Na escola do futuro “são os alunos que vão à procura do conhecimento”

Jorge Rio Cardoso é conselheiro de educação em várias escolas do país e dá aulas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Em 2015, venceu o Prémio Empreendedorismo do Lions Internacional no campo da educação e em 2017 o Prémio Cultura da Royal Awards.

Uma sala de aulas em “U” com várias ilhas de trabalho, onde cada aluno tem um tablet e uma cadeira com rodas que lhe permita uma deslocação ágil. E há outros elementos tecnológicos como câmaras de filmar ou um ecrã gigante. Aqui, os protagonistas são os alunos, são eles que produzem o seu próprio conhecimento em equipa e o mais importante são os valores, os comportamentos, a cidadania. Esta é a proposta para a escola do futuro criada pelo professor universitário Jorge Rio Cardoso no seu mais recente livro Uma nova escola para Portugal, lançado esta terça-feira pela Guerra e Paz, Editores.

Texto de Rita Rato Nunes | Fotografia de Filipe Amorim/Global Imagens

Como é que esta nova escola funcionaria na prática? Toca a campainha e…

Começa logo aí… pode acabar-se com a campainha. Aqui [encontramo-nos no gabinete do professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa], não há campainha e os alunos chegam a horas. A campainha é mais um motivo de stress e uma das coisas de que falo no livro é que devemos estar atentos às emoções dos alunos. Eu acredito muito numa escola que treine as emoções.

Quanto à sala de aula do futuro, não é barata. Cada aluno tem necessariamente um tablet (há pessoas mais antigas a quem isto vai fazer confusão, mas é assim que vamos trabalhar no futuro) e tudo o que o aluno faz o professor está a ver. A Mariana acaba de fazer uma coisa e imediatamente aparece no quadro o que ela esteve a fazer para os outros verem.

A sala tem vários contextos; tem uns de investigação, outros de reunião. Hoje, as salas são uma espécie de assembleias, os alunos estão de costas uns para os outros, não há diálogo e há uns que desligam. Uma configuração possível é em “U” e o ideal é que a cadeira tenha umas rodinhas para que eles se mexam melhor dentro da sala de aula.

Às vezes, há a ideia de que o ensino tem de ser aborrecido, mas nós quando estamos divertidos somos muito mais produtivos.

Há ainda um ecrã gigante e eventualmente há uma câmara para eles poderem fazer de youtubers, filmando-se. Vão à procura do conhecimento, o que para eles se torna muito aliciante.

Às vezes, há a ideia de que o ensino tem de ser aborrecido. E, portanto, se o aluno não vem de lá [da escola] aborrecido ou cansado é porque não aprendeu. Nós quando estamos divertidos somos muito mais produtivos. Com sondagens, com quizzes, num contexto de passatempos ou de concursos, podemos chegar mais depressa ao conhecimento. Os alunos não aprendem todos da mesma maneira; uns aprendem mais a ouvir, outros a fazer. Se eu quero ensinar só de uma maneira, vou apanhar um conjunto de alunos, mas depois perco outros.

Eu penso que o modelo do futuro passará por criar um elo privilegiado entre o professor e o aluno em que o conhecimento fica para depois. Até porque esse conhecimento mais tarde ou mais cedo vai ficar desatualizado. Interessa-me mais um indivíduo que saiba pensar do que um indivíduo que tenha a cabeça cheia de conhecimentos que não sabe usar muito bem.

A escola do futuro que o professor Jorge Rio Cardoso imaginou no seu mais recente livro, as salas de aula serão substancialmente diferentes das atuais. O modelo expositivo será abandonado.

Quando os alunos se estão a divertir pode haver mais propensão a excessos?

Não, porque é aí que nós, professores, metemos água na fervura. Nós temos de controlar.

A avaliação também deve ter em consideração competências como a empatia, o trabalho em equipa ou a inteligência emocional. Não é só o conhecimento.

O que é um bom aluno no modelo de escola que propõe?

Um bom aluno não é aquele que só tem boas notas. É aquele que tem respeito pelos outros, é solidário. É perfeitamente compatível um aluno ter 20 valores e ser um egoísta. Vamos supor que um dia um bom médico, que teve muito boas notas, tem de comunicar a alguém que tem uma doença fatal e comunica de forma completamente desajustada. Em todas as profissões é necessário as pessoas saberem trabalhar em equipa, terem empatia e conseguirem reunir consensos. Tem muito que ver com a inteligência emocional.

Na realidade, hoje o ensino é muito competitivo. O [aluno] que tem 15,5 acha-se muito superior ao que tem 15. Mas nas organizações, nas instituições e nas empresas é necessário o modelo da cooperação, é preciso falar, trocar impressões, remar para o mesmo lado.

E no futuro que lugar têm as classificações?

As classificações podem lá estar. O que eu digo é que na avaliação também devíamos ter em consideração todas estas competências que referi. Não é só o conhecimento.

Eu faço todos os anos centenas de palestras pelo país e vejo que os jovens estão desmotivados, mesmo os que têm boas notas.

Escreveu que “o modelo escolar atual está obsoleto”. Porquê?

Está obsoleto porque põe o aluno sentado a ouvir e este não é o centro das aprendizagens. Ou seja, é ainda um modelo expositivo em que os alunos precisam de muita concentração para que funcione.

É por isso que se fala cada vez mais na medicação dos alunos que não têm concentração. A maioria deles são chamados hiperativos, mas eu acho que são falsos hiperativos no sentido clínico do termo.

Os pais sacrificam tudo para que eles tenham melhores notas e claro que se forem medicados têm melhores notas, mas eu acho que o objetivo não é esse; não é apenas o conhecimento, é também terem atitudes, valores, trabalharem em equipa, criarem empatia, porque isso vai ser fundamental um dia na sua profissão e naquilo que será a cidadania.

A escola é hoje mais desmotivante do que há uns anos, quando tinha aulas, por exemplo?

Talvez não seja mais desmotivante, mas ainda é pouco motivante, sem dúvida. Eu faço todos os anos centenas de palestras pelo país e vejo que os jovens estão desmotivados, mesmo os que têm boas notas. Aquilo para eles é uma espécie de trabalho forçado. O ensino põe muita pressão sobre os alunos e eles não se sentem muito representados.

Às vezes perguntam-me: “como é que eu o motivo para a escola?”. E eu respondo: “Mais vale começar a motivá-lo para a vida. Porque a escola está dentro da vida”

Enquanto professor universitário, considera que atualmente os alunos chegam ao ensino superior preparados?

Não me queixo da preparação com que vêm em termos de conhecimentos, mas muitas vezes em termos de atitude nota-se algumas insuficiências, que depois são corrigidas. Quando chegamos ao ensino superior as coisas podem ser vistas de forma diferente e a avaliação sumativa faz todo o sentido, mas nunca descurando o trabalho em grupo e o respeito pelos outros.

No livro fala muito em motivar os alunos.

Às vezes perguntam-me: “como é que eu o motivo para a escola?”. E eu respondo: “Mais vale começar a motivá-lo para a vida. Porque a escola está dentro da vida”. Nós, pais, devemos elogiar mais do que criticar.

Eu comecei por ser um péssimo aluno. Chumbei na quarta classe, depois no sétimo ano, porque realmente não me revia neste tipo de ensino. Depois, aconteceu-me o atletismo, que me preparou muito melhor para a vida no sentido de não desistir e de repente comecei a perceber que do meu esforço poderia resultar alguma coisa.

Andava convencido de que uns tinham nascido bons alunos, outros tinham nascido maus alunos e eu, logo por azar, tinha nascido mau aluno. Depois comecei a perceber que não era bem assim. Comecei a aprender a estudar, que é outra das coisas que falta na escola: ensinam as matérias, mas não dizem como é que devemos aprendê-las.

Acho que a escola do futuro será uma realidade daqui a cerca de dez anos e pode não ser a de que eu aqui falo, mas será outra, diferente da que existe.

Se o modelo de ensino atual não sofrer alterações, como será a escola de amanhã?

Se em vez de apresentarmos outra escola, dissermos “tens de te adaptar a esta escola”, vamos continuar a medicar cada vez mais as crianças – o que é um absurdo – e sacrificar tudo para que isto funcione.

Também há quem defenda que a escola pode ser em casa. Mas essa também não é a melhor hipótese, porque há famílias que não têm condições para isso.

E depois há a escola do futuro, a olhar para as alterações tecnológicas. Isto para alguns professores mais antigos representa um peso, mas estas pessoas têm imenso saber e podem ser uma espécie de supervisores, não têm de lidar diretamente com a tecnologia. Para chegarmos a uma nova escola não temos que alterar tudo ao mesmo tempo.

Uma vez escolhido esse caminho, quanto tempo pode demorar a escola do futuro a chegar a Portugal?

Acho que a escola do futuro será uma realidade daqui a cerca de dez anos e pode não ser a de que eu aqui falo, mas será outra, diferente da que existe. O fundamental é que dentro da escola possa haver uma reflexão para haver reinvenção.