Julie Taylor: “O governo inglês quer dar às pessoas cinco anos extra de vida saudável e ativa”

Julie Taylor, do Departamento de Comércio Externo britânico, é especialista em envelhecimento, mas como ela própria referiu no encontro organizado pela embaixada do Reino Unido em Portugal dedicado ao envelhecimento ativo e saudável, é uma comercial, não uma investigadora. Falámos com ela para perceber como é que se promove o envelhecimento saudável, encarando os mais velhos como uma oportunidade de negócio.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de João Silva/Global Imagens

A estratégia do Reino Unido para os desafios colocados pelo envelhecimento está ancorada na inovação, na indústria, na tecnologia e nos negócios. Porquê?

A Estratégia Industrial do Reino Unido estabeleceu uma ambição clara de aumentar a produtividade e a rentabilidade em todo o país. O envelhecimento é reconhecido como um de quatro grandes desafios e estabelecemos como objetivo pôr o potencial da inovação ao serviço das necessidades de uma sociedade em processo de envelhecimento. A nossa missão é garantir que as pessoas tenham pelo menos mais cinco anos de vida saudável até 2035. Isto passa por ajudar as pessoas a manterem-se mais tempo no mercado de trabalho, por criar produtos e serviços de consumo que respondam melhor às necessidades dos mais velhos e por promover melhorias na saúde pública e levar a inovação a todo o setor de assistência social.

As pessoas quererão passar esses mais cinco anos de vida saudável e independente a trabalhar?

Se as pessoas tiverem cinco anos extra de vida saudável, não irão requerer assistência social e não serão um fardo para o sistema de saúde. Claro que há muitas pessoas que consideram o trabalho gratificante e uma fonte de orgulho e satisfação pessoal, por isso se forem saudáveis podem escolher continuar a trabalhar. Infelizmente, hoje muitas pessoas sentem que têm que se reformar mais cedo devido a problemas de saúde.

Além da saúde, a solidão e o isolamento são uma das questões a resolver numa sociedade envelhecida, para promover um envelhecimento ativo e saudável. Como é que a vossa estratégia inclui estas questões?

Há fortes evidências de que a solidão e o isolamento social estão associados a piores resultados cardiovasculares e de saúde mental. Uma área em que acreditamos que a inovação pode ter o maior impacto é no apoio e promoção do fortalecimento das relações sociais. Inovações nesta área poderão melhorar a inclusão e a acessibilidade a atividades sociais e de lazer.

Julie Taylor, do Departamento de Comércio Externo britânico, participou no órum Portugal – Reino Unido sobre Envelhecimento Saudável, uma iniciativa da Embaixada do Reino Unido, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian.

A perspetiva que subjaz à vossa estratégia – ver os mais velhos como uma oportunidade de negócio é inovadora. Que ganhos poderá significar para as empresas e para as pessoas?

Existem oportunidades económicas consideráveis no mercado do envelhecimento. Os turistas europeus com mais de 65 anos gastam 66 mil milhões de euros por ano em viagens de lazer. O mercado global de saúde vale 60 mil milhões e o mercado global de casas inteligentes vale 56 mil milhões. Fornecer produtos e serviços inovadores nestes mercados não é apenas economicamente vantajoso, também oferece mais escolhas que respondem às necessidades específicas dos consumidores mais velhos e isso representa benefícios para estes.

Quais os principais desafios do futuro na promoção do envelhecimento ativo e saudável?

O governo britânico reconheceu o envelhecimento da sociedade como um desafio que também oferece muitas oportunidades. Estamos à procura inovações que possam ter o maior impacto possível na nossa população mais velha, como por exemplo: dar resposta às queixas comuns relacionadas com o envelhecimento (perda auditiva, perda de visão, incontinência, artrite, mobilidade), viver bem com perda cognitiva, conseguir manter-se ativo, casas que nos ajudem a “envelhecer em casa”, locais de trabalho com ambientes “senior friendly”.

Como imagina então as casas, os transportes, a assistência e a saúde se essa estratégia resultar e der frutos?

Estabelecemos quatro grandes desafios para pôr o Reino Unido na vanguarda das indústrias do futuro. Focam-se nas tendências globais, inteligência artificial e dados, envelhecimento da sociedade, crescimento limpo e futuro da mobilidade. A população mais velha também beneficiará das inovações, nomeadamente em inteligência artificial, crescimento limpo e mobilidade.

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