Mães que matam os filhos

«Mãe é sempre mãe.»

«Só uma mãe ama verdadeiramente os seus filhos.»

«Uma mãe faz tudo pelos filhos.»

«Não existe nada mais forte do que o instinto maternal.»

Estes são alguns exemplos de crenças enraizadas na nossa sociedade e baseadas numa conceptualização idealizada da maternidade. No entanto, a realidade parece refutar este mito. O amor de mãe (ou de pai) nem sempre se manifesta. Não é inato.

As estatísticas também são claras. As formas de maus-tratos com maior prevalência são a negligência e os maus-tratos emocionais e físicos. Na maior parte das vezes, perpetrados pelas mães ou principais cuidadoras da criança. E quando olhamos para o homicídio de bebés recém-nascidos (neonaticídio), crianças pequenas (infanticídio) ou mais velhas (filicídio), também as mães surgem com elevada prevalência enquanto autoras destes crimes.

Sim, há mães que matam os filhos, contrariando todas as expectativas e mitos associados à maternidade e à crença do amor inato de quem dá à luz.

Mas o que leva uma mãe a matar um filho? Onde fica o tal instinto maternal de protecção e amor?

Não existe uma resposta linear a esta questão, sendo que podem existir diferentes motivações.

A literatura identifica, por um lado, mães fortemente deprimidas, que não conseguem identificar qualquer saída para a situação que vivenciam. Percepcionam-se a si, aos outros e ao futuro de forma muito negativa. Estas mães sentem-se sem recursos para enfrentar um mundo cheio de obstáculos e ameaçador, acreditando que o futuro será apenas o eternizar de uma situação de forte sofrimento. Matar a criança, seguindo-se, frequentemente, o suicídio ou a tentativa de suicídio, surge como uma forma de protecção da criança de um mundo cruel, acreditando-se que, sem a presença da mãe, esta não seria cuidada. Nestes casos, afirma-se existir também uma motivação altruísta, na medida em que se acredita que a morte será uma forma de alívio, fuga de uma vida horrível e protecção da criança.

Existem também as mães que cometem este crime no contexto de um surto psicótico. Aqui, estamos a falar de doença mental em que existe um corte com a percepção da realidade. Sob a orientação de vozes de comando, por exemplo, ou num claro delírio de perseguição ou paranoide, cometem o crime sem a capacidade de avaliar, no momento em que o cometem, da ilicitude do acto e possíveis consequências do mesmo.

Ocorrem também mortes acidentais, embora associadas a maus-tratos ou negligência. Crianças que são deixadas sozinhas em casa e sofrem um acidente. Crianças que não são alimentadas durante dias e dias. Crianças abanadas violentamente ou batidas com chicotes, fios eléctricos descarnados… atiradas ao chão… queimadas com água a ferver ou ferros de engomar…

Outra motivação relaciona-se com o desejo de vingança ou retaliação. Muitas vezes em contextos de conflito parental, a criança é vista como uma forma de atingir o outro progenitor. Um meio para atingir um fim. Instrumentaliza-se a criança, que se torna numa arma de arremesso contra o outro. A morte da criança surge, assim, como uma forma de privar o outro progenitor do contacto com a criança, uma forma de o punir. Ou, ainda, acreditam estas mães, como uma forma de proteger a criança de um progenitor maltratante.

Existem ainda as mães que matam os filhos por não os desejarem, na maioria das vezes nas horas seguintes a seguir ao parto.

Também há situações em que não se encontra uma motivação especifica. Os estudos indicam ainda uma elevada prevalência de perturbações de personalidade e factores de stresse como desencadeantes do comportamento homicida.

Independentemente da motivação associada, e da natural angústia que que estas questões suscitam, esta realidade parece contrariar a expectativa de que o amor de mãe é incondicional.

A reconhecida autora Elisabeth Badinter, no seu livro Amor incerto – História do amor maternal do sec. XVII ao sec. XX, refere que «cada mulher é um caso particular (…) umas sabem ouvir o apelo dos filhos, outras não o ouvem tão bem, e existem ainda aquelas que o desconhecem por completo». De forma brilhante, afirma ainda que «o instinto maternal é um mito (…) o amor maternal não passa de um sentimento, sendo, como tal, essencialmente contingente. Esse sentimento pode existir ou não existir; ser e desaparecer. Revelar-se forte ou frágil. Privilegiar um dos filhos ou dar-se a todos por igual. Tudo depende da mãe, da sua história e da História».

Por tudo isto, este é claramente um tema para continuar a refletir.

Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. A pedido da autora, a crónica segue as regras do antigo Acordo Ortográfico.

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