João Carlos Melo: “Dizer a uma pessoa que tem baixa autoestima ‘tens que ser forte’ pode ser muito doloroso”

O psiquiatra João Carlos Melo é autor do livro "Nascemos frágeis e recebemos ordens para sermos fortes" [Bertrand Editora]

Nascemos Frágeis e Recebemos Ordens para Sermos Fortes. O livro do psiquiatra, psicoterapeuta e grupanalista João Carlos Melo é um olhar sobre o narcisismo e a autoestima, que põe do outro lado da lupa a natureza humana, a evolução da espécie e a própria psiquiatria. Nós quisemos perceber como se constrói essa coisa fundamental que é a autoestima. E como a falta dela pode parecer um excesso.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

O ser humano, ao contrário dos outros animais, é totalmente dependente quando nasce e demora muito mais tempo a atingir a maturidade. Nascemos frágeis?

Sim. Há essas necessidades de ser cuidado enquanto bebé, senão não sobrevive, mas depois há outras necessidades muito específicas do ser humano, como a de ser especial para alguém. A necessidade humana de ser especial aos olhos dos pais, quando somos pequenos, e de outros, ao longo da vida, é tão profunda que vamos passar o resto da existência a procurar satisfazê-la, tanto mais, e às vezes de uma forma que não é muito saudável, quanto menos satisfeita essa necessidade foi de início. Nascemos frágeis nesse sentido.

É na infância e na adolescência que se alicerça a autoestima?

É sobretudo na infância que se forma a base, mas depois pode haver abalos, nomeadamente na adolescência, que é uma fase um bocadinho crítica porque pode dar para um lado ou para o outro. Uma criança que tem uma boa autoestima, mas durante a adolescência tem experiências difíceis, dolorosas, devido rejeições dos grupos ou amorosas, terá a autoestima afetada, mas passada essa fase, se tiver incentivos e reforços positivos, verá a confiança e a autoestima restauradas mais facilmente.

Ao longo da vida vão havendo apports que melhoram a autoestima, mas também situações que a ferem, portanto estamos sempre neste processo dinâmico de adaptação.

A autoestima é a base da nossa personalidade e da forma como nos relacionamos com os outros. Como se constrói?

Antes de nascermos. Parece estranho, mas não tem nada de esotérico. É neste sentido: quando um bebé ainda está na barriga da mãe, ela vai construindo fantasias em relação a ele, que quando tiver existência cá fora vão ser importantíssimas. Se for desejado, amado e especial aos olhos dos pais, o ambiente que o vai acolher fará dele uma criança confiante. Pelo contrário, há pessoas que têm uma autoestima tão baixa, e estou agora a pensar nos pais, que sentem que tudo o que é deles não tem valor e o que é dos outros é sempre melhor e mais importante e isto vai ser transmitido ao bebé.

Depois, os elogios, o reconhecimento da pessoa por aquilo que é, os estímulos positivos, tudo isto é importante para ir melhorando e consolidando a autoestima. Ao longo da vida vão havendo apports que melhoram a autoestima, mas também situações que a ferem, portanto estamos sempre neste processo dinâmico de adaptação, nunca é uma coisa fixa.

A autoestima depende mais do olhar dos outros do que de nós próprios?

Dizer a uma pessoa que tem uma baixa autoestima “tens que ser forte”, “tens que acreditar em ti” “tu consegues” pode ser muito doloroso, porque a pessoa sente que já se esforçou muito, esforçou-se mais do que toda a gente e não consegue. Não vejo as coisas de forma determinista, no sentido de que o que acontece quando somos crianças determina tudo de maneira irreversível, mas tem uma influência grande.

Se uma pessoa tem uma boa autoestima, ao longo da vida pode sofrer determinados ataques, mas não desmorona porque sabe o valor que tem, o valor intrínseco, ao passo que se tiver baixa autoestima, por muito que se esforce não consegue apropriar-se das suas qualidades, das suas competências e há coisas que não são fáceis de mudar.

Mas se eu acreditasse que não é possível mudá-las não tinha escolhido a psiquiatria, a psicoterapia e a grupanálise. Através das terapias analíticas pode haver uma reestruturação da forma como a pessoa se construiu e há mudanças estruturais que a pessoa vai fazendo. Não digo que mude tudo, mas há determinadas capacidades e estruturas psicológicas que melhoram.

Mais cedo ou mais tarde, os outros cansam-se [dos narcisistas] porque percebem que aquele indivíduo está em esforço, sempre a tentar mostrar que fez isto ou aquilo, sempre a impor-se, sempre a deitar os outros abaixo.

Os narcisistas são pessoas com uma baixa autoestima? Isto não é um paradoxo?

Há dois grandes mecanismos ou conjuntos de processos psicológicos de defesa para lidar com a baixa autoestima ou as feridas na autoestima. Um deles é a pessoa esconder-se, conformar-se àquilo que pensa que os outros esperam, sujeitar-se às opiniões dos outros, agradar, mesmo anulando a sua vontade própria. Trata-se de uma estratégia de submissão ou apelo a uma proteção, induzidas por um sentimento de inferioridade, para que a autoestima não seja ferida.

Existe outro grupo de defesas que é o oposto, a pessoa cria uma carapaça e ataca os outros para não ser atacada, precisa de ser o centro das atenções, diminui os outros, ataca-os nos pontos fracos, usa o poder que tem para ser bajulada e não ser contrariada, tudo isto para reforçar a autoestima. Estes são aqueles de quem se costuma dizer que têm uma personalidade muito forte ou que se impõem.

Alguém que tenha uma boa autoestima faz os outros sentirem-se bem. Tem carisma, sabe muito de determinado assunto, mas a forma como o transmite faz-nos sentir bem, ao passo que quem tem baixa autoestima dá a sensação que nos está a deitar abaixo, que só sobressai atirando os outros para a penumbra. São estratégias diferentes de gestão da baixa autoestima.

O que determina o recurso a uma estratégia ou a outra?

Tem que ver com características da personalidade e com uma série de competências cognitivas e relacionais. Mas também tem que ver com o temperamento, que é uma coisa com a qual nascemos. Há bebés que desde que nascem são mais ativos, apelam mais para os outros, começam a andar mais depressa, são mais reativos aos estímulos e portanto são mais ativos de uma maneira geral. Outros são calmos, entretêm-se sozinhos, são pessoas que ao longo da vida precisam de estar consigo próprios, não gostam muito de confusões, enquanto os primeiros precisam sempre de alguém quando estão sozinhos.

 

Os limites, o respeito pelos outros, o aprender a esperar, o aguentar as frustrações, tudo isto faz parte da vida e é essencial que façam parte da educação.

Uma baixa autoestima enxertada numa personalidade forte resulta então num narcisista. E porque é que estes, apesar da arrogância, da vaidade e da prepotência, exercem um fascínio tão grande?

O carisma exerce fascínio. Mas eu acho que quando é um verdadeiro carisma, quando a pessoa tem um brilho próprio e qualidades de liderança e isso é genuíno, atrai os outros e fá-los sentirem-se bem. Felizmente, há muitas pessoas assim, inspiradoras, que temos orgulho em conhecer e em ser seus amigos. Quando não é genuíno, como é o caso dos narcisistas, mais cedo ou mais tarde, os outros cansam-se porque percebem que aquele indivíduo está em esforço, sempre a tentar mostrar que fez isto ou aquilo, sempre a impor-se e isso é cansativo.

Mas o narcisismo também pode ter um papel positivo, de tempero para uma baixa autoestima, elevando-a e tornando-a funcional? A pulsão narcísica, se bem doseada, é importante?

É, tem que ver com os nossos mecanismos de defesa e adaptação. De uma forma muito automática, porque vamos aprendendo isso desde pequeninos, se alguém nos deita abaixo ou critica, arranjamos estratégias para lidar com isso, para evitar ou para compensar, desligando. São processos muito automáticos.

É possível fazer uma prevenção no que diz respeito à saúde mental infantil, no sentido de a tornar mais robusta?

Penso mesmo que sim, conhecendo bem cada criança, reconhecendo-a e aceitando-a como ela é, com as suas especificidades, dando apports positivos, elogios, reconhecimento do que faz bem. Isto é fundamental e não é nada de especial, mas se acontecesse sempre, seria extraordinário.

E não é preciso caldear isso com regras, nãos, treino de tolerância à frustração?

Completamente de acordo, porque senão estamos a criar pequenos monstrinhos, pequenos ditadores, que fazem o que querem.

Os tais narcisistas.

Isso mesmo, que se sentem no direito de ter toda a gente ao seu serviço. Os limites, o respeito pelos outros, o aprender a esperar, o aguentar as frustrações, tudo isto faz parte da vida e é essencial que façam parte da educação. Podemos concretizar aquilo que está ao nosso alcance, mas há coisas que não dependem de nós e portanto aprender a aceitar isso desde pequenos é importante. Harmonizar da melhor forma as duas coisas é o fundamental.

Relações artificiais através das redes sociais ou dos jogos são um dos fatores que indiretamente pode contribuir para um funcionamento narcísico.

A empatia é essencial. Neste momento debate-se a forma como as novas tecnologias e redes sociais e toda a sua lógica egocêntrica está a diminuir o desenvolvimento desta competência. Isto pode favorecer o narcisismo?

É difícil responder a essa pergunta porque o que determina o modo do funcionamento narcísico é complexo e depende de muitos fatores. Em jogos em que os miúdos estão em relação uns com os outros é mais fácil desenvolverem a empatia, a compaixão, a entreajuda, a competição, a partilha, a cooperação e tudo isto facilita modos de funcionamento que conduzem a um funcionamento narcísico saudável. Um miúdo que esteja muito fechado dentro de si faz não desenvolve a capacidade de perceber o impacto que o seu comportamento tem nas outras pessoas. Aprender com os outros, com os pais, com os amigos, com os colegas, com os filhos, quando somos pais, é essencial. Relações artificiais através das redes sociais ou dos jogos dificultam estas experiências, portanto penso que sim, será um dos fatores que indiretamente pode contribuir para um funcionamento narcísico.

Sabermos que por mais asneiras que façamos há sempre alguém que nos ama apesar delas e mesmo quando nos ralha é importante para uma boa autoestima?

É fundamental e se não é suficiente é porque há condições e situações difíceis de superar. Há pessoas que têm o amor dos outros e isso não lhes tira o sofrimento.