Cancro: mudar comportamentos poderia evitar grande parte dos casos, diz Magda Roma

Magda Roma

A alimentação pode ser um fator de risco para o cancro ou um elemento crucial na sua prevenção. A nutricionista Magda Roma, autora do livro A Dieta Anticancro, volta à luta contra esta doença que afeta cada vez mais pessoas em todo o mundo, agora com o livro 5 Mudanças Antes, Durante e Depois do Cancro. À alimentação junta o exercício físico, as emoções, a respiração e as terapias complementares como pilares tanto na prevenção como no tratamento da doença.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia D.R.

Cada vez mais pessoas vão ter cancro, dizem os especialistas? Há alguma forma de contrariar este «vaticínio»?
Mudando os comportamentos teremos bons resultados. Segundo a Organização Mundial de Saúde 30 a 50% dos diagnósticos de cancro poderiam ser evitados. Segundo a WCRF (World Cancer Research International) mais de 70% dos fatores de risco são comportamentais e possíveis de serem alterados basta cada um de nós ter esse conhecimento/consciência para contrariar a previsão.

O seu livro A Dieta AntiCancro foi uma tentativa de contribuir para essa prevenção. Em que medida a alimentação pode influenciar as estatísticas do cancro?
Mais de 30% dos fatores de risco devem-se à gestão de peso e alimentação, ou seja, mais de um quarto dos fatores de risco devem-se ao que ingerimos ou ao que não ingerimos, logo a alimentação tem uma influência significativa.

Em traços gerais, que tipo de alimentação se deve fazer para prevenir o aparecimento de cancro?
Devemos privilegiar uma alimentação de base vegetal, com o aumento de ingestão de fibra dietética em cerca de 30 g/dia; ingerir diariamente 400 g de fruta, vegetais e legumes; uma ingestão de água significativa de forma a auxiliar os meios de excreção corporais a eliminar toxinas e outros compostos não benéficos; o tipo de confeção pode igualmente influenciar o surgimento de compostos nos alimentos, limitar o consumo de açucares e produtos refinados; diminuir ou limitar a ingestão de alimentos de conserva em sal; limitar o consumo de carnes vermelhas e processadas.

E uma vez instalada a doença, a alimentação pode ter alguma influência na sua evolução? De que forma?
No meu ponto de vista, a alimentação continua a ser a de base vegetal, e, dependendo do organismo, do tipo de cancro e da medicação que o doente toma a alimentação poderá ter que ser reforçada em determinados nutrientes [o nutricionista deverá aconselhar de acordo com cada paciente].

No que respeita à alimentação, há cada vez mais informação sobre o que é saudável e o que não é. Qual a razão, na sua opinião, para se continuar a fazer uma má alimentação?
O custo dos produtos de ingestão de baixa qualidade nutricional, a falta de programação das refeições e a falta de conhecimento. Há muita informação mas pouco conhecimento.

Por outro lado, há informações contraditórias… alimentos hoje tidos como extremamente saudáveis, amanhã podem ser dados como nocivos à saúde (o leite, por exemplo). Por que é que isto acontece? Como saber o que é realmente saudável? O que é saudável para uns pode não ser para outros?
Somos todos parecidos mas muito diferentes e as necessidades de cada indivíduo indicam a necessidade no consumo de determinados alimentos, no entanto, a ciência muda todos os dias mas há verdades com evidência significativa que nos levam a crer que determinados alimentos trazem-nos prejuízos e outros trazem-nos benefícios. Se no passado determinados alimentos eram interessantes, hoje, com os conhecimentos que temos e a tecnologia que os aporta sabemos que já não são assim tão interessantes. Devemos viver o agora pois é essa a realidade.

Outra questão prende-se com os suplementos alimentares, em relação aos quais começam a surgir muitas vozes críticas. Qual é a sua opinião?
Devemos sempre optar pelas fontes de nutrientes o mais natural possível, aquelas que proveem da alimentação, no entanto, nem sempre as nossas necessidades ficam satisfeitas mediante o estilo de vida que temos e poderá haver necessidade em suplementar.

O seu mais recente livro é 5 Mudanças Antes, Durante e Depois do Cancro. Que mudanças são essas?
Este é um livro com as últimas atualizações segundo a WCRF suportadas por estudos científicos. As mudanças que sugiro passam pelo exercício físico, gestão das emoções, terapias complementares, respiração e claro, a alimentação.

Quer explicar cada um deles?

Emoções: Cada vez mais associa-se as emoções ao cancro. Seja um trauma, um luto, uma perda ou qualquer outra emoção que não esteja realmente resolvida poderá, mais cedo ou mais tarde, manifestar-se no corpo físico. Há bons livros de autores investigadores e médicos psiquiatras que abordam esta temática. Creio que somos o que comemos, o que respiramos e o que pensamos, logo, não podemos descurar as emoções nesta e noutras patologias.

Atividade física: Segundo a WCRF, a atividade física, seja ela moderada ou intensiva poderá ser preventiva quer de um cancro quer de uma recidiva. E quando se tem um diagnóstico de cancro, segundo a mesma entidade e mediante cada caso, deve manter-se a prática.

Terapias complementares: Será sempre uma prioridade a via natural, no entanto, em determinadas situações, precisamos de uma resposta rápida do nosso organismo e poderá haver necessidade em recorrer a terapias complementares. No entanto, cada caso é um caso. Aqui foi pretendido expor alguns dos tratamentos complementares existentes à disposição das pessoas e que poderão potencializar a recuperação.

Alimentação: Os relatórios são explícitos quanto à necessidade interventiva da alimentação na prevenção ou no diagnóstico e temos indicações especificas de doses de nutrientes essenciais para cada caso. No entanto, a base será sempre a vegetal.

Respiração: Perdemos a capacidade de respiração completa ao longo da vida. Quando nascemos respiramos maioritariamente pela barriga. Mas porque é «feio» ter a barriga projetada, porque as roupas apertam a barriga, porque queremos ser mais esguios, vamos, ao longo da vida, anulando a clara necessidade de respiração completa utilizando uma pequena capacidade respiratória. A pergunta que deixo é, como podemos fornecer oxigénio às nossas células se só utilizamos 10 a 20% da nossa capacidade respiratória?

Por fim, as críticas a algumas terapias alternativas, chamadas por algumas pessoas de pseudociências, estão a subir de tom. Alguma vez as sentiu?
Não as considero pseudociências. Como podemos considerar áreas milenares, com conhecimento e atuação no corpo humano de forma holística uma pseudociência? A nutrição é uma área de saúde, e, encontro nos meus colegas de medicina chinesa e naturopatia, por exemplo, respostas que muitas vezes a medicina dita convencional não dá. Eu sou prova disso e muitos dos meus pacientes também o são. Devemos aprender a respeitar o trabalho de cada área e utilizar, de forma benéfica, cada uma delas em prol da saúde humana. Devem ser regulamentadas, o que é algo que as pessoas desta classe tentam já há algum tempo.

5 Mudanças Antes, Durante e Depois do Cancro [ed. Oficina do Livro] é o mais recente livro da nutricionista Magda Roma.