Como lidar com os amores de verão do meu filho?

Que preocupações trazem as redes sociais? Qual a idade ideal para ir de férias sozinho? Estas e outras questões respondidas pela terapeuta familiar Catarina Mexia.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Shutterstock

Férias + adolescentes = paixões. Esta é uma equação quase sempre difícil de resolver para os pais. Os chamados «amores de verão», a que os familiares não costumam dar grande importância, podem significar muito para os adolescentes.

Para os jovens, esta será uma fase natural, mas estarão os pais preparados? Num mundo dominado pelas redes sociais (e pelos riscos que daí advêm), existem preocupações acrescidas e novas estratégias a adotar?

A psicóloga Catarina Mexia ajuda-nos a perceber o que significam realmente estas paixões de verão e como devem os pais lidar com elas. Esclarecemos ainda algumas dúvidas sobre a autonomia e a responsabilidade que devem ser atribuídas aos seus filhos.

Sabe, por exemplo, qual a idade ideal para os deixar ir de férias sozinhos?

Porque está o verão tão associado às paixões?
É uma realidade que acontece com todos os seres humanos. A maior disponibilidade – estarmos mais expostos, mais despidos -, bem como o facto de o nosso corpo libertar mais feromonas levam a que isso aconteça. Portanto, também os jovens estão mais suscetíveis a receber esse tipo de mensagens e passam pela fase de descoberta do outro e de si próprios.

«um jovem de 16 anos dizia-me há uns dias: ‘já ninguém pede o número de telefone, pede-se o insta’»

De que forma é que os pais devem interferir nestas relações?
Em primeiro lugar, não sei se os pais devem interferir. Acho que os pais devem ter uma posição atenta e mostrar-se disponíveis. Mas, claro, tudo isto depende das idades de que estamos a falar. Os jovens desenvolvem-se muito mais cedo hoje e os desafios são muito diferentes em comparação ao que eram há uns anos.

Porquê?
O maior exemplo é que muitos namoros começam agora pelas redes sociais. Como me dizia um jovem de 16 anos há uns dias: «já ninguém pede o número de telefone, pede-se o insta». Portanto, hoje em dia, estes primeiros relacionamentos são guiados por um anonimato muito grande, vindo das redes sociais, e nos quais os pais nem sequer têm muita fé. As redes sociais servem quase como um cartão-de-visita e muitas vezes os jovens envolvem-se em relações que envolvem muitos riscos. Eles [os adolescentes] aceitam níveis de violência que eram intoleráveis.


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Isso não será fácil de os pais compreenderem.
Os pais têm de perceber que tudo isto faz parte do crescimento e do ganho da autonomia destes jovens e das aprendizagens. Mas devem mostrar-se curiosos, não cuscos, e disponíveis para ser o conforto dessa relação.

Mesmo que os jovens queiram esconder a parte «amorosa» das suas vidas?
Não disse que seria uma tarefa fácil. É um equilíbrio muito difícil. Muitas vezes os pais querem deixá-los voar mas, ao mesmo tempo, temem não os manter em segurança.

Daí a importância do diálogo aberto entre pais e filhos?
Há temas que são praticamente obrigatórios: como a segurança na sexualidade, por exemplo. São conversas que os pais não podem deixar de ter com os seus filhos e é muito importante a forma como as têm. Apesar de serem informativas, podem também ser um momento e uma oportunidade de os seus filhos perceberem que, mesmo que as coisas não lhes corram bem, há ali alguém que os vai ouvir. Com quem podem conferir ideias e desabafar, até.

«Por vezes é importante colocarmo-nos, como pais, no lugar dos nossos filhos e recordarmos quando tínhamos a idade deles»

Estas paixões de verão podem trazer também as primeiras desilusões. Como devem os pais reagir a esses desgostos?
Nesses momentos, em que os jovens por vezes deprimem de forma séria, o truque é, mais uma vez, estar atento. Não devem desvalorizar aquele sofrimento de maneira nenhuma, porque eles estão a sofrer verdadeiramente. Às vezes é importante colocarmo-nos, como pais, no lugar dos nossos filhos e recordarmos que na idade deles também iríamos dar demasiada importância àquele momento. Há que valorizar o sofrimento, colocá-lo em contexto e ajudá-los a encontrar uma forma diferente de ver as coisas. Ou seja, ajudar os filhos a ver além daquela pessoa ou daquele acontecimento. E procurar valorizar outras amizades, outros convívios e outras atividades.

Em relação à sexualidade, deve ser um tema abordado por iniciativa dos pais ou estes devem esperar que o filho/a os procure para abordar o tema?
Na minha opinião, a responsabilidade é sempre dos pais. Quer no caso das raparigas, quer no caso dos rapazes. Se é a mãe ou o pai a fazê-lo, considero que isso terá a ver com a dinâmica da família. Não existe uma regra. Quanto ao momento certo, se existir uma relação próxima, os familiares vão perceber quando for a altura.

«É preciso ter noção dos riscos e das consequências das redes sociais»

Com a chegada das redes sociais, esta tornou-se uma questão ainda mais difícil?
Sim, porque agora também estamos a falar de segurança. É preciso ter noção dos riscos e das consequências. Estou a lembrar-me de um caso de um jovem homossexual, que trocou umas fotografias com um homem via Facebook e a mãe só soube quando as coisas correram mal. Está é uma situação limite mas é demonstrativa de como as redes sociais permitem esconder identidades que podem levar a situações extremas. Possivelmente, sem a possibilidade de anonimato e de criar perfis falsos, os pais deste jovem iriam perceber tudo mais facilmente.

Qual a idade ideal para deixar os jovens irem de férias sem os pais?
A idade não é um fator decisivo, mas sim o nível de maturidade. Há jovens de 16 anos completamente responsáveis e totalmente autónomos, enquanto há outros que não vão sozinhos para lado nenhum. Mas diria que os 16 anos são um marco.