff.

A um comité, executivo, competia a elaboração de simulações e treinos de pessoal, além de manter recursos para a resposta à emergência. A outro, de suporte, indicar recursos humanos e materiais para ações de resposta a incidentes com óleo.

O caso do óleo nas praias nordestinos é, portanto, um caso paradigmático da incompetência do governo Bolsonaro porque inclui o passo número um – as fotografias pomposas para disfarçar o vazio – o passo número dois – apontar o dedo a inimigos imaginários – o passo número três – propagar boatos para sustentar o passo número dois – e o passo número quatro – dizimar qualquer órgão de estado com a mais leve relação com conhecimento, ciência ou dados porque conhecimento, ciência e dados são um perigo para a narrativa deste governo.

Como para o mais limitado e bizarro governo de que há memória, tudo é culpa de Marx, nada como lhe dedicar, novamente, uma frase… do Groucho. “A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todos os lados, diagnosticá-los incorretamente e aplicar as piores soluções”.