Jorge Jesus: o que é que o ruço tem?

Jorge Jesus a treinar o Flamengo, do Rio de Janeiro, pode conquistar a Taça dos Libertadores no próxima sábado dia 23 de novembro.

Tem um palmarés invejável, mas nem só de vitórias se alimenta a lenda de Jorge Jesus. Idolatrado pelos adeptos do Flamengo, seu atual clube, o treinador, um dos homens mais caricaturados em Portugal, continua a ser o puto reguila da Amadora, que fugia de casa para jogar à bola.

Texto de Maria João Martins

A segunda melhor “coisa” que Portugal enviou ao Brasil desde Carmen Miranda: será assim que pensam muitos torcedores do Clube de Regatas do Flamengo quando se referem ao treinador português Jorge Jesus, que devolveu ao clube carioca o sabor das vitórias.

Entre esses torcedores entusiastas conta-se Neguinho do Beija-Flor, um dos nomes mais conhecidos do samba moderno, que adaptou o seu tema “Obrigado, Jesus” para homenagear o mister que chegou do outro lado do Atlântico.

Mas o que é que o português tem? A que se deve a popularidade com gosto a idolatria de que goza no Rio de Janeiro, alguns meses depois da sua chegada? Jorge Jesus, sabemos, não é bonito como Jürgen Klopp, requintado como Pep Guardiola ou calculista como José Mourinho, mas tem um carisma muito próprio a que ninguém fica indiferente. Se o futebol vive tanto de resultados como de lendas de autossuperação, Jesus triunfa também pela aura de rapaz pobre que venceu na vida à custa de sacrifícios e determinação. Que outra história falaria mais alto aos corações brasileiros?

Um reguila da Amadora

Nascido na Amadora a 24 de julho de 1954, Jorge Fernando Pinheiro de Jesus traz o futebol no sangue. O pai, Virgolino de Jesus, chegou a jogar no Sporting entre 1943 e 1949, na época dourada dos Cinco Violinos. Embora nunca se tivesse profissionalizado (como tantos nomes grandes dessa época, Virgolino acumulava o futebol com o emprego numa fábrica), transmitiu aos filhos a paixão que o movia. O mesmo se pode dizer do avô paterno, adepto do Vitória de Setúbal, que, de tão emocionado, morreu de ataque cardíaco no Estádio do Jamor, quando o seu clube enfrentava a Académica na final da Taça de Portugal 1966-1967.

Jorge Jesus nos tempos como jogador do Estrela da Amadora. (Arquivo DN)

Puto reguila (conhecido na rua dele pelo ruço), fugia de casa para jogar à bola, em longos desafios que terminavam quando ele queria (ou a mãe chamava) porque, como admitiria mais tarde, era ele o “dono da bola”. Desses anos em que ainda não sonhava com o futebol profissional, quanto mais com o estrelato, guarda, sem complexos, a linguagem de bairro (“muita”, “numaro”, “bora”) que, a par das chicletes, se tornou uma das suas imagens de marca.

Criado sem fome, mas com dificuldades, numa família em que os pais, Virgolino e Maria Elisa, educaram três filhos próprios e outras três crianças, Jorge Jesus salienta frequentemente, nas poucas vezes em que fala da vida pessoal, o valor desse exemplo de partilha. Já treinador principal dos dois grandes de Lisboa (o que fez dele uma figura nacional), era frequentemente visto numa pastelaria da Venda Nova (freguesia limítrofe da Amadora, junto às Portas de Benfica) na companhia de irmãos e sobrinhos. “Tive três filhos, mas gostaria de ter tido o dobro. Sou um homem de família”, confessou a Daniel Oliveira no programa Alta Definição.

Avesso à escola, seguiu o caminho que as famílias destinavam a rapazes pouco estudiosos: a fábrica. Aí, aprendeu os ofícios de soldador e torneiro mecânico (a tal ponto foi bem instruído que, muitos anos depois, estando a orientar um treino do Benfica, Jesus correu a ajudar um soldador que estava em dificuldades na colocação de um painel publicitário), mas o futebol continuava a aliciá-lo.

De futebolista sem brilho a treinador campeão

Jorge Jesus iniciou a carreira como jogador de futebol, ingressando nos juniores do Estrela da Amadora na época 1970-71. Representaria ainda equipas da I Divisão como Belenenses, União de Leiria, Vitória de Setúbal, Farense e Sporting (entre 1973 e 1976). Passou igualmente por equipas da II Divisão como o Estrela da Amadora (agora na equipa principal), Riopele e Juventude de Évora. Aos 35 anos, prestes a terminar a carreira, Jesus está no modesto Almancilense da III Divisão. O futuro parece sombrio. E no entanto…

Em 2000, como treinador do Vitória de Setúbal, num jogo contra a Académica de Coimbra.

… E no entanto, em certo domingo, em pleno jogo a contar para a série F do campeonato da III Divisão, houve alguém que reparou naquele médio já entradote que mais parecia o dono da bola. O Amora estava a golear o Almancilense por 3-0, mas ao intervalo o médio Jorge Jesus entrou e revolucionou a estratégia da equipa algarvia, que empatou por 3-3 e só não ganhou porque um defesa do Amora retirou a bola em cima da linha de golo. No final de tão atribulado desafio, os dirigentes do Amora decidiram convidar Jesus para treinar o seu clube. Depois de alguns dias de reflexão, aceitou o convite. Manteve-se no Amora até 1993.

Não foi um percurso fácil: em pouco mais de dez anos, Jorge Jesus passará pelo Felgueiras (onde o cancro que vitimaria a mãe, Maria Elisa, a quem era especialmente dedicado, o sujeitará a uma pressão adicional), União da Madeira, Estrela da Amadora, Vitória de Setúbal, Vitória de Guimarães, Moreirense e União de Leiria. Aos poucos, vai dando nas vistas mas parece destinado a treinar com competência “clubes de meio da tabela”. No entanto, em 2006, chega ao carismático Belenenses e daí vai para o Sporting de Braga, onde em 2008-2009 faz uma carreira excecional. Com alguma insistência começa a falar-se de Jorge Jesus como futuro treinador do Benfica, o que se concretizará a 15 de junho de 2009.

A “cadeira de sonho” não o mudou. A dimensão do clube da Luz tê-lo-á impressionado, mas não o levou a alterar atitudes nem a mudar a personalidade. Continuou o mesmo reguila de sempre, o homem que, ao treinar o Belenenses, interrompeu um ensaio do rapper 50 Cent porque a “barulheira” o impedia de trabalhar. Sobre as “calinadas” que distribuía alegremente nas conferências de imprensa e flash interviews, retorquia simplesmente: “Sou treinador de futebol. Não sou o Eça de Queirós.”

A 11 de maio de 2013, no Estádio do Dragão, o Benfica perderá o campeonato, que liderara durante várias jornadas, para o rival Futebol Clube do Porto ao minuto 92. Incapaz de disfarçar a desilusão, o treinador do Benfica cai de joelhos. (Arquivo DN)

No Benfica, Jorge Jesus conheceu a vitória, mas também a mais amarga derrota. A 11 de maio de 2013, no Estádio do Dragão, o Benfica perderá o campeonato, que liderara durante várias jornadas, para o rival Futebol Clube do Porto ao minuto 92. Incapaz de disfarçar a desilusão, o treinador do Benfica cairá de joelhos, aniquilado. Nessa época, o Benfica sairá derrotado em todas as frentes.

Neste cenário, que lhe valeu muita contestação, Jorge Jesus poderia ter saído cabisbaixo, mas acabaria por revelar a capacidade de renascer das cinzas que faz parte da sua lenda. Manteve-se no comando técnico do Benfica e, na época seguinte, conseguiu o único triplete da história do clube: Campeonato, Taça de Portugal e Taça da Liga.
Esta resiliência permitir-lhe-ia manter a cabeça fria, quando a troca do comando técnico do Benfica pelo do arquirrival Sporting, em maio de 2015, o transforma em Judas reencarnado aos olhos de milhões de adeptos. E ainda quando, em junho de 2018, depois do incidente do ataque à Academia do Sporting, deixou o clube e rumou à Arábia Saudita, para treinar o Al-Hilal. Muitos, considerando o Médio Oriente um deserto futebolístico onde os treinadores vão morrer milionários, anunciaram-lhe um final de carreira sem glória. Logo ele, que sempre se recusara a emigrar, dizia-se, vira-se forçado a trocar Portugal por paragens tão longínquas, na geografia e nos hábitos.

Quando em junho deste ano se anunciou a sua ida para o Flamengo, poucos lhe imaginariam tamanho sucesso. Em menos de seis meses, Jesus inspirou um samba e recebeu, no balneário, a visita de Zico, o mítico internacional brasileiro. Aos 65 anos, o ruço continua a ser o dono da bola.