Do dia dos vizinhos à apanha de lixo. Quando a comunidade se une para melhorar o bairro

O primeiro laboratório cívico do país nasceu no bairro de Santiago, em Aveiro, há pouco mais de dois meses. Com a colaboração de mais de 500 pessoas, foram criados dez projetos para melhorar a qualidade de vida da comunidade. Um modelo que tem vindo a ser usado em várias cidades europeias e que, de acordo com os promotores, pode facilmente ser replicado em qualquer bairro do país.

Texto de Joana Capucho

Rita Pereira cresceu no bairro de Santiago, o maior bairro social da cidade de Aveiro. Habituou-se desde cedo a lidar com o estigma que existia em relação à zona onde vive, relacionado com “acontecimentos passados de violência e delinquência”, mas acredita que os moradores podem ajudar a mudar a fama daquela zona habitacional.

“O bairro é muito bonito. É muito bom passar uma imagem positiva dele, abri-lo à cidade e ao resto do distrito”, diz a jovem de 20 anos, que estuda Administração Pública na Universidade de Aveiro (UA). Desafiada por um professor, apresentou um dos dez projetos finalistas do Laboratório Cívico de Santiago – “A horta da vizinha é melhor do que a minha”.

Quem lançou o repto foi o urbanista e investigador da UA José Carlos Mota, um dos responsáveis pelo projeto, que, asseguram os promotores, é único em Portugal. Ângela Fernandes, urbanista, conta que a inspiração veio de Madrid, mais concretamente do ‘Experimenta Distrito’, promovido pelo Medialab-Prado.

Para Rita Pereira, este é um excelente exemplo de “democracia participativa”: “É muito importante que as pessoas se juntem e façam prevalecer a sua vontade”.

No entanto, há uma grande diferença entre os dois projetos: enquanto o espanhol é financiado com dezenas de milhares de euros, o laboratório aveirense vive apenas do trabalho voluntário e das parcerias feitas com empresas da região. Mas o dinheiro é necessário, de tal forma que teve de ser lançada uma campanha de crowdfunding para financiar um dos projetos.

O objetivo é claro: envolver a comunidade no desenvolvimento de soluções que melhorem a vida no bairro, através da partilha de ideias, de saberes e de vontades. Seguindo o exemplo do que já é feito em algumas cidades europeias, foi lançado um concurso para apresentação de ideias.

Das 34 candidaturas recebidas, foram selecionadas dez. Carolina Santos, promotora e mediadora de um dos grupos, revela que há 544 pessoas envolvidas, dos 5 aos 90 anos. “Temos trabalhado afincadamente, a um ritmo alucinante, participativo e dinâmico”, revela, destacando que foram criadas “sinergias maravilhosas”.

Inicialmente, Rita Pereira pensou sugerir a criação de uma horta comunitária, mas, por questões relacionadas com o licenciamento, decidiu propor “uma vertente móvel”. A ideia de oferecer à comunidade vasos de ervas aromáticas e frutos de pequena baga convenceu o júri, que selecionou o projeto, no qual trabalham mais sete pessoas.

Além das sessões de laboratório, onde se reúnem os responsáveis das dez propostas, são obrigados a reunir mais vezes para atingir o objetivo: produzir três vasos para oferecer a 20 ou 25 famílias no dia 10 de junho – o dia em que os projetos são apresentados à comunidade.

Como uma das premissas é reutilizar e não produzir lixo, o grupo de Rita utiliza rolhas de cortiça recolhidas nos restaurantes da cidade para fazer os vasos e esferovite das caixas de peixe do mercado para as bases.

Além dos vasos, os moradores levam para casa um “guião de utilização” com “o nome, onde podem ser usadas, as necessidades de luz e de água”. Se houver adesão, adianta, o objetivo é prolongar o projeto para além do laboratório, nomeadamente “através de workshops de compostagem” e outras iniciativas.

Para a estudante universitária, este é um excelente exemplo de “democracia participativa”: “É muito importante que as pessoas se juntem e façam prevalecer a sua vontade”.

Carolina Santos é educadora social na instituição Florinhas do Vouga, que é um dos principais parceiros do projeto, e mediadora do grupo que organizou “O dia dos vizinhos”. Enquanto técnica que trabalha no bairro há vários anos, achou “que fazia sentido abraçar este projeto”. O balanço, conta, é muito positivo: “Superou as expectativas. Foi muito interessante”.

No dia 24 de maio, cerca de 80 pessoas reuniram-se num espaço exterior do bairro para partilhar um almoço que contou com fêveras oferecidas por um talho e pão fornecido por uma padaria, ambos de Santiago.

As Florinhas do Vouga providenciaram o caldo verde e cada um levou alguma coisa para partilhar. Uma iniciativa que Carolina Santos espera que funcione como “rampa de lançamento” para outras semelhantes. “Gostávamos que o projeto tivesse continuidade e que fosse levado a cabo pelos moradores”, diz.

Enquanto promotora do Lab Cívico de Santiago, Carolina conta que nas últimas semanas houve “muitas horas de reuniões, muito trabalho, muitos grupos de Messenger a funcionar ao mesmo tempo”. Tudo com o objetivo de “melhorar, de alguma forma, a qualidade de vida das pessoas do bairro”.

Um dos projetos que envolve os mais novos é o “Sê fixe, Não lixe”, promovido pelo Jardim de Infância de Santiago. Marília Farinha, educadora naquele espaço, conta que o tema dos resíduos e da sustentabilidade já é trabalhado há algum tempo com as crianças, mas o laboratório “veio dar apoio e visibilidade” às atividades. No âmbito do mesmo, as crianças saíram para a rua “com megafones e cartazes para apanhar lixo”, numa ação de sensibilização para o problema dos resíduos.

Chamando a atenção para a vulnerabilidade da cidade devido à sua localização, as crianças procuraram “mostrar à comunidade que todo o lixo que se faz em Aveiro e que não é recolhido vai parar à ria e ao mar”.

Entre os projetos que se encontram no terreno há divulgação de saberes e sabores, uma oficina de tecnologia, uma festa de futebol e uma iniciativa de fotojornalismo. Esta última – “Fotojornalismo na redação Santiago” – precisa de financiamento, já que prevê o contacto das crianças com máquinas fotográficas e a impressão de fotografias em telas gigantes. Para isso, está a decorrer uma campanha de crowdfunfing na plataforma PPL, que visa a angariação de 3 085 euros até ao dia 7.

Um dos objetivos é, segundo Ângela Fernandes, “criar ferramentas e conhecimento para que estas iniciativas possam ser facilmente replicadas noutros contextos”. Além disso, é expectável que alguns “projetos evoluam e se continuem a concretizar” depois do dia 10.

Nos últimos dias, os responsáveis pelo Laboratório receberam uma carta do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa: “Refere que por dificuldade de agenda não poderá estar presente em Aveiro no evento que iremos organizar no dia 10 de junho onde serão apresentados os resultados dos dez projetos. A data escolhida não foi por acaso. É uma inspiração para o espírito e a motivação que pretendemos promover no laboratório cívico de Santiago: Construir Comunidade”.