Kristi Funk: “Temos o poder de reduzir o nosso risco de cancro da mama”

Mama: Manual de Instruções [ed. Lua de Papel] é o título do livro da cirurgiã norte-americana Kristi Funk, que operou a cantora Sheryl Crow (que assina o prefácio) ou a atriz Angelina Jolie, entre milhares de outras mulheres, e tem dedicado a carreira ao cancro da mama. O livro, muito claro e escrito num tom bastante coloquial e até divertido, pretende, e consegue, ser um guia para ajudar mulheres de todas as idades a protegerem-se e lutarem contra a doença: reduzir o risco, compreender o diagnóstico, fazer as escolhas certas.

Texto de Catarina Pires

Outubro é o mês internacional da prevenção do cancro da mama e hoje é Dia Mundial da Saúde da Mama. Não é de estranhar tantos dias dedicados a chamar a atenção para a doença e a sua prevenção. Em Portugal, uma em cada onze mulheres terá cancro da mama em algum momento da vida, surgem seis mil novos casos por ano e é a principal causa de morte precoce nas mulheres.

Números que em termos relativos não diferem muito do resto do mundo, sobretudo nos países desenvolvidos, onde a doença tem vindo a aumentar de forma significativa. Nos Estados Unidos, os novos casos por ano chegam aos 300 mil e uma em cada oito mulheres será diagnosticada com cancro de mama ao longo da vida.

Contribuir para a diminuição destes números foi uma das razões que levou Kristi Funk a fundar a Pink Lotus Breast Cancer, em Los Angeles, um centro pioneiro para o tratamento e prevenção da doença, “focado em salvar vidas de uma forma que elimina o medo, incute confiança e fornece esperança num momento de pânico”.

A instituição pretende transformar a oferta de cuidados de saúde mamária nos Estados Unidos e ajudar o maior número possível de mulheres, independentemente do seu rendimento ou estatuto.

“Vemos milhares de pacientes todos os anos, com uma vasta gama de preocupações, e fazemos o possível para ter protocolos com a maioria dos sistemas de saúde. Às mulheres com baixo rendimento e sem seguro de saúde, o com seguro que não cobre estas despesas, a Pink Lotus Foundation fornece exames, diagnóstico, tratamento e apoio 100 por cento gratuitos”.

Uns sólidos 50 por cento – e talvez mesmo 80 por cento – de todos os cancros da mama podiam ser eliminados, segundo Funk, se as mulheres percebessem que as escolhas diárias de estilo de vida e alimentação criam o ambiente nas células das mamas que determina se se mantêm saudáveis ou se tornam malignas.

O livro Mama: Manual de Instruções é esta missão passada à escrita e procura desfazer mitos e prevenir riscos, antes de se debruçar sobre a própria doença, o diagnóstico e os tratamentos possíveis, com o objetivo de fornecer a maior quantidade, e qualidade, de informação existente sobre a doença, de forma a que as mulheres possam fazer escolhas mais conscientes e acertadas.

Kristi Funk, que já acompanhou dezenas de milhares de mulheres que se debatiam com problemas de saúde mamária, diz saber, de experiência feita, que é mesmo verdade, e ela sublinha o mesmo verdade, que “temos o poder de reduzir o nosso risco de cancro da mama de formas exequíveis e profundas”.

Uns sólidos 50 por cento – e talvez mesmo 80 por cento ou mais – de todos os cancros da mama podiam ser eliminados do planeta Terra, segundo Funk, se as mulheres percebessem que as escolhas diárias, como a comida, a bebida, o exercício, o peso, a exposição a toxinas e o estado de espírito criam o ambiente dentro das células das mamas, que ou se mantêm saudáveis ou se tornam malignas.

De acordo com a especialista, a mais recente investigação diz que se as mulheres adotarem, antes de atingirem a menopausa, um estilo de vida que dê prioridade ao exercício, se não fumarem, não beberem álcool e tiverem uma alimentação menos virada para a carne e os laticínios e mais à base de alimentos de origem vegetal e produtos integrais, as suas probabilidades de ter cancro da mama são reduzidas para metade. Para mulheres mais velhas, o risco diminui 80 por cento.

Fazer a autopalpação uma vez por mês, religiosamente – uma semana depois do período, se for menstruada, que é quando a mama tem menos altos e está menos flácida, ou no primeiro dia do mês se já não tem menstruação, para estabelecer uma rotina – é essencial.

“Vou ajudá-la a reduzir o seu risco de cancro, com base em alterações na comida e no estilo de vida, sobretudo daquilo que influencia o estrogénio, já que o estrogénio alimenta 80 por cento de todos os cancros de mama”, promete Kristi Funk.

Na verdade, anuncia a autora, as mudanças que sugere no seu livro, não servem apenas para a saúde da mama. “Não, minhas senhoras. Também geram menos colesterol, melhores triglicéridos, uma pressão arterial perfeita, menos ataques cardíacos, um corpo mais magro, menos diabetes, articulações sem dores, mais energia, melhor sono, melhor humor, melhor vida sexual, uma mente mais perspicaz, menos demência, uma pele melhor, um funcionamento intestinal regular, pulmões mais limpos, menos cancro em todos os órgãos do corpo, um planeta mais saudável e uma vida mais longa”.

Tudo sobre a minha mama

A anatomia da mama e a importância de fazer a autopalpação uma vez por mês, religiosamente – uma semana depois do período, se for menstruada, uma vez que é quando a mama tem menos altos e está menos flácida, ou no primeiro dia do mês se já não tem menstruação, para estabelecer uma rotina – abrem o “manual”, com explicações muito claras e detalhadas [aqui encontra uma demonstração simples de como fazer o autoexame da mama].

Worldwide Breast Cancer, “As várias aparências e toques do cancro da mama”.

Seguindo-se o desmascarar dos mitos sobre o cancro da mama, que Kristi Funk considera desinformação, além de inútil, contraproducente. De acordo com a cirurgiã, um deles tem que ver com o fator genético, que tem um peso muito menor do que é crença comum na probabilidade de vir a ter cancro de mama. Claro que a história clínica familiar importa, mas a hereditariedade tem, segundo a especialista, um peso de apenas 10 por cento [aqui pode fazer um teste que avalia o seu nível de risco genético].

Outro dos mitos está relacionado com a idade. Embora seja mais comum depois da menopausa, a doença não discrimina quando se trata de idades e isto é muito importante quando estamos a falar de prevenção e rastreio.

Não, os sutiãs não provocam nem estimulam o cancro de mama, não, os antitranspirantes e desodorizantes não são uma das causas da doença, não, os piercings de mamilo não são inimigo da saúde da mama.

A alimentação, que é talvez o maior cavalo de batalha de Kristi Funk, ao contrário do que muitas vezes é veiculado, tem um peso determinante na saúde da mama. “Aquilo que coloca no seu corpo influencia os níveis de estrogénio, a inflamação, a formação de vasos sanguíneos, o funcionamento celular e os destrutivos radicais livres, para falar apenas de alguns processos relacionados com o cancro” desmistifica a médica, que passa depois à desmontagem de crenças falaciosas.

Não, os sutiãs não provocam nem estimulam o cancro de mama, não, os antitranspirantes e desodorizantes não são uma das causas da doença, não, os piercings de mamilo não são inimigo da saúde da mama. Quanto às tatuagens, embora não seja clara a relação, é aconselhada precaução. As radiações do telemóvel também não são razão para preocupação, segundo, Funk, assim como o aumento dos seios, as pílulas contracetivas e os tratamentos de fertilidade não implicam um risco significativo de desenvolver a doença.

A refeição ideal anti-cancro tem abundância de fruta fresca e vegetais, de gorduras saudáveis, cereais integrais, leguminosas, ocasionalmente peixe ou carne magra e uma chávena de chá verde – e por vezes vinho tinto – a acompanhar.

De seguida, a autora dedica mais de cem páginas ao que comer e o que não comer para diminuir o risco de vir a desenvolver cancro de mama e para ajudar o corpo a tratá-lo, quando já está instalado. Trata-se, segundo explica Kristi Funk, de criar um ambiente hostil às células cancerígenas, impedindo-as de se desenvolverem.

Como é a refeição ideal, com os nutrientes necessários a combater o cancro? É sobretudo composto de alimentos de origem vegetal, com abundância de fruta fresca e vegetais, de gorduras saudáveis, cereais integrais, leguminosas, ocasionalmente peixe ou carne magra e uma chávena de chá verde – e por vezes vinho tinto – a acompanhar.

Leia também: Cancro: mudar comportamentos poderia evitar grande parte dos casos

Para além da alimentação, há que fazer exercício físico, não adiar demasiado a maternidade, no caso de querer ter filhos, e lidar sabiamente com a menopausa [Kristi Funk explica detalhadamente no livro como fazê-lo]. O estilo de vida americano é, segundo a autora, um dos maiores responsáveis pelo aumento do cancro de mama não só no país como no resto do mundo.

“Dos nossos hábitos à nossa comida, o nosso peso, a nossa inatividade, a nossa maternidade adiada, as nossas hormonas e todo o nosso estilo de vida. É triste, mas o nosso estilo de vida contagioso infetou o mundo inteiro. Ironicamente, o antídoto é reverter para os comportamentos alimentares e de estilo de vida que o mundo possuía antes de ter emulado com sucesso o comportamento dos influentes Estados Unidos”.

É isso que Kristi Funk ajuda a fazer em Mama: Manual de Instruções.

Mama: Manual de Instruções, de Kristi Funk [ed. Lua de Papel]