João da Silva: “Foi quando deixei de viver focado na morte que a vida mudou”

Venceu três cancros e contou a história no livro O Sofrimento Pode Esperar [ed. Porto Editora], um diário da doença, fez hemodiálise e um transplante renal, zangou-se, revoltou-se, teve avanços e retrocessos, conheceu gente que o transformou, transformou gente que o conheceu. Os últimos anos da vida do jornalista João da Silva têm sido uma grande viagem de descoberta que partilha no seu novo livro Quantas Vidas Temos? [ed. Coolbooks]. Quantas serão?

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Carlos Manuel Martins/Global Imagens

Há uns tempos entrevistei uma médica brasileira, especialista em cuidados paliativos – Ana Cláudia Arantes -, que contava que muitos pacientes lhe diziam que o cancro foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Alguma vez sentiu isso?

Sim, simplesmente porque antes do cancro eu não era a pessoa que sou hoje. Claro que preferia não ter passado por isso, mas de facto, tirando o sofrimento que me provocou a mim e aos que me são mais próximos, acabou por trazer-me muita coisa boa na vida. Ajudou-me a conhecer-me a mim próprio e trouxe-me imensas oportunidades. Eu era extremamente ansioso, vivia sempre na indefinição, sem saber o que queria, e o cancro trouxe-me uma calma que eu não tinha e uma tranquilidade que me ajudou a perceber o que queria fazer na vida.

Percebo, mas ao mesmo tempo é tão estranho.

Explica-se de forma simples. O cancro é uma doença imprevisível, não sabemos como vai ser o dia seguinte, como é que a doença vai evoluir e por isso vivemos sempre com medo, que mais não é do que uma resistência ao imprevisível. Foi quando deixei de viver focado na morte e na cura e passei focar-me no presente e no que tinha que tudo mudou. Parece um lugar comum, mas é isso mesmo. Viver com o foco no dia a dia, na minha família, no que podia fazer, porque em relação ao futuro pouco podia, mudou tudo.

E como é que isso acontece? No seu livro – Quantas Vidas Temos? – percebemos que passou por fases de zanga e revolta e vitimização. Agora, parece querer dizer às pessoas que o caminho não é por aí, porque não vai trazer nada de bom. Como se faz essa passagem?

Com a desilusão. Quando recebi o diagnóstico do cancro, não foi uma coisa brutalmente pesada para mim. Muito pesado foi tudo o que o antecedeu, os sintomas, as indecisões, a fraqueza, sentir-me mal sem saber o que tinha. Portanto, quando soube o que era, e isto até parece uma coisa esquisita, fiquei aliviado. E encarei a coisa de uma forma relativamente tranquila. Depois, com o avanço dos tratamentos, a coisa começou a tornar-se mais dura e complicada e foi então que tive esse momento de revolta e de vitimização.

E como é que saiu dele?

Hoje, tenho a noção de que temos que passar por diferentes processos. Quando recebemos um diagnóstico de cancro, é suposto ficarmos lixados. Felizmente, dei a volta e teve que ver com a desilusão e o perceber que não havia muito a fazer. Passei a viver de acordo com os tempos que a doença e os tratamentos me impunham, por exemplo, sabia que depois da quimioterapia precisava de quatro ou cinco dias até voltar à minha vida normal, e adaptei-me. Até porque depois tive que viver isso três vezes.

Esses avanços e retrocessos, que fazem parte do cancro e da vida, trouxeram-me a humildade de perceber que não vale a pena ter grandes expectativas. O grande mal, meu e da maioria das pessoas, é vivermos com demasiadas expectativas.

Mas, precisamente depois de ter vivido isso três vezes e ter sobrevivido, entrou naquilo a que no livro chama de arrogância parva. Sentia-se invencível?

Sim, foi sobretudo depois do primeiro cancro. Senti que se tinha vencido aquilo, que é uma palavra que hoje já não uso, porque não me faz sentido, era invulnerável. E fiz coisas parvas. Depois levei com o segundo, que foi um choque brutal. O dia seguinte é terrível, mas avancei e lidei muito melhor com a doença da segunda vez que e da terceira ainda melhor. Esses avanços e retrocessos, que fazem parte do cancro e da vida, trouxeram-me a humildade de perceber que não vale a pena ter grandes expectativas. O grande mal, meu e da maioria das pessoas, é vivermos com demasiadas expectativas.

Uma das coisas de que fala bastante é da ansiedade. Como é que alguém ansioso, que enfrenta o seu maior medo, que é o de morrer, lida com isso?

Quando estive a fazer tratamento para o cancro, tive acompanhamento psicológico e não correu particularmente bem. Portanto, lidei com isso ocupando o meu dia-a-dia com coisas de que gostava. Não sei explicar muito bem. Foi também o meu filho. Não conseguir ir jogar à bola com o miúdo custava-me muito e o esforço para o fazer, e conseguir fazê-lo, acabaram por me dar aquele sentimento de realização e de superação e isso dá-nos mais um bocadinho de amor-próprio e de autoconfiança. Muitas vezes perguntam-me se essa força interior foi fundamental na doença. Não faço ideia. Mas sei que foi fundamental para me sentir bem naquela altura. Dizem que sim, que o pensamento positivo é importante. Acho que é. Mas também não sou assim tão positivo, ou não sou lírico, pelo menos. Acho que sou realista.

Acredito que, se tentarmos ter uma vida ativa e saudável, mesmo quando estamos doentes, isso cria condições para que o corpo e a mente estejam mais fortes para lidar com a doença.

Acha que a força interior e a vontade são essenciais no processo terapêutico, para vencer a doença, mas não são o remédio. É isso que quer dizer quando diz que é realista?

É importante acreditarmos que conseguimos fazer as coisas que já fazíamos e continuar a fazê-las. Não sei se pensar “eu vou curar-me”e repeti-lo até à exaustão é determinante. Aquilo em que acredito é que dedicar-me às coisas de que gosto e ter uma vida saudável, com exercício físico e uma boa alimentação pode fazer a diferença. Acredito que, se tentarmos ter uma vida ativa e saudável, mesmo quando estamos doentes, isso cria condições para que o corpo e a mente estejam mais fortes para lidar com a doença. Tem que ver com usar a nossa energia para coisas boas e não para pensar na morte ou na doença. Não ficar focado na doença, nem alimentar o lamento e o sofrimento, porque se gastarmos as nossas energias todas nisso, vamos ficar tristes e deprimidos e não conseguimos cuidar de nós.

“Não se vitimize” é uma das mensagens centrais do seu livro. Porque é que tinha tanta necessidade de dizer isso?

Porque custa-me imenso ver e saber pessoas infelizes. Depois do lançamento do meu primeiro livro fui muito contactado por pessoas que ou tinham cancro ou tinham alguém doente na família ou tinham medo de ter ou simplesmente tinham problemas que queriam partilhar e senti-me quase no papel de um padre no confessionário, mas percebi que as pessoas queixavam-se muito, vitimizavam-se muito, estavam zangadas e tristes e isso tocou-me e achei que era importante ajudá-las a relativizar.

Qual era a resposta que dava?

Não gosto muito de alimentar queixumes. Tentava puxar pelo que houvesse de bom na vida das pessoas, porque há sempre alguma coisa de bom, nem que seja o facto de estarem vivas. Mas depois há quem esteja recetivo a ouvir e quem não esteja.

As pessoas aceitarem que alguém pode tratá-las mal porque está doente é triste, não faz sentido. Preferia que os meus pais me tivessem dito “não fales assim comigo, porque eu não tenho culpa que estejas doente”.

 

E o João, quando se vitimizava, qual era a resposta que encontrava?

Não foi uma fase muito longa, felizmente, mas era muito fácil fazê-lo com os meus pais, por exemplo, e da parte deles o que tinha era aceitação. E as pessoas aceitarem que alguém pode tratá-las mal porque está doente é uma coisa triste, que não faz sentido. Preferia que os meus pais me tivessem dito “não fales assim comigo, porque eu não tenho culpa que estejas doente”. Mal comparado, eu tento passar ao meu filho aquilo que sei e uma das coisas que mais procuro é fazê-lo aprender a lidar com a frustração. Quando estamos frustrados, normalmente atacamos quem está ao nosso lado, mas temos que aprender a dirigir a frustração, para nós próprios e teria sido ótimo que os meus pais tivessem feito isso comigo nessa altura. Não fizeram, é natural, sou filho. Mas o processo foi avançando e o meu mestre taoista, o Francisco, teve um papel fundamental.

Como?

Ajudou-me a aceitar a vida como ela é, com os ritmos da natureza. O taoismo aceita muito bem a doença e a morte. É curioso porque quando conheci o Francisco ia à espera de uma cura. Ele era médico, da medicina tradicional, depois foi para o Japão e acabou por enveredar por essa área e eu ia à espera que ele me receitasse alguma coisa, mas ele falava-me da alimentação, do exercício físico. Insistia com ele e ele ia-me ignorando, com muita calma, até que eu insisti mesmo: “vai receitar-me alguma coisa para eu tomar ou não?”. E ele respondeu: “sim, vais para casa, tomar conta de ti e da tua família, é isso que vais fazer”.

E o João?

Saí de lá revoltadíssimo, vitimizei-me ao máximo, “então, eu estou doentíssimo, nem de mim consigo cuidar e este tipo manda-me cuidar da minha família”, mas aquilo pesou-me, ficou-me na cabeça e percebi que as pessoas à minha volta não tinham culpa e estavam ali para me ajudar e eu não tinha que ser um coitadinho de quem os outros cuidavam. Quando percebi isso, deu-se uma mudança grande.

Foi a medicina tradicional que me salvou, mas nunca fui de não fazer perguntas. Falei com muitos médicos e o que percebi foi que as pessoas não questionam, ainda hoje, por mais instruídas que sejam, continuam a agir como a velhinha da aldeia para quem o que o senhor doutor diz é lei.

Uma doença como o cancro leva as pessoas a agarrarem-se a tudo o que for para se sentirem melhor e encontrarem uma cura e isso leva-as a procurarem medicinas alternativas. Como encara isso?

É preciso ter muito cuidado, sobretudo na gestão das expectativas. Há uma série de técnicas ou práticas que podem ajudar no tratamento. Houve um médico que foi responsável pelo meu autotransplante, o Dr. Leal da Costa, que me disse uma coisa que não esqueci. A certa altura fui a um médico de medicina tradicional chinesa que me receitou um produto para elevar as minhas defesas antes de fazer o transplante e quando me apresentei para o fazer comuniquei ao Dr. Leal da Costa o que tinha feito e ele disse-me que pelas análises mal não fez, só fez foi bem e por ele não havia medicina tradicional chinesa ou alternativa ou o que fosse, “toda a medicina é boa desde que trate o doente”, disse ele. Agora, é preciso ter cuidado com essas coisas, porque a esmagadora maioria delas não foram testadas e podem ser tóxicas e é muito importante que as pessoas tenham essa noção. Há quem compre remédios na internet e vá a charlatães e em relação a isso sou completamente contra. É fundamental ter aconselhamento médico.

A sua relação com os médicos como era? No livro, transparece alguma resistência…

Não houve resistência, foi a medicina tradicional que me salvou, mas nunca fui de não fazer perguntas. Falei com muitos médicos e o que percebi foi que as pessoas não conversam, não questionam, ainda hoje, por mais instruídas que sejam, continuam a agir como a velhinha da aldeia para quem o que o senhor doutor diz é lei. A troca de impressões com os médicos é muito importante e tive vários médicos que me propunham um tratamento, mas diziam que eu podia e devia pedir uma segunda opinião. E também é importante educar alguns médicos quanto à forma como falam com o doente.

É doloroso sentir na pele o que é a discriminação, até ao momento em que deixas de dar importância, em que passas a ignorar.

A empatia é fundamental. Uma das coisas que me impressionou no seu livro, e que não trata de empatia, mas falta dela, foi a questão da discriminação. Conta alguns episódios em que isso lhe aconteceu. Como é que se lida com isso? Nunca teve vontade de confrontar as pessoas?

Eu confrontava, olhando fixamente, porque não há nada mais forte do que o olhar. Era a minha forma de me sentir normal, fazia-me sentir forte olhar nos olhos das pessoas, apesar de elas olharem para mim de forma diferente, para que percebessem que era mau o que estavam a fazer. É doloroso sentir na pele o que é a discriminação, até ao momento em que deixas de dar importância, em que passas a ignorar.

No seu círculo de amigos, família, colegas de trabalho…

Houve também. E na altura havia um peso, uma coisa que me perseguia e que estava cá dentro. Sentir-me pouco acompanhado ou desprezado por muitos amigos, que se afastaram nessa fase, ou magoado por alguns comentários depreciativos em relação ao aspeto, ou pela cara que faziam, porque havia quem não dissesse nada, mas fizesse uma cara, e a cara é tudo. Parece que às vezes as pessoas não têm muita noção do que estão a fazer.

As pessoas têm medo da palavra cancro. Há poucos homens a escrever sobre cancro, muito menos sobre cancro do testículo… Não me importava de receber algum dinheiro por cada vez que me perguntaram se me sentia diminuído como homem por ter ficado sem um testículo.

O que acha que acontece aí? Será o medo de encarar?

Na altura lembro-me de pensar: “têm medo que isto se pegue? Isto não se pega”. Se têm medo de enfrentar esta realidade? Sim. E hoje para mim é isso. Não digo que perdoei porque não havia nada a perdoar ou deixar de perdoar, mas aceitei-os todos de volta. Foi uma coisa que desapareceu, não trago nada às costas, mas olhando para trás sei que é isso: o receio que as pessoas têm de enfrentar porque projetam. Em relação ao primeiro livro, que era um diário do cancro, sei que a editora tinha enormes expectativas, que talvez não tenham sido totalmente cumpridas. Porquê? Porque as pessoas têm medo da palavra cancro. Há poucos homens a escrever sobre cancro, muito menos sobre cancro do testículo… Não me importava de receber algum dinheiro por cada vez que me perguntaram se eu me sentia diminuído como homem por ter ficado sem um testículo.

Que disparate.

Dúzias e dúzias de vezes que me perguntaram isso. Mas também foram muitos os homens que me vieram perguntar em surdina pelos sinais e sintomas. O meu médico, o professor Passos Coelho falava muitas vezes na quantidade de chatices que podiam evitar-se se o médico apalpasse o testículo ao paciente e não apalpa, os próprios médicos continuam a ter pudor em fazê-lo, o que é, isso sim, um disparate.

Hoje não acredito em deus. Acredito na empatia entre as pessoas, acredito que podemos fazer muito bem uns aos outros, acredito no amor.

A culpa surge muitas vezes nestes processos de doença sobretudo quando se trata de cancro. Sentiu-a?

Sim. Essa é a parte mais densa disto tudo e tive que lidar com isso a fundo. Primeiro, porque acreditava profundamente que alguns erros que cometi na adolescência e início da idade adulta tiveram que ver com o facto de estar doente. Pedi perdão a todas as pessoas a quem achava que tinha feito mal. Tem muito que ver com acreditar em deus.

Acredita?

Acredito que é uma construção do ser humano, construído à nossa imagem e semelhança. Atribuimos-lhe características humanas, como a vingança e o castigo e foi isso que senti, da primeira vez que fiquei doente, que estava a ser castigado. Da segunda, já não, senti que nada daquilo fazia sentido, era só biológico e a ideia de deus ou de que alguém que me está a castigar ou me vai ajudar desapareceu totalmente. Hoje não acredito em deus. Acredito na empatia entre as pessoas, acredito que podemos fazer muito bem uns aos outros, acredito no amor. E depois acredito, sim, que há coincidências e milagres, que não se explicam.

É tão triste pensar nas pessoas que vivem a vida toda infelizes sem fazer nada para mudar o que as faz infelizes.

Hoje continua a trabalhar em jornalismo automóvel, mas também escreve livros e faz palestras. Sente que pode fazer a diferença na vida de outros?

A ideia das palestras surgiu depois do primeiro livro e por causa das pessoas que me contactaram. Senti que procuravam uma palavra, que era importante para elas a partilha das histórias, e a mensagem deste novo livro e das palestras é essa: a de que é possível dar a volta, ter uma nova vida, reinventarmo-nos. Daí o título: Quantas vidas temos? Temos muitas. O que quero é levar as pessoas a refletirem sobre as próprias vidas e a tirarem conclusões, não é dar dicas sobre como ter uma vida melhor.

Temos muitas vidas, mas só temos uma, não é? É importante aproveitá-la.

Biologicamente, só temos uma, é importante aproveitá-la, e para isso é essencial perceber que numa vida podemos ter muitas. Quando tudo corre mal e a vida está uma merda, se calhar outra virá. É preciso é ter coragem para mudar. É tão triste pensar nas pessoas que vivem a vida toda infelizes sem fazer nada para mudar o que as faz infelizes. É terrível e eu não sou capaz de ficar indiferente a isso e por isso queria que este livro fosse um alerta para isso.