Luiz Toledo: «O grande erro do cirurgião plástico é quando ele acha que pode tudo»

Há vinte anos pediu a nacionalidade portuguesa, que sentia sua porque herdada do avô. Há seis iniciou o processo burocrático que viria a permitir-lhe exercer medicina em Portugal. Há oito meses, abriu consulta em Cascais e em Lisboa. Luiz Toledo, cirurgião plástico de renome no Brasil e no Dubai, onde se fixou há 14 anos, explica aquela que é talvez a mais polémica das especialidades médicas.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Filipe Amorim/Global Imagens

O que procuram as pessoas que vêm à sua consulta?

Procuram melhorar a sua imagem para encontrar harmonia entre o corpo, a mente e o espírito. Querem ficar uniformes com o que sentem, o que veem no espelho e a realidade. Esse é o trabalho do cirurgião plástico: colocar estas três coisas em harmonia, tendo em mente que cada pessoa é completamente diferente da outra. Por vezes, recebo um e-mail assim: quanto custa um nariz? E eu me pergunto: O quê? Como assim quanto custa um nariz? As pessoas não entendem exatamente a finalidade da cirurgia plástica. É preciso analisar, perceber a razão, a função, a estética, como está funcionando tudo para poder encontrar a melhor solução para um rosto, por exemplo.

É preciso saber de psicologia, perceber se a pessoa quer mesmo aquilo ou se vai fazer-lhe bem?

Claro. E o mais difícil é saber dizer não. Dizer sim é fácil, muitos fazem-no. Mas saber quais são os sinais vermelhos que alertam o cirurgião para não operar porque a cirurgia não vai beneficiar a pessoa ou ela não está preparada para a mudança não é assim tão fácil. Isso só vem com o tempo e com a experiência que você vai acumulando, com as lições que vai tirando dos seus próprios erros e acertos. A técnica qualquer um pode aprender, mas para ter os conhecimentos necessários para chegar à decisão de operar ou não, como operar, como tratar uma complicação, se ela acontecer, é preciso muitos anos de estudo, formação e treinamento.

Alguma vez disse que não?

Muitas vezes. Há pessoas que imaginam situações impossíveis, veem uma imagem numa revista e querem transformar-se nela e você vê a matéria prima e sabe que nunca vai acontecer. Por outro lado, às vezes é bom quando a pessoa te traz imagens de revistas e você tem uma certa ideia do que ela está querendo e pode chegar a uma decisão sobre o que fazer.

Além da questão da impossibilidade de atingir o resultado pretendido, dada a «matéria-prima» de origem, que outras questões fazem acender a luz vermelha?

Por exemplo, uma pessoa que já fez muita cirurgia plástica e você percebe que já foi de mais. Tem gente que vem, por exemplo, para aumentar os lábios, que são muito finos. Você aumenta um pouco e fica normal. No mês seguinte, volta e diz que queria um pouquinho maior, você faz, mas daqui a dois meses vem novamente e você já diz que não. O problema é que depois vai a outro cirurgião que pega no caso pela primeira vez e faz e acaba em desastre. Mas, muitas vezes, a pessoa não percebe que está deformada. Quando vê alguém com ar de muita cirurgia plástica, isso é sinal de má cirurgia plástica.

Costuma dizer que a boa é invisível, não se percebe o resultado.

Sim, quando o resultado é bom, você olha para a pessoa e sente que ela está bem, está descansada, rejuvenescida, pode até imaginar que foi fazer um spa, mas não que fez uma plástica.

A má opinião que existe sobre a cirurgia plástica tem que ver com imagens de autêntico horror que vemos nas revistas e nos ecrãs de televisão. Porque corre mal tantas vezes?

Não sei se isso acontece aqui em Portugal, mas em muitos países há uma invasão de não cirurgiões plásticos fazendo procedimentos de cirurgia plástica. Fazem um curso de 15 dias e acham que podem fazer os chamados procedimentos não invasivos e isso é um perigo porque não têm o treinamento adequado.

Está a falar de que tipo de intervenções?

Preenchimentos, botox, coisas assim. Se não for feito por alguém com a formação adequada, vão acontecer esses resultados desastrosos – para o paciente e para a cirurgia plástica em geral, porque as pessoas não sabem onde aquilo foi feito.

Quais são as cirurgias mais procuradas?

Na minha clínica, em primeiro lugar, é a lipoescultura de corpo e de face, que, diria, representa cerca de 40 por cento da procura; depois, em segundo lugar, o nariz, a rinoplastia; em terceiro, as mamas, para aumento ou diminuição; em quarto, o rejuvenescimento facial e em quinto a plástica de abdómen. Depois tem o brazilian buttock lift [aumento dos glúteos] que é uma técnica que eu desenvolvi, que não está no topo, mas também é muito procurada.

Movimentos como o #metoo, contra a objetificação da mulher, tiveram algum impacto na procura pela cirurgia plástica?

De todo. As mulheres que me procuram são mulheres independentes, a maioria delas sabe o que quer, é dona do seu próprio corpo e sabe o que fazer com ele, não vai se submeter.

Quem é que o procura?

A maioria são mulheres (80 por cento), mas também homens (20 por cento), um número que tem vindo a aumentar.

Falou em lipoescultura. É uma solução rápida e fácil para fugir ao esforço do exercício físico e da dieta?

A cirurgia plástica tem limites e o exercício físico também. Tem coisas que não há exercício que resolva, gordura localizada que este não consegue eliminar, e é aí você faz lipoescultura. Em meia hora, tira aquele excesso, manipula essa gordura e injeta-a noutras partes do corpo. Essa é a cirurgia mais importante do século XXI em termos de plásticas. O enxerto de gordura está revolucionando toda a cirurgia plástica.

Isso quer dizer o quê?

Que pode ser utilizado hoje para diversas técnicas, usando a gordura injetada com células tronco, que tira da própria gordura aspirada. Pode ter grandes benefícios para queimaduras, cicatrizes, reconstrução mamária, rejuvenescimento de pele… notou-se que quando se faz enxerto de gordura a pele fica mais viva, mais jovem. É um benefício que não se conhecia e agora podemos contar com ele. É revolucionário.

É preciso ser rico para recorrer à cirurgia plástica?

Não é preciso, mas ajuda. Com a popularização da cirurgia e o aumento do número de cirurgiões, houve uma queda de preços. Os preços aqui em Portugal são metade dos do Dubai [onde vive e trabalha há 14 anos]. Mas há um limite abaixo do qual não pode ir, para pagar a qualidade dos materiais, a formação e experiência do cirurgião, etc. Quando começa a baixar muito os preços, alguma coisa está errada e a qualidade diminui. Não se pode comprar um Porsche pelo preço de um Volkswagen.

A cirurgia plástica não é só cirurgia estética.

Não, também é reparadora e essa é e deve ser financiada pelo Estado e coberta pelos seguros de saúde, porque serve para corrigir mal-formações congénitas, queimaduras, consequências de acidentes, etc.

Também faz isso?

Já fiz durante muito tempo. Fiz o meu internato num hospital oncológico e durante dez anos fiz cirurgia reparadora de cancro de pele e depois tive que escolher, porque a minha clínica era de estética e se você não faz aquilo constantemente, não acompanha a evolução, não ganha mão, e nos últimos 30 anos houve uma evolução enorme em todo o tipo de técnica, principalmente reparadora. Eu acabei me dedicando mais à cirurgia estética.

Qual é o maior desafio no seu trabalho?

Uma das cirurgias que as pessoas acham que é mais fácil e que para mim é uma das mais difíceis é a rinoplastia [nariz]. Tornou-se mais fácil nos últimos dez anos, com uma técnica nova, de nariz aberto, mas, quando eu aprendi, era fechada e você tinha que adivinhar o que o professor estava fazendo, depois começaram a usar endoscopia e dava para ver que ele estava cortando uma cartilagem, partindo um osso, até que surgiu a técnica aberta e tudo ficou mais fácil, para ensinar, inclusive.

E o que gosta mais de fazer?

Gosto da face, de fazer rejuvenescimento facial, e de corpo, trabalhar o corpo, que é uma cirurgia que estou fazendo há muitos anos com bons resultados.

Isso fá-lo sentir no lugar de deus, como muitos médicos seus colegas?

Não. Esse é o grande erro de qualquer profissional, e do cirurgião plástico em particular: quando acha que pode tudo. Só deus pode tudo e a gente não é deus, tem limites. É tudo uma questão de técnica e às vezes a técnica não dá certo. É preciso estar muito consciente dos limites em termos profissionais e de ego. Ego é terrível. Ego de cirurgião plástico é como ego de diretor de cinema, acha tudo o que faz lindo, acha que pode tudo, até que vem a realidade, te passa uma rasteira, você cai e tem que começar de novo, por isso mais vale não entrar nessa de pensar que é deus.

Do Brasil foi para o Dubai, onde está há 14 anos. Como é a relação das mulheres árabes com a cirurgia plástica, tendo em conta que passam maior parte do tempo com a cara e o corpo tapados?

É igual. Elas sabem exatamente o que querem. Cobrem-se parcialmente, o cabelo e o corpo, mas quando tiram os véus e as abayas é como se estivessem chegando de Beverly Hills, usam as mesmas roupas, leem as mesmas revistas, veem os mesmos filmes, têm todas as influências que qualquer mulher do mundo tem hoje. Sabem o que querem e onde conseguir e vão atrás.

Da experiência que tem, quem procura a cirurgia plástica fá-lo à procura da aprovação do olhar do outro ou do seu próprio olhar, quando se vê ao espelho?

Quando é feito para os outros é má indicação.

A cirurgia plástica é sobretudo procurada contra o envelhecimento. Mas há limites, não é? Ninguém pode aos 80 anos ter pele de 20.

A finalidade é você estar muito bem para a sua idade. Nem sequer uma pessoa de 50 pode ter cara de 20, porque a pele é diferente, a postura, as mãos, o corpo, a curvatura deste, tudo muda em 30 anos e é importante ter noção disso. Em traços gerais, diria que a cirurgia plástica pode fazê-la parecer 10 anos mais nova. Não tem como ficar 20 anos mais nova. Sim, às vezes querem, trazem até a fotografia da Giselle [Bündchen]. Mas não vai acontecer.

Está em Portugal há menos de um ano…

Sou português há vinte anos, o meu avô era português e eu pedi a nacionalidade portuguesa, em 2012 fiz o exame para ser médico em Portugal, passei, em 2015 fiz o exame para ser especialista em cirurgia plástica, passei, e em 2018 fui eleito membro da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética. Agora estou abalizado.

O que procuram os portugueses na cirurgia plástica?

São mais conservadores aqui. Ainda não estão bem informados de quais são as possibilidades que a cirurgia plástica oferece e é função do médico informar os pacientes de como podem melhorar e é isso que a gente está fazendo aqui.