João Lourenço: «Minta, minta, minta e é assim que é feliz», dizia no outro dia uma senhora do público

A certa altura, na peça A Mentira, em cena no Teatro Aberto, Miguel pergunta ao público o que fazer: mentir ou dizer a verdade? As reações têm sido, nestes quatro meses, um espanto e um deslumbramento para o encenador João Lourenço, que não sabemos se mente ou se diz a verdade na entrevista que nos dá hoje, 1 de abril, dia da mentira e de todos os mentirosos.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

É quase uma catarse, diz Lourenço, sobre as reações do público aos dois espetáculos que tem em cena desde dezembro. Depois do sucesso de O Pai, com João Perry, voltou ao francês Florian Zeller, um jovem e «talentoso» autor francês, desta vez em dose dupla, com Miguel Guilherme, Joana Brandão, Paulo Pires e Patrícia André a discutirem os limites (ou a falta deles) de A Mentira e A Verdade, para mais quatro meses de casa cheia, que «forçaram» o prolongamento dos espetáculos até 14 de abril.

Em A Mentira Miguel [Guilherme] e Joana [Brandão] são protagonistas e discutem o dever, utilidade e importância de revelar a verdade ou viver na mentira. Isto a propósito de uma traição de Paulo [Pires] a Patrícia [André], casal amigo, supostamente testemunhada por Joana.

Em A Verdade, Paulo, que é casado com Joana, tem um caso com Patrícia, mulher do seu melhor amigo Miguel e a trama passa-se em torno da culpa (ou não), assim como do sentido (ou não) desta traição. A mentira ao vivo, a cores e em direto protagonizada desta feita por Paulo e Patrícia, num cenário dos anos 1950, com telefones analógicos e fumo de cigarro.

João Lourenço é o diretor e encenador do Teatro Aberto, em Lisboa.

A Mentira e A Verdade são ambas sobre a mentira. A verdade é impossível?

Eu já conhecia A Mentira, que é a mais recente, de 2014, e, quando tive a ideia de voltar ao Florian Zeller, fui ler A Verdade e pensei que, se levasse as duas peças à cena ao mesmo tempo, teria um caleidoscópio maior de situações de mentira. O que me interessa aqui é mostrar como mentimos, como omitimos, mas isso também é mentir, como insistimos na mentira.

Ensinam-nos, desde que nascemos, não digas isto, não digas aquilo, diz à tua avó que é assim, diz ao teu avô que é assado, não digas ao pai que eu te perguntei pela senhora com quem ele vive e por aí fora. Aquele momento, na Mentira, quando o Miguel começa a falar com o público e a perguntar o que deve fazer, que é meu e da Vera [San Payo de Lemos, dramaturgista], não está no original, também mostra isso.

Mostra como?

Os dois espetáculos são sobre a mentira onde dói mais, que é no casal. É daí que vimos, vimos todos dessas relações desde que o mundo é mundo. E, ao mostrar as relações entre casais e as mentiras que envolvem, estou a tocar muitas pessoas, que é o que me interessa. E estou a tocar de uma maneira engraçada.

Às vezes saem daqui em grande silêncio, devem ir para o carro caladinhos, mas tenho visto reações extraordinárias, quando o Miguel faz a pergunta. É pena não termos gravado. Outro dia uma senhora, com o marido ao lado, dizia, com raiva, minta, minta, minta e é assim que é feliz. Deve ter havido bronca [ri]. Têm sucedido aqui coisas muito interessantes, as pessoas sentem-se envolvidas.

É engraçado, dia 1 de abril não se faz espetáculo, mas é uma boa data para convidar as pessoas a virem ver pedaços da sua vida. Passa-se aqui pedaços da vida das pessoas.

Acha que as pessoas se reveem?

Mesmo que revejam, muitas não o reconhecem, nem a si próprias, o que é outra questão: mentimos e enganamo-nos a nós próprios, mas acho que sim, que muita gente vê que aquilo lhe sucedeu, mas eu não gosto de peças com finais fechados, gosto de deixar o desfecho em aberto, as pessoas levam o que quiserem.

É engraçado, dia 1 de abril não se faz espetáculo, mas é uma boa data para convidar as pessoas a virem ver pedaços da sua vida. Passa-se aqui pedaços da vida das pessoas.

Acha que essa é uma das razões para o sucesso, que levou a prolongar a temporada até 14 de abril?

Acho que sim. É uma catarse. E é divertido. Estou muito contente com as peças.

Uma das cenas de A Verdade que desperta uma reação mais forte é a do Paulo, que tanto mentiu e depois quando descobre que lhe mentem fica incrédulo e ofendidíssimo. É preciso ter lata.

[Ri] Pois. É um extremo. É aquele tipo de pessoas que mente sempre, mente, mente, mente. Se está com alguém na cama e a mulher entra, arranja uma desculpa. Mas não admite ser enganado. Ninguém gosta de ser enganado, não é?

A verdade e a mentira são relativas?

Sim, têm que ver com aquele que as diz. Há quem esteja a mentir e acredite nas próprias mentiras, há quem se desculpe como o altruísmo, mentem para não magoar o outro. Há o tal caleidoscópio.

Nas relações em que homem e mulher mentem, há uma diferença: o homem mente muito pior e a mulher percebe logo. Não há nada a fazer, não sei justificar o porquê, mas é assim. O homem tem a mania da compensação – começa a beijar mais, faz uma festa que não é costume – e aí é que estraga tudo porque elas percebem logo.

Eu disse aos atores: vocês têm que representar da maneira mais verdadeira possível. O ator define-se pela verdade que dá em palco. Seja quem for o autor, de Shakespeare até este, a verdade acima de tudo. E os olhos, os olhos têm que ser verdadeiros.

As verdadeiras máscaras são as da vida real, que temos que ter porque temos que nos dar com os outro.

Isso quer dizer o quê? Representar não é mentir?

Quer dizer o ator sentir que o que o personagem está a dizer é o que pensa, é encarnar a personagem, ser ela quando está em palco. É a verdade dele. É isso que define um bom ator. Nós, quando mentimos, tentamos que a outra pessoa acredite, estamos a ser o mais verdadeiros possível. Portanto, pedi-lhes que mentissem uns aos outros como se estivessem a dirigir-se ao público a tentar convencê-lo de que é verdade, porque é assim que as pessoas mentem, com o máximo de verdade possível.

Irrita-me quando, no futebol, dizem: «está a fazer teatro», porque eu acho que no teatro o bom ator é mais verdadeiro do que quando é ele próprio na vida real. Na vida real não, está a dar uma entrevista e tem que parecer bem, dizer o que lhe convém [ri].

Atuamos de maneiras diferentes, de acordo com o contexto e a circunstância, todos fazemos isso. Estamos sempre a mentir um bocadinho, nas coisas mais simples, porque nos convém a nós, porque gostamos do outro e não queremos magoá-lo, pelas mais variadas razões.

E quando se está em palco?

Quando estamos em palco escusamo-nos disso, podemos ir àquele papel seja qual for a personagem e podemos dar a nossa verdade toda. As verdadeiras máscaras são as da vida real, que temos que ter porque temos que nos dar com os outros e, se formos dizer a verdade, isso torna-se impossível. Se as pessoas dissessem a verdade toda umas às outras sempre, não havia casais na Terra.

Ao fazermos as versões, era uma complicação com os nomes, por isso demos os nomes dos atores para nos orientarmos, mas, à medida que íamos trabalhando, achámos que era mais uma mentira que acrescentava às peças e deixámos assim.

Isso não é uma visão desencantada das relações e do amor?

Não, porque eu acho que as pessoas podem ser felizes assim. E devem ter o direito de se separar e viver outras vidas. Mentir faz parte. Acha que é desencantado? Eu não. Viver com outra pessoa é muito difícil, contando tudo, então, mais ainda… as pessoas têm o direito à felicidade e, portanto, se vê que pode ir procurar a felicidade a outro lado, deve tentar. Às vezes conseguem. Mostrar isto não é desencanto. Embora eu ache que a verdade, verdade, não existe, esta deve sempre ser procurada, como a felicidade.

Os finais deixam isso em aberto.

Sim. Os meus finais fazem sempre isso.

Porque é que os a personagens têm o mesmo nome que os atores?

Isso não nasceu logo. Eu e a Vera [San Payo de Lemos], ao fazermos as versões, era uma complicação com os nomes, dois eram protagonistas numa, dois eram protagonistas noutra e então demos os nomes dos atores para nos orientarmos.

Mas, depois, à medida que íamos trabalhando nas duas peças, aquilo assentava bem e pensámos que era mais uma mentira, achámos que acrescentava eles terem os próprios nomes, representarem um personagem que não são eles, mas com os nomes deles. Decidimos deixar assim. Faz as pessoas pensarem. O Paulo fará aquilo? [dá uma gargalhada ] Foi uma maldade minha e da Vera.

E como foi o desafio de encenar duas peças ao mesmo tempo?

O teatro para mim nunca é repetição porque o público é diferente todas as noites. Nós somos dos poucos que fazem uma carreira de três meses. Distanciei-as o mais possível, A Mentira passa-se agora, A Verdade nos anos 1950, porque é uma década de que eu gosto muito, tem imenso glamour, é rica em acontecimentos contraditórios, que projetamos no início para situar o público.

A Mentira, no original, passa-se numa sala só, não há escritório nem quarto, mas eu decidi fazer um cenário rotativo com três instalações que é uma sala, um quarto e um escritório, como se fossem uma instalação dentro de uma galeria com quadros da mentira e da verdade e que o público é convidado a visitar no início. Estou a tentar mostrar a mentira, estou a tentar que as pessoas a vejam melhor. Julguei que seria mais difícil. O fim, com aquela meia dança em que passam uns para os outros, é no fundo o que acontece atualmente. Hoje “dança-se” muito mais. As pessoas têm o direito de procurar a felicidade, mas às vezes também podiam esforçar-se um bocadinho mais, não é?