José Miguens. O neurocirurgião que sabe que não é deus

Lisboa, 04/03/2019 - Entrevista com o neurocirurgião José Miguens, chefe do serviço de neurocirurgia do Hospital de Santa Maria. (Filipe Amorim / Global Imagens)

“Sabe qual é a diferença entre deus e um neurocirurgião? É que deus sabe que não é neurocirurgião.” O diretor do serviço de neurocirurgia do Hospital de Santa Maria, sucessor de João Lobo Antunes, não acha muita piada à anedota. Para ele, a neurocirurgia só faz sentido se for concebida, e exercida, em equipa.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de Filipe Amorim / Global Imagens

Não se vê como cirurgião de almas ou caçador de feras, cujo mérito se mede pelo número e a ferocidade de presas caçadas. Tão-pouco cai na presunção de ser omnisciente e omnipotente. Gostaria mesmo de contrariar esse endeusamento da sua profissão. “A medicina hoje não é isso, não pode ser isso, tem de ser melhor do que isso”, diz, voz serena e firme. “O objetivo tem de ser assegurar uma atuação de qualidade e com continuidade e, portanto, não pode depender da capacidade ou inspiração de uma só pessoa, ainda que excecional.”

Não se vê como cirurgião de almas ou caçador de feras, cujo mérito se mede pelo número e a ferocidade de presas caçadas. Tão-pouco cai na presunção de ser omnisciente e omnipotente. Gostaria mesmo de contrariar esse endeusamento da sua profissão. “A medicina hoje não é isso, não pode ser isso, tem de ser melhor do que isso”, diz, voz serena e firme. “O objetivo tem de ser assegurar uma atuação de qualidade e com continuidade e, portanto, não pode depender da capacidade ou inspiração de uma só pessoa, ainda que excecional.”

O cérebro é um mistério, mas cada vez menos. A neurologia, as neurociências, a imagiologia, a neurobiologia, entre outras neuros, têm tratado de o desvendar. E isso tem contribuído para os avanços da neurocirurgia.

Talvez por isso, em lugar de falar de si, da angústia do neurocirurgião diante de um cérebro aberto, da proeza de operar um tumor quase inoperável ou da responsabilidade de ter a vida (e não só) de uma pessoa nas mãos, José Miguens, diretor do serviço de neurocirurgia do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte desde junho de 2014, prefira falar de coisas mais concretas. Dos avanços da neurocirurgia. Do carácter necessariamente multidisciplinar de uma resposta de excelência aos doentes. Da importância de todas as peças do puzzle. Da defesa do Serviço Nacional de Saúde. E só depois, então, a ferros, de si.

O cérebro é um mistério, mas cada vez menos. A neurologia, as neurociências, a imagiologia, a neurobiologia, entre outras neuros, têm tratado de o desvendar. E isso tem contribuído para os avanços da neurocirurgia. Alguns, ainda em investigação e desenvolvimento, poderão vir a ser revolucionários.

José Miguens refere-os com entusiasmo: interfaces biónicos, estimulação espinhal, que poderá levar à recuperação da marcha em pessoas que ficaram paraplégicas, tratamento de tumores com intervenções minimamente invasivas baseadas em laser e guiadas por ressonância magnética ou todo o papel que a robótica pode vir a assumir na neurocirurgia.

Para José Miguens, as cirurgias mais complexas devem ser “a vocação do Serviço Nacional de Saúde e nomeadamente dos hospitais universitários, que já têm instalados a estrutura e os recursos humanos, não implicando portanto gastos adicionais”.

Mas determinantes para o especialista são os avanços que estão já a fazer a diferença na prática cirúrgica de todos os dias e esses passam pela evolução de técnicas de imagem como a TAC e a ressonância magnética, por avanços na área da biologia e da genética, que permitem uma caracterização mais precisa dos tumores, ou pelo desenvolvimento de instrumentos técnicos, como os microscópios cirúrgicos e os aparelhos de neuronavegação, que contribuíram muito para a precisão neurocirúrgica e a diminuição dos riscos e da probabilidade de sequelas pós-operatórias.

As cirurgias com o doente acordado, que vemos nas séries de médicos, também são uma evolução. E um mistério para os leigos. Como é possível?

José Miguens sorri, com paciência, e responde, apesar de isso lhe cortar a linha de raciocínio. Não. Não dói. “O cérebro é indolor, pode mexer-se à vontade que não tem ramos sensitivos”, diz.

“Mas a pele e o osso doem, por isso normalmente o doente está anestesiado na parte inicial da cirurgia, depois é acordado já com o crânio aberto, os cirurgiões fazem o que têm a fazer – o que implica uma equipa multidisciplinar, com neurologistas, neuropsicólogos, terapeutas de linguagem, que vão fazendo testes para perceber se determinadas funções estão a ser afetadas ou não – e depois o doente é novamente anestesiado e a ferida é encerrada”, explica, esclarecendo que esta é uma cirurgia que se faz quando o tumor (ou a lesão) invade partes do cérebro que controlam a linguagem.

“Quando se trata da parte motora, conseguimos fazer monitorização com o doente anestesiado, com estimulação elétrica do cortéx cerebral, mas quando afeta a linguagem, só com o doente acordado. Eu não faço, mas há um grupo no hospital que faz e tem bastante experiência.”

“Manter a atividade mais diferenciada no SNS, investindo nas condições para a desenvolver, é fundamental, até como fator de motivação. A saída de médicos, por exemplo anestesiologistas, é crítica para toda a atividade cirúrgica e tem consequências graves para o SNS”.

O hospital – Santa Maria – é também centro de referência na cirurgia da epilepsia refratária (necessária em doentes com formas de epilepsia refratárias à medicação), outro campo de grandes avanços na neurocirurgia, e tem vindo a desenvolver novas técnicas e abordagens no tratamento de outras patologias, como malformações craniofaciais, aneurismas ou doenças da coluna, que são das mais prevalentes.

Para José Miguens, estes avanços e as cirurgias mais complexas devem ser “a vocação do Serviço Nacional de Saúde e nomeadamente dos hospitais universitários, que já têm instalados a estrutura e os recursos humanos, não implicando portanto gastos adicionais”.

“Este tipo de cirurgia mais complexa e menos frequente deve estar congregada num número limitado de centros porque é importante acumular experiência. Manter esta atividade mais diferenciada no SNS, investindo nas condições para a desenvolver, é fundamental, até como fator de motivação para os médicos mais diferenciados. Esta é uma questão que me preocupa bastante. A saída de médicos, por exemplo anestesiologistas, é crítica para toda a atividade cirúrgica e tem consequências graves para o SNS”, alerta.

Deste junho de 2014 a chefiar o serviço de neurocirurgia, tarefa que parece encarar como missão, José Miguens prefere esquecer a parte burocrática, aborrecida e infindável, que vem com o cargo, e relevar a importância que tem a organização do serviço na prestação dos cuidados de saúde.

São as necessidades das pessoas que norteiam a visão de José Miguens sobre a especialidade que escolheu. Cada doente deve ser um caso, para quem é decidido, sempre que possível, com o próprio e com outros especialistas, a melhor abordagem.

Tendo em mente o espírito de que não é, não quer ser e não gosta que sejam com ele, “omnisciente e omnipotente”, o neurocirurgião pugna não só pela multidisciplinaridade e pelo diálogo constante com outras especialidades, como pela capacitação e a valorização daqueles que consigo trabalham, dos neurocirurgiões aos anestesiologistas e outros especialistas, passando pela equipa de enfermagem e pelo pessoal auxiliar.

“Costumo dizer que o serviço são as pessoas que nele trabalham. Pode soar a banalidade, mas é isso e é importante. O que procuro é tornar possível que todos desenvolvam competências e se especializem, mas criando equilíbrios e articulando com as necessidades assistenciais, que é nosso papel primordial, o de responder às necessidades das pessoas doentes.”

São as necessidades das pessoas que norteiam a visão de José Miguens sobre a especialidade que escolheu. Cada doente deve ser um caso, para quem é decidido, sempre que possível, com o próprio e com outros especialistas, a melhor abordagem, mas o risco faz parte deste processo.

“Às vezes acontecem danos, mas que são uma consequência inevitável da intervenção, por exemplo, ao remover um tumor em determinada localização. É claro que é importante ter todos os dados a nosso favor: estudar bem os casos, planear, usar meios de monitorização intraoperatória, quando estão disponíveis, mas não se pode garantir uma cirurgia sem riscos.”

“Cada cirurgião tem o seu modo de lidar com a responsabilidade, para mim o essencial é não pensar muito para além, é pensar como uma tarefa que tem de ser feita, é um cérebro como podia ser um coração.”

No caso da neurocirurgia, os riscos podem passar pela fala, a mobilidade, a memória, a própria personalidade. Como se lida com a responsabilidade de “mexer” no cérebro de alguém?

A pergunta parece soar estranha ao cirurgião. “Comes with the job, faz parte”, adivinhamos-lhe no silêncio. Mas talvez seja só difícil de explicar. Miguens, que desenvolve a maior parte do trabalho médico na área da cirurgia neuropediátrica, tenta, apesar de tudo: “Cada cirurgião tem o seu modo de lidar com a responsabilidade, para mim o essencial é não pensar muito para além, é pensar como uma tarefa que tem de ser feita, é um cérebro como podia ser um coração. No meu caso, faço o que considero mais seguro e se, com isso, conseguir fazer tudo o que é preciso, muito melhor”.

Casos que o tenham marcado? Claro que tem. “Casos que pareciam muito difíceis e depois correram bem, casos que na cirurgia pareciam não estar a correr bem e depois houve um clique e tudo se resolveu, mas também houve casos que me marcaram pelas sequelas que ficaram ou por conseguir parar, porque achei que não devia ir atrás do tumor, não devia insistir, o que por vezes não é fácil, porque implica não seguir o planeado.”

E implica o neurocirurgião saber que não é deus, como deus sabe que não é neurocirurgião.